segunda-feira, 6 de abril de 2015

Desconhecido objeto de desejo: das ausências e da ficção de tantos outros

Se durante anos pus-me a trazer à lucidez da alma a verdade por detrás das tantas paixões da alma humana, das minhas paixões anímicas, dos meus [nem sempre] ordenados afetos e desafetos, do meus "quereres" incessantes, da cólera e do silêncio, delineando a anatomia de sensações indescritíveis e de emoções intensas, ainda é-me desafiante a tarefa de dizer, de simplesmente dizer, em palavras, fotografias ou gestos este estranho e desconhecido objeto de desejo que, não sendo materializado na figura de outrem, existe e persiste no fluxo de pensamentos abstratos, no tremor da brisa que atravessa as janelas do meu quarto, no arrepio da pele que transpira quando tú (?) me vens a assoprar sorrateiramente palavras,  ideias e aforismos que se transformam em sucessivos e diversificados cenários poéticos onde posso deleitar-me em melodias celtas de terras longínquas.
Se toda aquela energia primordial que sutilmente percorre as minhas veias e faz-me queimar em absoluto êxtase, num enamorar silencioso entre as folhas que escrevo acá na solidão de dias e dias a tentar investigar ao mundo e a mim na intuição filosófica de particulares lições; se todo esse confronto de forças antagônicas que beiram da delicadeza à barbárie, se toda essa ânsia de querer envolver-me sem comprometer-me, de querer estar, sem jamais permanecer, é-me tão obscuro este objeto de desejo que faz meu coração pulsar num ritmo frenético, porém sublime...
Jamais fui capaz, mesmo com total zelo, de atingir a neutralidade quando estou a tecer personagens para fazer de conta que a solidão é só uma canção melancólica que passará...Porque nunca passará e eu poderia projetar-te sempre, a qualquer tempo. E eu poderia me espantar com a saudade que tú(?) deixaste ao depositar o caderno, o livro, o fragmento de papel na prateleira ao lado. 
Sim, há algo de absurdo, há um flerte de insanidade no que estou prestes a admitir, contudo, não é-me fácil equacionar estas variáveis de sentimentos desconhecidos, forjados, criados a partir da poeira dos meus sonhos. Por isso nunca bastou imagens estáticas de alguém com quem eu poderia flertar em versos, em infindáveis lições que tú me ensinavas. Nunca bastou e nunca bastará e, por isso, ainda carregava a cruz da minha vergonha frente a esta situação promíscua de querer encontrar-te em tantos outros. Porque não foste apenas um? Porque tú se multiplicava em tantas personalidades?!  

Será que ainda resta-me algum grau de sanidade? Pois nem mesmo sei quem és tú! Quando brinquei de te desenhar-te em pensamentos soltos não pude imaginar o quanto nossos pensamentos podem ser poderosos a ponto de tornar este objeto de um incessante querer.
Há, sim, uma presença forte nas ausências que meus olhos e a minha pele me lembram quando em transe neste momento em que estou entre o fantástico e o real. 

A ficção nem sempre é a arte de contar uma estória alheia. Por vezes, é recurso literário íntimo, particular e, por isso, pode ser tão autobiográfico que temo ter perdido o controle sobre o papel e a tinta desta caneta já viciada em pôr-te nas entrelinhas e entreatos de estórias que não são minhas, mas que são atingidas pelo incontrolável envolvimento meu. Incapaz de ter fechado todas as portas, tú(?) atravessaste o limiar do meu mundo. Todavia, não me vens...não me vens...Perturba-me quando me desconcentra das atividades intelectuais que me são habituais porque eu era aquela que me deleitava em meio a livros, filmes, ideias, paisagens e, hoje, sinto-te tanto aqui, numa presença fantasmagórica, porém intimidante, forte, intensa, marcante. 
A relação com meus livros já não é mais a mesma e eu nem mesmo sei se existes ou se algum dia existirás...