terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Lições de Dramaturgia Laboral: Ato Final (IV).: Cai o pano

Nem todos os desfechos das peças teatrais em que ora somos os personagens e ora platéia encerram-se com finais felizes. Cai o pano; os tantos véus que cobrem as sombras e as silhuetas de forasteiros em geral, partes de nós mesmos a perambular em súplica ao encontro de nós mesmos, atores que os rejeitaram na ilusão de sermos aquilo que as plateias ensejavam. Ás  vezes custa-nos uma vida e certa dose de coragem para abandonarmos os tantos personagens que consciente ou inconscientemente assumimos no palco da existência, afinal, o exercício do autoconhecimento pressupõe um desvelar-se que tende a nos lançar num imenso vazio, dissolvendo as ideias e verdades que ora acreditamos ser, de fato, verídicas mas que foram artificialmente criadas tão somente para serem compatíveis com os papeis que ora encenávamos.
Tenho notado que encontrar o nosso Eu é abdicar de uma série de papeis, de atos e entreatos, saltar de um arranha céu na certeza de que asas se abrirão para alçarmos o voo desejado, ainda que este não tenha destino algum. 
É o processo de desidentificação com os tantos 'eu' que nos habitavam, as tantas vozes que ecoam em nossa mente cobrando-nos, pressionando-nos, suprimindo nossa autenticidade e espontaneidade e, assim, acabamos por assassinar o verdadeiro artista que nos habita. 
No Teatro das corporações, no entanto, as grandes preocupações  que pairam sobre os atores é a questão da autoimagem, do sucesso, da destreza e do orgulho que consome nossas forças deixando-nos a deriva de nossas motivações internas.  Eis o nascimento da tragédia: nosso mundo interior, nossos sentidos, nossas escolhas e desejo seduzidos pelas externalidades, como se devêssemos ser aquilo que outrem esperam de nós, tamanha é a ausência de si. Mas não há fama que dure para sempre quando viramos as costas para os nossos reais propósitos.
Chega um momento em que nossos papéis tornam-se obsoletos, uma crise de criatividade nos toma por completo e as nossas forças parecem desvanecer. Numa fração de segundos, nos vem, por fim, a certeza do declínio. Impotência, esterilidade, depressão, ansiedade...o prelúdio da ruína, É quando as máscaras que nos protegiam caem e ficamos absolutamente vulneráveis e estarrecidos pela advertência do Tempo, este senhor que nada perdoa e que tudo devora, um andarilho que subtraí-nos os anos com voracidade deixando em nossa memória tudo o que fizemos do tempo que nos fora dado, E, assim, vivemos nós, atormentados pela ideia de que nossos dias foram arrastados por sucessivas tramas nas quais pensávamos e agíamos em demasia, mas com total ausência do espírito, ou seja, sem qualquer contato para além das superfícies em que ancoramos o nosso desfolhar de dias. 
É-me tão perturbadora esta ideia de papeis que meu esforço em meio aos deveres e demandas externas diárias tem sido o de inserir significado em tudo que faço. Por vezes, é necessário desprender certo esforço diante dos contextos que não fazem a nossa alma vibrar, mas é o exercício diário da criatividade e da transcendência. 
Há de chegar a todos este ato final, esta tempestade consciencial que vem em fúria nos separar destes personagens perversos e traiçoeiros que por anos roubavam-nos a cena, subordinando-nos a papeis estrangeiros e a atos delinquentes. Ao final de tudo, chega o momento do grande salto, a decisão final: continuaremos a viver programados pelos nossos sonhos artificiais ou seremos suficientemente conscientes da necessidade de abandonar os personagens que nos consolavam para sermos autores de nossa própria história, de nossos próprios momentos e emoções?

O fim de toda a saga: não existir medalha ou premiação alguma, nem aplausos, nem sorrisos, nem contrato de fama que dure para sempre. Existirá, sim, apenas a certeza de que um dia estaremos frente a frente com o nosso alter-ego a jogar-nos na cara todas as ilusões que nos perverteram. Chegará o dia em que as cortinas negras do palco se fecharão e, na escuridão do silêncio agonizante, deveremos recolher cada fragmentado que restara de nós mesmos e seguir em frente.


Lições de Dramaturgia Laboral: Ato III.: Das adoráveis mentiras


Você seria capaz de mentir como forma de preservar suas próprias verdades?
Defenderia a tua verdade se, para isso, tivesse que construir um castelo de mentiras ao seu redor?
Teria suficiente lucidez para achar-se em meio a perdição?
Que preço estaria disposto a pagar pelo insustentável peso das mentiras e pela tormenta das verdades que impiedosamente batem-lhe à porta?

Todas as verdades tendem a ser constituídas também a partir do amargo das mentiras. Verdades e Mentiras, dois pólos opostos, mas que se condicionam mutuamente, Ambas se enlaçam, ambas levam os homens à profundos estados de tormento e nem todos que, diariamente precisam vestir mentiras, sabem do peso das verdades. Da mesma forma, não se sabe até que ponto nossas verdades mostram-se frágeis e, em meio ao nosso esforço de mantê-las intactas, acabamos por protegê-las cercando-as de mentiras.
Alguns optam por meia-verdade, meia-mentira e, assim, vive-se de forma meio-consciente. Tende a ser chocante demais nos depararmos com o fato de nossos ofícios compactuarem, muitas vezes, com a anulação de nós mesmos. Como se fossemos artesão dos instrumentos que, mais tarde, serviriam para nos ferir e arrancar-nos a vida pulsante.

Toda vez que me vejo diante de um palco -  mais assemelha-se a uma corte de juris e jurados, onde multidões se reúnem para assistir a sua performance, lembro que existe dentro de mim alguém que nunca  de encenações que desvelam o peso das mais infames hipocrisias e dos gestos sarcásticos que, com certas doses de seriedade e orgulho, quer convencer-me de que há algo errado, inadequado com àquilo que me proponho a fazer, faço uso de um dos recursos utilizados em larga escala pelos atores profissionais: as adoráveis mentiras. Em grande parte elas nos sustentam e podem ser nossas últimas defesas. Isso porque sempre há forças que nos amarram, que nos limitam, que controlam os nossos passos e, as vezes, é preciso fingir-se de morto para não sermos abruptamente devorados pelas multidões.

Ás vezes conseguimos ampliar nosso espaço de introspeção, de conexão interna quando no exercício de nossas funções buscamos formas criativas de preencher as lacunas deixadas pelo tédio. Um tipo de compensação pelas horas destinadas às atividades monótonas, opacas e repetitivas Quando somos involuntariamente membros da Cia de teatro corporativo, podemos romper com certos hábitos quotidianos. Se você atua em frente a um computador, é possível utilizar-se de fones de ouvido, um instrumento poderosíssimo que lhe permite desconectar-se, temporariamente, dos excessos, inutilidades e blasfêmias que mais parecem um cortejo soturno de algazarras e de conversas desinteressantes. Você pode ser absolutamente profissional em seu personagem, em seu contexto de atuação, porém, nada lhe impede de selecionar aquilo que lhe convém, aqueles que poderão, por exemplo, enriquecer a mente e a alma. Nossos sentidos são janelas abertas para o mundo, porém, com incontáveis filtros e recursos que norteiam nossas escolhas, guiando-nos em direção aos nossos desejos mais profundos. Assim, se durante o expediente não podemos ser o rio que flui, podemos ao menos estabelecer contato com a nossa dimensão interna e, por experiência própria, sinto que ao atribuirmos importância às nossas motivações e propósitos interiores - mesmo que seja uma parte ínfima destes elementos - aquele dia monótono, entediante, colérico passa a dar a luz a dias inspiradores, como se uma chama se acendesse em meio à escuridão e fosse se expandindo. Buscava tanto a claridade e encontrava mil formas de lutar contra a tendência de nos alienarmos ou de simplesmente nos transformarmos em pessoas desconhecidas que vestem mil personagens mas que, no entanto, é incapaz de perceber-se como ser único, livre e independente de todos estes contextos estreitos que nos metemos, acreditando sermos incapazes de sairmos dele.A batalha é diária, mas sempre é-nos realizadora. Isso implica em mil acrobacias para não corrermos o risco de rompermos, sem nos darmos conta, com as demandas externas, pois é preciso de certa percepção ou perspicácia para manter estes dois polos equilibrados. Claro que muitos não vão lhe entender, afinal de contas, quando se vive em terra de cegos, a mais sutil das visões pode despertar a ira e um efeito em cadeia indesejável, por isso mentir, é preciso. Não por constrangimento, não por atribuir qualquer importância aos julgamentos alheios. É por uma questão de honra a integridade, apenas isto. E para quê ou por quem você revelaria sua face? Para que batam-lhe na cara, para que usurpem todo o contentamento que preservavas em retidão? Para depois explicar-se, defender-se, recolher os pedaços e prosseguir?

O desafio de ser si mesmo passa pela nossa habilidade de arquitetarmos mentiras  que nos permitam vivenciar as nossas verdades no contexto laboral. É preciso, pois,  resgatar aquele Ser sufocado, o Ser renegado, aquele que raramente protagoniza o nosso estrelato. É preciso buscar sentidos e significados por cada centímetro dos caminhamos que percorremos, é necessário revestirmos cada passo com uma emoção singular. Ainda que caminhes por lugares inóspitos, por terras desconhecidas e hostis, faz-se absolutamente necessário resgatarmos as nossas motivações internas, aquilo que nos inspira, que enaltece, que nos preenche verdadeiramente. 

Nossos deveres e compromissos jamais poderão substituir o espaço destinado aos nossos sonhos, realizações e desejos d'alma. Do contrário a vida seria uma causa perdida e todos os nossos esforços seriam inúteis. Não me basta viver de meias verdades legítimas, por isso fico com as mentiras que brincam de falar verdades.

Por vezes, precisamos transparecer certa indiferença e manter uma postura condizente a uma relativa uniformização. Passarmos de tolos, sujeitos ordinários e uniformes às vezes é uma estratégia defensiva de grande amplitude quando em verdade estamos a necessitar da vida integral que nos escapa...

Lições de Dramaturgia Laboral: Ato II.: O desafio de ser si mesmo

Ao sermos selecionados para tomar posse de uma função - assumindo um papel que irá desenhar grande parte de nossa sina profissional  -  assinamos, de fato,  um compromisso corporativo e, pelo mesmo ato, aceitamos ser um personagem. Isso traz implicações significativas. Quanto nos custará essa obra ficcional...
De posse de nosso papel acabamos por deixar a nós mesmos do lado de fora da recepção, retiramos os sapatos e aceitamos, com certa resignação, a ideia de auto-superação, a superação de 'si', a negação do que somos em detrimento a um novo sujeito que seria progressivamente formado. Demos vida a um personagem e nas sombras por detrás das cortinas está a lamentar em profunda solidão aquele/aquela que um dia fomos. Há, lamentavelmente, a chance de deixarmo-nos abandonados numa estação de trem e nunca mais nos encontrarmos. Como numa viagem sem destino certo, onde não temos qualquer evidência sobre o retorno. Simplesmente parte-se. Partira, partiu-se...
Há a inconveniente advertência de que perder-se leva-nos, de fato, a uma agonizante perdição.  Ainda assim, nos sentimos orgulhosos de nosso papel e da coleira que carregamos no pescoço dizendo quem somos.
Contudo, quando a marca do tempo fizer-se em nossa pele, em nossos músculos, no nosso vigor físico e intelectual a tendência inevitável é perdermos muitos dos papeis que acreditávamos ser nossos, aqueles os quais nos aferrenhamos. Obcecados pela fama, nos sentimos, muitas vezes, traídos pelos nossos próprios desejos, pois não é tarefa simples persegui-los até o fim quando a vida revela a sua outra face: a da morte. Morte de sonhos, mortes de estabilidades e tantas outras coisas as quais nos apagamos. 
A Escola da vida comporta a Escola Teatral e nesta última, por sua vez, encontra-se a dramaturgia laboral, aquele desdobrar de dias que alternam-se entre encenação e a retidão. Ao menos na retidão, haveria um pouco de vida, espontaneidade, atenção e cuidado para consigo mesmo. Mas não há silêncio e introspeção que seja em delongas. 
As lições de dramaturgia laborais tem como objetivo tornar o sujeito apto à vida em sociedade [principalmente na sociedade frenética do trabalho], além de propiciar, progressivamente o desenvolvimento de habilidades intelectuais e de talentos úteis a ela. Nem sempre o sujeito fora protagonista. [nem mesmo de sua própria história]. Tão esvaziados de nós mesmos, reduzimo-nos a engrenagem da máquina, a ponto de não sermos apenas atores, mas meros fantoches. Por vezes não podemos ser mais do que personagens atuantes numa dimensão muito distante de nossos reais propósitos internos. Que sujeito desprenderia certa quantidade de horas semanais trabalhando arduamente em algo que nem sequer desperta uma fagulha de contentamento? 
Quando aprendesse as lições e fosse devidamente avaliado, estaria graduado, formado, relativamente preparado para ser quem deveria ser. Seríamos por fim, bons servos e atores. Não nos caberia mais os velhos desejos, vontades e personalidades. Até mesmo alguns tipos de temperamento - aquele instinto natural que nos habita - muitas vezes deve ser suprimido. Tempo de mudanças radicais, profundas e que tendem a ser irreversíveis. Mudamos nosso cabelo, nossos corpos, nosso vestuário, nossas aspirações e prioridades. Até mesmo a forma como lidamos com o silêncio, afinal, a comunicação passa a ser exigência e aquela introspeção que exaltava a alma não tem mais espaço. Nossos ânimos também mudaram e já não sentimos a vida em seu esplendor. A vida, este frágil pedaço de vida que ainda se desprende vacilante do ser. 
Interessante notar como cada dia 'útil' começa a partir da corda que damos ao relógio. Antes mesmo de pensarmos em dormir, já preparamos o despertador para soar desesperadamente no mesmo horário e, assim, damos corda em mais um dia, da mesma forma como damos corda a um brinquedo mecânico. É exatamente assim que damos corda à mais um dia. Despertamos cambaleantes e sempre tomamos um susto com a aparência que há muito não se via no espelho. Tantas vidas, tantas máscaras, tantos sorrisos feitos e desfeitos em função dos ritos sociais e profissionais que vamos cambaleantes e semi-conscientes para o palco que nos espera ansiosamente. Você chega ao seu local de trabalho e precisa despertar para o ensaio.
Você abre os olhos em meio a uma atmosfera impregnada por palavras, atitudes, tarefas e tantas outras coisas que são, essencialmente, pertencentes a coletividade. Tudo é excessivamente alheio. Difícil é ver-se desconectado de tantas coisas que não nos pertencem. Em certa medida, a individualidade, ou melhor, a individuação foi suprimida do teatro da Cia, afinal, na era da [excessiva] comunicação, monólogos não eram bem quistos. A individuação, dentro da filosofia política liberal interessante apenas num contexto socioeconômico, mas trabalho, em si, é sempre convite para sermos muitos e, por isso, desafio de autoafirmação para quem não se rendeu inconscientemente a esta dramaturgia. Assim liberdade não são os palcos onde expressamos nossas cartases e todo o nosso aspecto caricatural. Liberdade passa a existir apenas no mundo das aparências, na materialidade de tudo que jaz externo. Será que nossa liberdade fora reduzida ao nosso sucesso financeiro, ao nosso poder aquisitivo ou, ainda, à quantidade de papéis que somos capazes de suportar? Felicidade artificialmente imposta no mundo lá fora. De tão mercantilizada, de tantos fetichismos a ela atribuída não houve um homem sequer que sentiu-a como um singular estado de alma e a insatisfação prosseguiu....e, assim, o homem continuaria a investigar as possibilidades de alcançá-la...jurou ser, a qualquer custo, quem fosse para, enfim, conquistá-la. Aceitou todos os papeis, não renegou nenhum personagem, teria vendido a alma por algumas migalhas de alegria legítima. O mundo das relações humanas se tornara tão difuso e as opções para Ser não eram evidentes e certeiras no deserto da existência plena que a carreira de ator nas corporações poderia ser um exercício estimulante de autoconhecimento. E se a vida fechasse as cortinas do maior teatro que já existira, seria, pois, o trabalho uma alternativa. Sem eu não sei quem sou, talvez no trabalho eu poderia desabrochar, encontrar algum sentido [em quê?! era incógnita] para continuar, ser alguém [quem? - não era claro] e, se nada desse certo, ao menos haveria fundos para consumir e, quem sabe um dia, comprar um pacote completo de felicidades inexoráveis! O sonho do homem [moderno] ridículo. Dostoiévski tinha razão sobre a grande incidência de homens tolos que vivem a interpretar personagens na ânsia de um dia ser...alguém...   Shakespeare já havia adiantando séculos de subjetivações e retratou o homem arrogante que interpreta personagens que fazia-lhe sustentar certo orgulho. Era pelos personagens que ainda mantinha-se em pé. Quanta tragicomédia um único contrato pode comportar! 
Sim, eu sei que isso soa escandaloso demais e também não sou ingênua ao ponto de acreditar que não existe realização profissional, trabalhos gratificantes, empresas que são milionárias, porém promotoras do desenvolvimento humano e profissional, além dos comprováveis benefícios psicológicos proporcionados pelo trabalho. Isto não é um tratado ou um ensaio contra o trabalho. Não é uma tentativa de desconstruir as corporações, por mais que minhas reflexões contestem certas estruturas ou cenários. Em verdade, tudo que escrevo é sobre a alienação do sujeito com seus disfarces e personagens. Não há como mudar tudo e a todos para a forma que acreditamos ser a mais certeira, mas é possível mudarmos nossa postura diante de qualquer coisa sem nos alienarmos, sem nos trairmos ou nos hipotecarmos. Mudar por razões alheias, mas não ser a própria mudança não basta. Nunca bastará! O problema não é sermos levado a ter certa disciplina, seriedade e abdicar de certas vontades durante o expediente, pois estes também são requisitos para se alcançar certas expectativas da alma. A questão refere-se, muito mais, à nossa alienação consentida e as hipocrisias sustentadas quando vestimos personagens perversos para o outro e para nós mesmos. Para alguns isso pode soar exageradamente insano, surreal. Sei que essa conotação fere com valores e princípios fortemente arraigados à uma sociedade como a nossa: ocidental, urbana, tecnológica, complexa. A sociedade do trabalho e da informação. Neste cenário, cada novo dia de trabalho será como uma pincelada do artista que retoca sua obra constantemente, em busca duma perfeição. Após algumas pinceladas, mudanças de nuances, traços e cores, o mal já teria se consumado: outro ser passaria a habitar dentro de nós - um desconhecido - e, em pouco, aceitaríamos a ideia de superar o antigo para que o novo pudesse se expressar. A isso denomina-se 'inovação' e 'flexibilidade'. Conceitos em voga no dicionário corporativo e, porque não, no grande Teatro onde seria posto à prova as lições de dramaturgia. 
Na Cia Teatral são diversas as possibilidades de encenação: há reuniões de negócios que se sustentam a partir de um jogo de belos e malditos. Também é a oportunidade do marketing pessoal...essa arte interpretativa de expelirmos o desejo dilacerante de vestirmos o herói. Mas é também um  um dos muitos tipos de sentença para quem não tem nada a declarar, a insinuar ou promover. Assim, as reuniões assemelha-se ao 'processo kafkaniano' ou ao julgamento de Sócrates. Há, também, os treinamentos destinados a cada perfil profissional. O 'aquecimento' que normalmente falta aos atores ingressantes. Nestas horas, cabe-nos absorver em profunda ignorância e cegueira cada lição de moral ou de refletir sobre as diversas formas de discriminação e opressão da personalidade humana. Tudo é questão de escolha e de perspectiva. Quanta Psicologia aprendi destas lições dramatúrgicas! Ah, nada da experiência humana é perdida! A Arte não morre, mesmo nos auditórios acinzentados, não haverá de morrer nunca, ainda que seja apenas uma grande mentira que a sustente. A mentira sempre tem algo de artístico...
No mundo das corporações há sempre desafios aos atores. Ser autêntico e defender sua própria personalidade é tarefa diária, mas sempre é-nos gloriosa, afinal, o simples fato de sermos capazes de desmistificar certas posturas inconvenientes que traem nossas verdades e princípios nos coloca sempre a frente, para além dos muros estreitos de onde nascem as tragédias. É, pois, desafio proeminente Ser quando há regras para se Estar.
Diziam que a diversidade é marca das organizações contemporâneas. Compreendeu-se que seria, por fim, vantajoso formar equipes distintas desde traços físicos, passando pelos sociais, culturais e intelectuais. No entanto,  há limites e regras claras para a diversidade. Como se aceitássemos a existência de um caleidoscópio de cores diversas, mas que na verdade, seria apenas um instrumento refletor de tonalidades pouco distintas. O fato é que nem todas as cores são permitidas, apenas as tonalidades de uma única cor. Por esse motivo, a vestimenta também é parâmetro para a definição dos personagens. E quando acham-se suficientemente elegantes aqueles que trajam seus ternos ou vestidos chiquérrimos, na verdade prosseguem como homens e mulheres absurdamente 'comuns'.  Uma legião em preto e cinza a desfilar em patético orgulho. Me perguntava o que dele sobraria ao chegar em casa e desfazer-se de toda aquela roupagem. Até o próprio orgulho estava corrompido, pois essa superioridade era conferida a um personagem. Fora dos palcos, teriam de lutar para encontrar-se para, muito depois, sentirem um lampejo de orgulho.
Por esse motivo, há roteiros e enredos definidos para cada um. Há atores que incorporam-se nos personagens, por isso conseguem reter um pouco de espontaneidade. No entanto, há personagens que fiam-se nos atores, roubando-lhe a cena, os sentidos e as emoções. Viver na sociedade do trabalho não é muito diferente de se viver numa selva: todos devem estar atentos as armadilhas e aos ataques sutis e repentinos. E na realidade quotidiana de trabalho o desafio é sermos 'bons' personagens e, paralelamente, nunca! jamais! esquecermos do ser original, aquele que nos move ....trabalhar e, simultaneamente, ser nós mesmo, com todo o respeito e a devida consideração não necessita serem atitudes antagônicas. Ás vezes precisamos de mentiras, anedotas e algumas doses de humor para adentrarmos os portões corporativos sem nos deixarmos de lado. E a verdade é que mesmo nos palcos do teatro empresarial, é aquela singularidade, autenticidade e espontaneidade que nos tornam sutilmente atrativos. É a nossa marca que nos marcam...o respeito pelo nosso ofício nunca existirá sólido quando não contarmos com a inspiração interior e o brilho da ousadia nos olhos.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Lições de Dramaturgia Laboral: Ato I.: A escolha dos personagens



Notas preambulares ao (con)texto:

¹Anti-herói: é o termo literário que designa o personagem caracterizado por atitudes referentes ao contexto do conto contemporâneo, mas que não possuem vocação heroica ou que realizam a justiça por motivos egoístas, pessoais, vingança, por vaidade ou por quaisquer gêneros que não sejam altruístas, ou seja, é o antônimo da ideia que se tem de herói. A maioria dos anti-heróis da ficção são mais populares que os heróis clássico [talvez porque revelam as dimensões mais genuínas da condição humana].

Burrhus Frederic Skinner² (1904-1990): cientista e psicólogo americano que acreditou na possibilidade de controlar e moldar o comportamento humano. Foi um dos mais célebres pensadores da área do Behaviorismo, uma corrente dominante na psicologia até 1950. Em seus últimos anos de vida, ele construiu, no porão de sua casa, sua própria “caixa de Skinner” – um ambiente controlado que propiciava reforço positivo. Sua obra é a expressão mais célebre do behaviorismo, corrente que dominou o pensamento e a prática da psicologia, em escolas e consultórios, até os anos 1950. 


Segunda-feira...

O relógio marca 07:00hs, mas as cortinas do palco abrem a partir das 09:00hs. Cartazes e letreiros digitais extravagantes informariam, de pronto, a programação do dia.

Estou a referir-me, metaforicamente, ao local de trabalho, este lugar cujos acontecimentos alternam, incessantemente, entre o cômico e o trágico. E notem que, 'programação' tem seu evidente duplo sentido neste contexto. Trata-se da nossa auto-programação no esforço de sermos ótimos intérpretes. É a programação que também nos estipularam e que, de muito mal grado, fizeram de nós, uma programação de entretenimento e, também, de doutrinação a outros tantos. Programação de massa.

A cada novo dia de trabalho há um espetáculo a ser apresentado, peças a serem ensaiadas, coreografias e performances a serem discutidas em detalhes, esperando que as melhores acrobacias atinjam, por fim, os objetivos organizacionais propostos.
De segunda a sextas-feiras somos chamados para o estrelato, ninguém foge à dramaturgia laboral, afinal, este processo é inerente ao sucesso de...de quem?! Não nos disseram. Tudo se resumira a aceitar ou não os papeis. A isso se denomina processo admissional. Admitir-se-ia vestir diariamente um personagem, uma desconhecida entidade que, em pouco tempo tomaria-lhe o corpo, os olhos, os ouvidos e a boca? Ao menos, há quem defenda a arte da interpretação. Há quem julgue a importância de lutarmos pelo personagem que devemos ser, afinal, quando subimos ao palco, inexperientes e constrangidos, nada somos. Foi o que disseram. Fizeram-nos acreditar que aquele ser que jaz encantado sob a luz dos holofotes não é, senão, um mero aprendiz, servo, servidor e provedor. Contudo, sabe-se que a dramaturgia não foge ao clássico maniqueísmo e que, portanto, a performance de cada um sempre tenderá para as conquistas do herói ou para as desgraças e infortúnios do vilão. Ser herói e/ou mártir é o toque final dado a cada ator. Esse era o objetivo final, o desfecho principal.

O anti-herói¹ sempre é descartado do contexto cênico das corporações, fato que leva o seu obscurecimento nesta narrativa. Contudo, dou-lhe um crédito e, assim, falo um pouco desta figura tão detestável à engenharia humana do trabalho. O anti-herói sempre é, no mínimo, desinteressante à Cia, pois sua postura é sempre imprevisível, suas falas costumam ser estranhas ao conteúdo original dos roteiros, seus pensamentos quase sempre falam mais alto do que as palavras que lhes foram autorizadas a proferir quando em público. Havia o que alguns consideravam como excesso de criticidade e isso quase sempre soava ameaçador e evitava-se, sempre que possível, o tormento da expulsão de rebeldes. Não seria uma atitude louvável e, muito menos, encorajadora aos demais, por isso evitava-se também as algazarras.

Diferentemente dos papeis caricaturais e dos clichês claramente identificáveis na figura do herói ou do vilão [o que os tornam absolutamente previsíveis e repetitivos] o anti-herói, por outro lado, é incapaz de definir-se a partir de um destes dois polos. Até certo ponto,  ele vive a liberdade de ser, e isso significa, do ponto de vista cênico, que ele pode modificar, sem maiores delongas, todo o curso da estória [ou da história]. Ele pode, por exemplo, questionar, discutir e até mesmo inverter certos preceitos e valores que, tendencialmente, se repetem nas peças teatrais clássicas. Eis o perigo: estar defronte a revelações indesejáveis. 

Além disso, de maneira geral, torna-se praticamente impossível apreendê-lo durante sua exposição.; registrar seus traços, antecipar seus passos, prever seus atos. Compreendê-lo passa pelo fato de aceitarmos suas atemporalidades e seu talento peculiar de fazer-se, sempre, absolutamente incompreensível. Ele não dita ou segue regras, abruptamente as esmaga corrompendo todos os códigos social e moralmente aceitos. Ele não é ditado, é sempre improviso. Não é igual a tantos outros, é sempre singularidade. Seu talento reside em sua perspicácia, criatividade e boas doses de humor sarcástico. Mesmo sarcástico não é mau. Ri da tragédia de fora e, mesmo assim, é aquele que salva, aquele cura, aquele que liberta. Não tem poderes divinos, mas a partir dele faz-se milagres. Durante uma interpretação, quase sempre o espectador se depara com a dificuldade em descrevê-lo ou de decifrá-lo. De fato, não há um fio condutor seguro nas narrativas quando na presença do inusitado anti-herói. Tudo jaz absolutamente solto, suspenso nas entrelinhas. É justamente por isso que ele não é, assim como os personagens 'comuns', suscetíveis à modelagem e a adaptabilidade requerida de todos os atores contratados. Na verdade não haveria, sequer, possibilidade de contrato. Não vendera a alma.

Mas, os sujeitos 'comuns,' ao adentrar os corredores estreitos e acinzentados daquela imensa confraria, saberia que haveria uma pilha de folhas escritas a serem estrategicamente entregues a cada ator-mirim. Quando ingressamos em nosso ofício, não  escolhemos papeis, enredos ou cenários, estes já estão postos a priori e, ao chegarmos pela primeira vez à nosso posto de trabalho, já sabemos quem somos ou, melhor, quem iremos ser. A ideia ainda não nos é suficientemente clara, mas ela vai adquirindo uma progressiva solidez quando lançados ao jogo da (sobre)vivência. 

Em cada um dos dias, somos conduzidos a um labirinto. Lá ficamos, experimentamos e somos experimentados a todo momento. Tal como uma imensa caixa de Skinner², somos pequenos ratinhos em desespero até acharmos, finalmente, a barra que nos proverá com o alimento mais que esperado.
Quando tomamos posse de nosso papel, no exercício de nossa função, somos despossados de certas características humanas para absorvermos aquelas que constam em nosso roteiro. Assim, descobrimo-nos em processo de construção. Assim que fomos hipotecados, assim nos alienamos. Empreender esforços gigantescos na luta pelo herói que disseram estar dentro de nós passa a ser a nossa profecia. Prometeram-nos, motivação, realização, fama e até felicidade...

Dizem que é o trabalho que dignifica o homem... desconfio de tal provérbio, pois dignidade nunca existiu à posteriori e nunca foi exógena ao homem, ela é inerente ao humano! Nosso erro foi o de subtraí-la de nossa própria condição e, lamentavelmente, lançá-la à roda da fortuna da existência terrestre deixando os homens à eterna procura de sua integralidade e realização naquilo que jaz fora. Pobre mortais! Passariam a vida toda a procura de um fio de dignidade [um fio!] e, assim, prosseguiram fadados a nunca mais encontrá-la. Perder-se-iam numa saga mortal e viver-se-ia no incomensurável vazio. 

Voltemos à dramaturgia liberal. Nela, o ator é improviso, mas seus papeis, suas vestimentas, posições, gestos e comportamentos já foram devidamente escritos e catalogados em documento confidencial. Este é sempre o parâmetro para se mensurar as habilidades e talentos do ator antes, durante e após um ato performático. E é, principalmente, o paradigma de que se valem os diretores do espetáculo para avaliar as características e os atos que devem ser modificados para melhor se adequarem aos fins propostos. Compatibilidade e adaptação fazem parte da companhia corporativa de Artes Cênicas.

Um curioso enredo é o primeiro de nossos instrumentos de trabalho: nele constam longas narrativas a respeito de quem devemos ser e até que ponto poderemos ser. Há um exaustivo manual de recomendações ao bom ator e o resultado de sua performance fará a sua sorte ou o seu infortúnio. Todos os trabalhadores tem o dever de absorver cada recomendação e de deixar o manual sempre por perto. Na hipótese de esquecer-se em demasia, lá naquelas páginas previamente escritas, estaria o script, as advertências, os aconselhamentos. Era, pois, um guia de consultas. [Não, não era a consciência mais este guia]. Mas haveriam ainda o cortejo de 'boas-vindas', o 'aquecimento', os alongamentos e os treinamentos. Tudo estava incluso nos pacotes e cada dia de trabalho fluía a partir de seu conteúdo modular.

Os primeiros dias de trabalho, na verdade, se constituem em pequenos workshops destinados aos iniciantes, vulgarmente chamados de amadores. Aqueles que ainda não são, propriamente, para a empresa, são sujeitos que estão nos degraus do 'vir-a-ser'. Ainda haveria um longo script a ser internalizado.

O desafio era despojar-nos dos personagens interpretados por horas afinco, ao final do expediente. Todos costumavam voltar para a casa com a forte impressão de seus personagens e, em muitas ocasiões, ocorriam-lhes que estavam a proferir a entoar as mesmas palavras e a repetir os mesmos gestos. Haveria desafio maior do que sermos quem somos em meio a um filtro de impedimentos e nulidades impostos pelos grilhões laborais. O desafio de ser si mesmo em meio a tantos personagens... quais estratégias empregarias  para não cair em perdição nos entreatos da vida profissional que jaz impiedosamente?!

Deixemos o crepúsculo desta tragédia para o próximo ato...


domingo, 28 de dezembro de 2014

Atrevimentos anímicos - a busca pelo elo sagrado

Feriados prolongados, nos quais voluntariamente saímos dos cenários sociais para dar-nos a atenção aos nossos anseios, vontades e paixões, tendem a ser perigosos, mas, simultaneamente, surpreendentes. A periculosidade reside naquelas sensações de insatisfação e de certo aborrecimento que abrem feridas profundas no peito, feridas estas que sangram na medida em que as veias já não mais suportam o peso de dias coléricos e absurdamente iguais, como se a vida fosse uma sucessão de eventos idênticos, como um canto em uníssono, com a mesma melodia triste, o mesmo ritmo entoando as mesmas vibrações. Vazio e patético. Eis o perigo de se olhar para dentro enquanto se vive, eis-me, então, assistindo o conjunto de pequenos quadros que dão a totalidade de uma projeção cinematográfica de tudo que fui e de tudo que ainda sou. 

Em contrapartida, são estes dias consecutivos de introspecção e de observações cuidadosas que impulsionam vontades e ações que outrora não vingaram. Eram tempos em que as sementes originárias da vida  jaziam escassas e, por isso, estavam fadadas à esterilidade. Falo de tempos em que atravessei desertos, campos de batalhas, florestas selvagens e subúrbios longínquos trazendo em minha alma apenas os dissabores, as sujeiras e a sede...tempos de mal-grado cujo motivo da cólera era o de pensar impérios, mas de sentir apenas o desconforto de humildes cabanas e de agir a partir de ruínas de edifícios inóspitos. 

A advertência da alma só viera anos depois, quando o mal já havia acimentado o vale de sonhos exuberantes e, acima das superfícies, não restara mais nada além da detestável experiencia de dias laboriosos e noites consumadas pelo cansaço. Não era apenas os músculos e ossos que fraquejavam, todo o campo perceptivo e intelectual fora contaminado pela erupção de emoções doentias. Tal como um tornado que, numa fração de segundos, extraí com violência a vida cultivada no silêncio de dias normais. Estava, pois, estabelecido o caos. E foi a partir destes rastros de destruição que despertei de um sono profundo. 

Havia a incômoda sensação de que algo estava completamente errado, de que as escolhas e as não-escolhas haviam fracassado e em meio ao nada, não sobrara uma coisa no lugar. Tudo havia se partido, não restara nada. E despertando em meio ao vazio, como se lançada num vácuo, de imensuráveis proporções ali tive a minha primeira redenção. Mesmo na experiência de observar-se em meio a um cenário onde nada mais existia, era preciso me desfazer do peso de inúmeras crenças e ideias limitantes. E eu sentia que era hora de resgatar o elo sagrado, os fios condutores da vida, a reconexão com a alma, as asas que outrora se partiram. Tudo serias diferente a partir de então...
Atreveria-me a não fazer mais juras, promessas e planejamentos rigorosos. Não trairia mais a minha verdade, os meus ideais e os meus propósitos. Não me ajoelharia mais diante de ninguém, apenas a alma pode fazer isso quando em meditação com o sagrado. Minha ousadia agora vinha de dentro para fora e eu não mais duvidaria das minhas intuições.

Desde dia em diante, renasci incólume das tantas mortes  e optei pela vida em sua integralidade e resplandecência, mas entendi que eu ainda tinha um saldo com o tempo, este eremita que   que outrora abreviara os tempos de obscurantismo e que, hoje, dera-me o tempo de ter o meu próprio tempo, de arquitetar meus sonhos e não mais me perder na dinâmica de exigências, violências e sujeiras e, tampouco, submeter-me às intimidações de outrem. De posse da minha consciência e lucidez, eu já não mais viveria ordinariamente os dias, era o extraordinário que eu almejara. Não precisaria mais de certezas ou convicções posto que não me caberia controlar a sucessão de eventos externos. Libertar-me-ia, pois, de todas as ações calculadas, dos passos silenciosos, das cautelas desmedidas. Não entregaria mais os pulsos às correntes dos compromissos importunos.

Chegara a hora de ser a centelha de realizações e de possibilidades a qual flamejara insistentemente  em tempos em que a visão era turva e os sentimentos jaziam estilhaçados pelos escombros da existência desertificada. 

Hoje bastava todo o conjunto de nulidades, bastava toda a inércia, a desesperança, as angústias e as preocupações excessivas. Contudo, não me basta o que me tornei hoje, nunca bastará...minha alma prossegue na onisciência da transformação constante. 

Nunca me bastaria os vícios de buscar o ser...e elo entre a possibilidade e o infinito. Nunca há de bastar o vício viciante de viciar-me em conquistar virtudes internas....

sábado, 27 de dezembro de 2014

A completude da falta e o preenchimento do vazio

Compreendi que não é o preenchimento de todas as coisas que faz-nos completos. Tampouco, os excessos que nos fazem transbordar duma alegria singular. Ao contrário, me dei conta de que é o vazio que faz o peito transbordar. Que é a certeza das finitudes que nos tornam intensos na busca por nós mesmos, mas também no toque particular que damos a tudo que nos cerca.
Da mesma forma, é pela experiência da escassez que nos tornamos sábios jogadores, ora vencendo e ora perdendo, treinando habilidades, estratégias e empregando forças que não supúnhamos ter. As leis da vida é, pois, de extraordinária inteligência, pois nos lança ao vazio para que saibamos construir um mundo, e nos construirmos e nos desconstruirmos a todo momento.
São os "apesar de..." que nos move e só somos lançados para a aventura da vida frágeis e vulneráveis porque esta alavanca inconsciente do universo é uma constante. Quantos temporais atravessamos para depois avistarmos um lindo arco-íris? Quantas noites sombrias precisamos atravessar para ver o nascedouro do Sol?
Sem nossas incertezas e crises, não conheceríamos nosso "eu" em profundidade. Crises aprimoram nossa capacidade analítica e o nosso desempenho interno ante as desavenças e contradições da existência. 
Mesmo na inércia, somos constantemente movidos pelos nossos sentidos sempre a estimularmos. Quando nos aquietamos em profunda meditação, quando - por algum motivo - estamos desprovidos de nossas forças ou mesmo renegando as agitações externas, ainda assim, há um sutil movimentar-se. Há, um mover-se em direção à contemplação. E o que é a contemplação, senão, uma construção de sentido em direção a uma síntese poética que preencha os nossos sentidos, que enfeitice nossos olhos, que nos lance à nirvana?
Somos afortunados em nossos vazios, porque exercemos, com toda a plenitude, a capacidade de nos recriarmos constantemente, de nos alimentarmos das sementes vindouras lançadas pelo universo.
São nossas epopeias que glorifica-nos e, não,  os palcos fúnebres dos ritos sociais, mas a alma errante que se deleita na possibilidade do novo, sempre!
Somos fundamentalmente distintos de qualquer inteligência artificial e fugimos de qualquer tentativa de modelagem de nossa cognição quando existe dentro de nós um impulso transformador que muda, a todo momento, esta tal de realidade.
Estamos culturalmente habituados a nos sentir pequenos, face aos ditames doutrinários das sociedades ocidentais, mas não sabemos ao certo até que ponto a realidade enquanto solidez é responsável por nós. A realidade é frágil, a realidade é sempre parcial, ela é... nada.. 
A singularidade da experiência humana e a imprevisibilidade de todas as coisas revela o quanto somos construtores por excelência dos significados, de como nossas crenças fazem a nossa fortaleza ou o nosso infortúnio interior. Perdoe-me os materialistas, mas não somos produto de um meio, não existem fracos ou derrotados, mas pessoas aprendendo a viver, a construir-se a partir do vazio. E é nossa mais legitima responsabilidade a maneira como iremos preencher ou desperdiçar estes espaços. Não é possível conceber as inúmeras possibilidades de Ser a partir da ideia de um mundo já feito, já edificado onde já fora definido o nosso leito, as nossas escolhas e as experiências pelas quais iremos passar. Se existem estruturas, elas são produto de criação e passíveis de desconstrução pela razão oposta ou pela mesma razão que levou à sua construção. Romperemo-as, pois! Estruturas nada mais são do que os grilhões e algemas que limitam a expressão pura do homem. São nossas vaidades e medos que nos encarceram, nossa deseducação afetiva e emocional.  
Não somos a partir de um sistema...não importa aonde chegamos, em que caminho ficou perdido uma parte de nós, não importa o quanto somos perseguidos pela ideia de que nascemos desafortunados, de que o mundo nos condena. Não! E não se trata de negar o sofrimento humano, tampouco, negligenciá-lo, mas trata de assumirmos a responsabilidade de nós mesmos e a negação do que nos nega. Trata-se de aprendermos a nos (re)construir, de sermos facilitadores do processo de outrem.
Sentir o vazio não é, deprimir-se, é um convite da inquietude para sermos mais de nós mesmos. 
Contudo, não podemos perder de vista a vulnerabilidade natural de nossa espécie.
Terapeutas, profissionais diversos na interface com as Humanidades tem papel preponderante como facilitadores desse processos, re-significação das experiências, reconexão com a vida em sua plenitude. É preciso reduzir o excesso de críticas voltadas ao concreto, e  apostarmos nesses vazios como processo e não retrocesso, tal como a sociedade do espetáculo costuma impor em apologia ao sucesso e a felicidade permanentes.
Se antes a falta era motivo de angústia, hoje ela é inspiração para um novo projeto, uma mudança significativa, uma implosão de fatos fundamentais para por-nos de volta no caminho que nos conduz àquilo que tanto procurávamos.
Falta e vazio podem ser as experiências mais completas de sentido, é aquela folha em branco ou um pedaço de papel escrito que necessita de suas partes perdidas para a compreensão inteligível do que o define. Pode ser o sentimento de nada bastar, um sentimento que vai estar sempre presente até que o detemos, encarando-o com confiança. Ás vezes é uma dor de cabeça sutil, porém, persistente. Um incitamento ou indiciamento. Seja como for, há horas de estar no vazio, de simplesmente estarmos vazios, atentos aos solilóquios da alma, às notas de melodias distantes ou do escutar da respiração ofegante.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ascensão do acender do Natal: a poética noturna

Natal sempre é sinônimo de luzes, de ornamentos brilhantes, de enfeites cintilantes. Nesta época ruas, casas, comércios e outros estabelecimentos costumam representar o espírito natalino através da disposição de pequenos artefatos brilhantes ou que emitem intermitentemente uma alternância harmoniosa de luzes coloridas a partir do entardecer. Nesse período, as noites são mais iluminadas e a atmosfera noturna ganha novos traços e novas camadas, projetam-se feixes de luzes coloridas e o véu de prata que recobre as esquinas nos dá a impressão de que a noite vela o sono das árvores. É da poética noturna a que me refiro. As noites de Natal lembram cenários improváveis ao clima tropical que predomina nesta imensa ilha artificial, diferentemente do acinzentado cenário cosmopolita, na época natalina tem-se a imagética glacial de terras de contos de fada: há ícones de pinheiros, renas, bonecos de neve e tantos outros personagens que ruborizam a face das ruas. Muitos lugares se rendem à magia do Natal e, assim, assemelhavam-se a imensas fábricas de brinquedos. Nestas, vemos sonhos pueris acalentados em pequenas casinhas, presépios e jardins. Haviam sensações e aromas que traziam doces nostalgias do baú de brinquedos antigos que há muito se fora. 
Nas ruas, é intrigante notar como a natureza alegra-se com o festival mesmo em seu natural e aparente silêncio; tem-se a vivacidade de traços e formas que exibem a sua delicadeza e a sua poética. Flores de cores diversas despertam do anual sono pós-primaveril para decorar o espetáculo noturno. Lagos, chafarizes e riachos banhados pela prata da noite bailam em curiosas coreografias e as águas surgem espumantes a venerar este festival mágico de cores e nuances.
Neste ano o ritual das águas não se cumpriu: não tivemos chuvas a pratear o asfalto, mas eu me recordo de tempos em que a chuva anunciara o Musical, o espetáculo de luzes, a noite diamantina que acendia lembrando que era hora do estrelato, hora de brilhar e de deixar-se brilhar.
Ainda aguardava-se os anseios pela estrela-cadente, aquela que, ao atravessar o céu, escreveria no destino os pedidos dos sonhadores. Esperavam-se chuvas de cometas  a assinar no céu os desejos do espírito.
Desejo, pois, diárias noites natalinas, noites em suspiros poéticos, noites que se desnudam em tecidos cintilantes e acedem os santuários da alma. Noites que emanam exuberâncias lunares, noites que se banham na aura cristalina de mares adormecem nas entranhas do firmamento.


Que seja Natal em céu, terra, mar e alma...

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

A felicidade sempre a priori

Temos o hábito de considerar a felicidade como o legado de lutas, de sacrifícios e de tantas sagas que empreendemos na perspectiva de nos sentirmos bem, de alcançarmos, após sangue, suor e lágrimas, o gozo pleno de inúmeras satisfações.
Assim como muitas outras coisas, a felicidade torna-se objeto, e em muitos contextos, mercadoria. Temos a convicção de que o estar bem internamente depende de uma ou mais conquistas externas. Fazemos uso de todas as nossas habilidades e movemos com intensidade as nossas forças para irmos em busca de algo que, muitas vezes, nem forma possui. Queremos apenas nos sentir bem. Isso bastaria. Mas não basta! 
Frequentemente, atribuímos solidez à felicidade e a confundimos com a concretização de sonhos e objetivos que traçamos. Contudo, sabemos em que em solo estéril não é possível plantar. Quando na escassez, o solo inviabiliza o nascer da vida. Pela mesma metáfora concluímos que se não semearmos um jardim dentro de nós, nada nos bastará e estaremos fadados a escassez e a felicidade será sempre um utopia.
Hoje em dia, muitas filosofias revelam que a felicidade não é objeto, não é ente, não é matéria. Felicidade é estado de espírito e, como tal, tende a ser temporário, efêmero e tende, ainda, há assumir formas compatíveis com a nossa postura e visões de mundo.
Mas como podemos atingir este estado? Seria possível prolongarmos esta sensação de bem-estar e euforia??!
Precisamos entender que a felicidade é sempre a priori - anterior ao nosso pensamento, aos nossos sentimentos, às nossas ações e anterior, até mesmo, a nossa ideia de ser felizes. Quando nos sentimos bem conosco, quando somos gratos pelo que temos e pela liberdade e responsabilidade de buscarmos o que ainda não temos, estamos vivenciando a face mais fértil da felicidade, aquela em que todos os desabrochares se tornam possíveis, fase na qual nos revestimos de força, coragem e inspiração para chegarmos aonde desejávamos. É preciso traquejo interior para notá-la, é preciso humildade para fazê-la penetrar em nossos poros, pois felicidade não é resultado de...ela é mola propulsora para o alcance de...Ela não está no fim do caminho, ela é o caminho construído internamente. E ela não é imutável, ela assume diferentes formas e é compatível com os nossos comportamentos.
Nosso erro foi procurá-la a posteriori das nossas sagas. Aliás, não é preciso de lutas,  felicidade não é dada a grandes esforços e nem simpatiza-se com ambições profundas. Ela passa para dizer 'Oi' simplesmente, e precisamos estar atentos para que a alegria de sua passagem nos convença de sua existência em nós. Somente assim podemos converter suas breves passagens em retornos demorados e intensos.



Conhecer(-se), espantar-se, intrigar-se, expandir-se

Conhecer(-se), espantar-se, intrigar-se, expandir-se...

Ao menos para mim, esta sequência sintetiza alguns passos muito importantes que eu tenho notado ao longo desta minha saga em busca do conhecimento tanto das coisas que me são atrativas quanto daqueles momentos meditativos em que o objeto de nossa busca não é nada mais e nada menos do que a nós mesmos, a odisseia em torno do nosso centro interior onde habita o nosso Eu Superior, o Self, enfim, muitas denominações foram atribuídas de acordo com a perspectiva de análise.

Sabe-se que a Filosofia nasceu do espanto e, de certa forma, somos todos filósofos nas veredas da vida terrestre. O conhecimento só é capaz de edificar-se a partir do instante em que algo nos impele e de que a resolução [esta, sempre temporária] deste será a fonte a qual nos voltaremos outras vezes para dela beber. Assim ocorre com todas as ciências. Espantar-se e intrigar-se são dois pressupostos fundamentais para que o "eu" hoje seja maior do que fora há pouco. Expansão é fruto dessa capacidade quase inconsciente de nos intrigarmos e percorrermos o mundo em busca de respostas. Nem sempre precisamos ir muito longe. Nem sempre a viagem é demasiadamente longa. 

Há muitas formas de se conhecer o mundo e a nós mesmos. Em geral, nossa primeira aventura começa pelo conhecimento das externalidades do mundo físico. Isso é essencial para o amadurecimento progressivo de nossas estruturas cognitivas e, essencial para a maturação emocional. E, como seres, biopsicossociais, precisamos conhecer para termos algum domínio sobre este mundo físico, a fim de que possamos construir experiências fundamentais para o nosso desenvolvimento pessoal, social e afetivo. 

Quando nos sentimos um pouco mais confortáveis pela constatação de que nos dispomos de muitas estratégias para conhecer o mundo e nele atuarmos, outros níveis de inquietação insurgem. Alguns escutam um chamado interno, uma voz jovial que deseja-nos proferir contos, crônicas, fatos de nós mesmos. É aquele conto de dentro, sempre repleto de metáforas e de aforismos. A linguagem simbólica que o caracteriza nos leva a querer decifrá-los e, assim, voltamos ao mundo físico para tentar encontrar explicações ou partes que acreditamos ter perdido em nossa jornada. Descobrimos, assim, a nossa capacidade de introspecção, a comunicação sutil com a alma. Normalmente, aquele impulso para fazermos algo significativo no mundo externo, para traçarmos metas, objetivos vem deste chamado interior. 

De posse destes recursos, após uma longa jornada que vai desde o nascimento até quase o final da adolescência, somos impelidos ao envolvimento constante em situações e circunstâncias que continue a nutrir a nossa curiosidade, lançando-nos à um labirinto de conhecimentos nos quais vamos filtrando aqueles que consideramos mais relevantes e/ou interessantes à nossa vida. Contudo, por mais que o filtremos nunca teremos a dimensão totalizante daquilo que retemos. A mais ínfima parte de um conhecimento é dotada de infinitos conhecimentos e pensamentos a ela atrelados. Nenhum conhecimento se esgota e, por isso, amantes do conhecimento estão sempre com sede.

Ocorre-me que ao me deparar com um conhecimento novo, o flamejar filosófico logo desperta. Não basta conhecer...é preciso algo mais profundo, mais forte, mais envolvente a nos mover. Espantar-se diante do novo é o que dá sentido tanto ao nosso desejo de conhecer quanto ao próprio desenvolvimento epistemológico de uma ciência, por exemplo. Espantar-se, nesse sentido, é fomentar condições de aplicarmos a nossa criatividade às reflexões que subjaz a nossa experiência com o inusitado. Não existe conhecimentos óbvios. A obviedade que atribuímos a conhecimentos que classificamos como elementares é resultante da nossa constante aproximação destes, algo que já fora superado por outros conhecimentos mais amplos e complexos. Mas já parou para observar como crianças e animais reagem aos mais elementares conhecimentos e fatos da vida cotidiana?

Buscar o conhecimento de maneira desinteressada, como um conglomerado de conceitos, princípios, leis e procedimentos é negar o acontecimento mágico que o conhecimento nos proporciona: as tantas respostas, as evidências, os estados de espírito acionados, as emoções despertadas... Erra quem dissocia o conhecimento das emoções e dos afetos. Falha profundamente quem acredita que o conhecimento muda apenas o mundo físico e não, o mundo dos sentimentos e das paixões. Todavia, quase todos nós podemos notar que quanto mais conhecimentos adquirimos sobre determinados assuntos, especialmente aqueles que, de alguma forma, dizem respeito sobre nossas questões internas, mais, frequentemente, nos sentimos vulneráveis. Por isso que o maior consolo dos tolos, dos desprovidos intelectual e culturalmente seja o de não sofrer as dores do mundo, de não perceber-se em mil pedaços. A alienação só triunfou no contexto da revolução industrial e continua a triunfar em inúmeros contextos da contemporaneidade, porque os homens tem pouco ou nenhum hábito de conhecer e de se espantar. Alguns são profundamente escassos internamente e o conhecimento necessita de certos ventos para poder adentrar-nos. Emoção e conhecimento, são, pois, duas vertentes complementares da experiência humana.

Quando conhecemos e nos espantamos, ficamos intrigados com respostas ou interrogações que pairam sobre as nossas convicções. Isso nos leva a incessante busca por conhecimentos que culminam na expansão [sempre inacabada, certamente] de nosso contexto intelecto-cultural. Nos tornamos mais hábeis na tarefa de saber como e onde buscar os conhecimentos que necessitamos, aprendemos mais sobre o constante devir de todas as coisas e nos tornamos mais independentes e mais ativos. Por isso, nos expandimos internamente. O conhecimento aflora nossos sentidos, aprimora nossas perspectivas de análise, além de nossa capacidade reflexiva.

Destarte, é-me profundamente instigante as aproximações sucessivas do que é incognoscível, pois a aventura de desvelamento do desconhecido e do ininteligível enriquece nossos recursos intelectuais, estimula nossa perspicácia e nos afasta de atmosferas fastidiosas. 

A nitescência do saber sempre nos conduz a formas diversificadas de se viver a vida com muito mais entusiamo e possibilidades de usufruto. Creio que a função pedagógica principal do espanto e da intriga do conhecimento é jamais cairmos na depressão ou na inércia de pararmos de nos questionar.

Até no silêncio, muitas vezes, há um sutil questionar.

Não calemos, pois, nossas interrogações, por mais banais que sejam, uma vez que são elas que nos movem e nos transformam.

Conhecer requer mais do que curiosidade: é necessário algumas doses de rebeldia, de atrevimento e, de certa extravagância. Que sentido teria a vida se não pudéssemos fazer estremecer as estruturas rígidas que foram sedimentadas em nosso interior pela disciplina displicente que nos fora imposta?

Não imagino conhecimento sem coragem. Que nos encorajemos, então, nesta arte do construir(-se) e do superar(se), pois somente com a ousadia de um louco, a curiosidade de uma criança e o brilho dos olhos do poeta é que possibilitaremos a nossa infindável expansão como seres desejantes.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Tempo e Tédio: o manancial de tormentas





Night is coming and there's nothing left to stay
Nothing changes,everything has gone away
No eternity,no hope for me and you..

Não creio que haja no contexto da existência humana duas unidades metafísicas mais impactantes do que o Tempo e, por dissonância e derivação, o tédio.
Na verdade, a existência do homem não passa de um gigantesco esforço pela equilibração entre o tempo sufocado e o tempo esterilizado, isto é, entre a vida em perturbadora excitação pelo excesso de compromissos, deveres, afazeres e desejos infinitos, os quais torna-o exíguo, efêmero e, por outro lado, a vida que jaz escassa, depressiva, onde o tempo existe em demasia e não há impulsos, ações ou desejos que o preencha. Este, um monstro diante da vida reduzida, da existência em miniatura, da vida reproduzida, da retidão absoluta, provoca os mais violentos abalos à consciência, pois, de certa forma, acreditamos que o mal uso do tempo ou o seu desperdício é fruto de nossos próprios desequilíbrios e conflitos internos. 

Na primeira das instâncias, o tempo passa numa velocidade muito superior à nossa própria capacidade de processamento das informações que chegam constantemente aos nossos sentidos, não o sentimos em presença, mas sempre em ausência, e nos tornamos cativos de sua presença, tão feroz é o desejo do humano por ampliar o espaço do estar no mundo - desejando criar, desfrutar, construir, amar - por ser um ente dotado de urgências infinitas e, por acreditar, que nada fora suficiente e que, por isso, era preciso mais... 

Na vida contemporânea, este é o tempo mais característico de nosso cotidiano e, como se não bastassem as urgências, ainda há, nas profundidades de nosso espírito, o desejo por um "tempo" para nós mesmos...um tempo que nos liberassem, temporariamente, da esfera produtiva,  um tempo mais autêntico, um tempo servido às vontades da alma e por ela, escrito.

Em contrapartida, na segunda instância, temos o tempo em excesso e a advertência permanente de nossa própria dissolução progressiva ante a possibilidade do cessar de nossas forças, de nossos poderes, de nossa capacidade criativa. Nesse sentido, o tempo assume uma presença fantasmagórica assustadora, pois denuncia a  nossa estupidez frente ao excesso de átimos, todos desperdiçados pela inércia e pela patética reprodução da vida com os mesmos traços, as mesmas cores, as mesmas notas musicais, na persistência do velho estribilho de dias que passam na mais desinteressada incompletude. 

Quando do tempo faz-se o tédio, o ciclo de dores e de torturas se inicia, pois é neste estado dormente da alma que vozes trêmulas e coléricas ecoam em nossa mente, julgando-nos e condenando-os pela  nossa apatia e indiferença estampada na languidez da face e na sonolência da alma.
Ah, Tempo, este exíguo eremita sempre sufocado entre os deveres e o ócio dos homens, sempre a converter momentos em fragmentos passados, a fazer da intensidade dos acontecimentos, memórias póstumas e das emoções puras e inexoráveis, um retrato petrificado de sorrisos não mais úteis..

Apesar do tédio que aborrece não apenas a nós, como ao próprio tempo ao decretar o seu assassinato, frequentemente absorvemos a noção de tempo apenas em razão de sua breve passagem, mas dificilmente o sentimos como calorosa presença, como um caleidoscópio de possibilidades de ser e de estar no mundo.  Raramente o vemos em sua expressão jovial de permanente criação e renovação. Ele parece-nos sempre de passagem e parece ser averso à permanências, embora seja de uma concretude singular, de uma solidez provável pelo peso que assume em nossa existência.

Todavia, esta ideia é tão absolutamente abstrata do tempo que somos incapazes de assumi-lo como ente que, a todo momento, nos transpassa, nos inspira e nos move. Daí reside a dificuldade de muitos em entender o próprio espírito da Arte que alguns bons artistas souberam expressar na sua relação íntima com o tempo. Em geral, os artistas são os grandes arquitetos do tempo, pois a presença deste é tão marcante nas obras que não paramos para olhar a pulsação do tempo que vibra entre cores e traços.

Para nós, mortais que temem o passar agitado dos dias, o tempo é este senhor de vestimentas negras que nunca revelara a face, mas que passa batendo o seu cajado, demarcando o que era há pouco, mas que não jaz mais, anunciando ora vida e ora morte. O tempo é, pois, tudo aquilo que nos escapa, que não podemos reter. Nem mesmo as nossas memórias nos pertencem. Há acidentes e incidentes que podem furtá-las e isso aponta para a própria limitação de nosso aparato biológico e cognitivo. O tempo os altera temporária ou indefinidamente.

Na dinâmica da vida humana, o tempo é, frequentemente, tomado em seu sentido teleológico, ou seja, é o princípio pelo qual analisamos finalidades ou causas finais da existência. O tempo organiza cada unidade de nossas experiências e demarca grandes acontecimentos, sagas improváveis do espírito errante, bússola dos aventureiros, farol para o desembarque em terra firme.

O tempo é este eterno girar de ponteiros em profundo orgulho por sua exatidão; é esta incessante máquina universal que nos consome lentamente, que abre fissuras e cicatrizes na pele, que curva-nos no caminhar, que fraqueja os ossos e músculos, que anuncia o gradual declínio. Contudo, a civilização ocidental, ao associar a passagem do tempo unicamente à decadência, obscureceu outro fato fundamental sobre o tempo: de que ele é,  também, o responsável por nos tirar dos estados desertificados da consciência, quando o tédio nos entorpece e mortifica os nossos sentidos. O cajado deste senhor é tão certo que a leve vibração deste na superfície de nossas ilusões soníferas é capaz de nos levantar, fazendo de um singelo átimo, uma vida, toda uma vida. São episódios ímpares onde num insiste se faz ou refaz toda uma existência.

A nossa relação com o tempo pode ser-nos absolutamente favoráveis como, também, pode ser das mais conflitivas. Isso porque nem sempre estamos preparados para termos certezas dissolvidas e nosso histórico avolumado por fatos, situações e emoções cristalizadas que há pouco eram-nos tão vívidas. Não é toa que muitos de nós nos sentimos póstumos, às vezes. Não é a toa que em certas ocasiões precisamos da poeira e das ruínas para entender o real significado do que um dia fora inteiro, firme e imponente.

Somos facilmente seduzidos pela ideia de eternidade e a presença do tempo é, por vezes ameaça, crime e castigo. Desejamos violentamente aniquilar quaisquer finitudes que abreviem os nossos sonhos, as nossas criações, emoções e a própria vida, este instrumento nutrido pela nossa ânsia de desejos múltiplos e infinitos. 

Penso que mais do que os afetos e as paixões da alma, o que verdadeiramente nos afeta é a passagem devastadora do tempo  e nossa vulnerabilidade ante às suas consequências. Enquanto poder-se-ia gerenciar pensamentos e afetos, sublimando-os ou encarando-os, o mesmo não ocorre com o tempo. Sua externalidade é inacessível e, nesse sentido, torna-se imaterial.

Tempo é Juiz e Tédio, frequentemente, é a nossa penitência. Não passamos pela vida imunes às cobranças e advertências à despeito do que fizemos com o conjunto de átimos que nos são concebidos. E basta negligenciá-los para adoecermos, pois a vida é este movimentar-se incessante que nos lembra, a todo instante, de que estamos situados dentro de um espaço de tempo onde começamos a morrer quando nascemos e que precisamos correr para fazer de cada instante um legado significativo para a alma quando nada mais nos restar. A ideia da perenidade é, pois, funcional à logicidade do tempo. Todos os ecossistemas e ciclos da natureza são regidos pelo maior dos maestros, o tempo. Cada centelha de vida a ele responde, a ele se deita, a ele se funde e sucede, em alguns casos que ser e tempo se condicionam mutuamente. Este talvez seja o máximo que podemos nos aproximar do tempo.

Tédio talvez seja o mais trágico acidente do tempo, pois este pára de incitarmo-nos e, assim, ficamos prostrados num cenário de estúpidas reincidências e, assim, nossos instantes são tomados pelo insustentável peso da mesmice, da vida desfolhada em dias repetitivos, da história reeditada e reproduzida.

O tempo também é a ideia abstrata que regulamenta os códigos, preceitos e procedimentos na sociedade humana. É, por conseguinte, a unidade metafísica mais administrada e hierarquizada pelas suas instituições. Para a  Previdência há tempo de envelhecer e de cessar a produção, para as Igrejas há tempo de receber as bençãos divinas e tempo de esperar a Graça. Nas Escolas há tempo de aprender e de ensinar. Há tempo de exibir nossas ingenuidades e tempo de afirmar nossa malícia. Há tempo e circunstância exata para se dizer um 'sim' ou um 'não. Tudo fora tão metricamente e cronologicamente calculado que os atrevimentos atemporais e o rompimento de ciclos normalmente terminam em consequências dramáticas. 

Ora, que miséria habita o centro da existência em sua singularidade e autenticidade mais legítima quando fazemos de nosso percurso um fluxograma a  ser seguido! E  como somos marcado à ferro e fogo pela ideia de um tempo que nos define integralmente, que quer ditar-nos nossa posição no mundo.

Aniversário é qualquer coisa menos festividade do espírito, pois ele é o dado mais realçado em nossa cédula de identidade, após o nosso nome. É o registro de quem deveríamos ser e aquela velha foto atada a esta cédula é, por vezes, a ideia de que temos de nossa passagem. Todos os anos somos visitados pelo Tempo, este andarilho que vem averiguar os frutos de nossa caminhada e cobrar-nos os tributos e as promessas. 

Nossos planos, nossos objetivos e aspirações  se baseiam, em grande parte, pela ideia do tempo e pelo horror ao tédio, este, manancial de tormentas. Nossas falhas em relação ao tempo pode-nos ser das mais desagradáveis e cruéis, mas sua visita também nos devolve a capacidade de transcendermo-nos, rejeitando aquilo que nos anula ou que nos é absolutamente desnecessário. Destarte, há tempo, também, para reagirmos à tempo. Há tempo de decretarmos um novo tempo, há tantas auroras...

Há tempo de anunciar e de renunciar
Há tempo de nascer pelo amor e pelo amor se desvanecer
Há tempo de desatino e de redenção 
Há tempo de espera e de ação

Quando negamos o tempo, temos vidas secas e de sua escassez tem-se o tédio, a indisposição, a negação e nulidade para com os encantos da vida, as surpresas e as emoções do devir.

Sempre é tempo de espanto, de surpresa e de contemplação...

Sempre há tempo de se descobrir algo, de se desbravar uma floresta, de alcançar o ápice de uma montanha. 

Há tempo para nos re-descobrirmos, tempo de escutarmos os suspiros da alma, tempo de aflorarmos a sensibilidade dos nossos sentidos, tempo de buscar um novo sentido...

É-me tempo de reformar os jardins da alma, tempo de me retirar daquilo que não mais me pertence, ou que nunca me pertenceu. Tempo de dizer adeus, tempo de deixar certos aposentos, tempo de migrar, de ir a um outro extremo.


É tempo de quê em sua alma?!




terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Confidências à meia-noite (III. A vontade de potência)


"O mundo visto de dentro, o mundo determinado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais” – Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §36

(...) Fez-se luz...
Alcançara horizontes longínquos
Alguns desconhecidos
Todos perspícuos


A alma, enfim, governava livremente
E, por isso, tudo era vívido e insurgente
Renascia não mais o homem, o tolo, o flagelo

Era o super homem, o supra-humano

Transcender acarretava os seus riscos
As vontades eram infinitas
Os desejos eram urgentes

E os caminhos sempre desconhecidos

Havia, ainda, um confronto com a matéria
Havia o tenebroso badalar da meia-noite
E tudo voltaria a ser pequeno, frágil e miserável

As asas haveriam de ser recolhidas

Superar-se na pequenez do mundo humano
Sangrar e, mesmo assim, caminhar de rosto erguido
Fazer da sabedoria, sua potência
De sua autenticidade, a defesa feroz


Afirmar-se, efetivar-se, tomar-se nos braços
Viver seus próprios princípios e verdades
Lutar para ser e para estar onde se deseja
Eis o desafio, o drama, o duelo

Haveria espaço para as almas extensas
na mesquinhes do mundo dos homens?
Quanto se ganharia?

Quanto de si se perderia neste jogo?

O homem que tivera asas
agora sente a aspereza do solo
Homem que semeia sonhos em terra fértil

À meia-noite deve recolher-se em deserto estéril

Outrora era livre e solitário

Condição que lhe permitia ser mais...
Agora era subordinado às multidões
Em meio a tantos, era incapaz de ver-se.


Ver-se...

Não tinha vontade de somar-se a outros
Desejava transbordar-se em reclusão

Precisava de si e, sem asas,
o caminhar era árduo, a vida, exaustão


Desejava ser o todo, estar em tudo
Buscava sentidos para além do imanente
Não bastava em apropriar-se do existente
Desejava criar, criar-se, desenhar e desenhar-se


Não se contentava com a certeza das superfícies
Desejava o mistério das profundezas

A vontade de ser o tornara forte
A ventura da alma era seu único norte

Negara o lugar comum, 

o mundano e o ridículo
Pois flertara com o excêntrico

E fora seduzido pelo extraordinário!

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O silêncio que procede a exaustão


Penso que há duas formas distintas de sobrevivência ante aos abalos, choques e tensões que quotidianamente nos confrontam. A primeira delas utilizá-se de recursos dramáticos e, consequentemente, tende a terminar com um ar de  tragicidade, de angústia e extrema ansiedade: é quando nos sentimos atingidos e  buscamos uma resposta imediata para combater a implosão de sentimentos confusos  que nos ferem. 

Procuramos inúmeras explicações, elegemos as o réu e, automaticamente, nos sentamos na cadeira da vítima. A processualidade do crime  ganha dinamismo, força e poder em nosso imaginário. Tal como na constatação de um crime, na perturbadora sensação de que fomos roubados, humilhados, ofendidos e  traídos, buscamos formas de compensar a lesão ainda em carne viva. A princípio, sangramos em profundo rancor, absorvidos por um estado colérico e, depois que a  cadeira do réu encontra-se estranhamente vazia, continuamos a sangrar, desta vez, pela nossa inegável fraqueza. Sabe-se que das veias pulsantes se esvai toda a energia criadora, exaurem-se os ânimos e instala-se o tédio. Estavas tão exausto pela guerra interna que travara  nos cenários artificiais da mente que parece não ter sobrado mais nada. Nada... 

A estranha e paradoxal sensação de uma leveza insustentável. De estar vazio, mas  também exausto por uma solidez que pressiona o peito. O mal já estava  feito...tal como um imenso tornado que não poupa nada nem ninguém, arrebata tudo aquilo que jaz em seu percurso, eu estaria lançada para fora do meu próprio diâmetro de sanidade, arrastada por forças desconhecidas num contexto de insana desordem.

Não importa a quantidade de virtudes que semeamos e os passos que demos adiante. Não importam os saltos qualitativos que demos a partir das lições anteriormente apreendidas; diante de  um violento tornado, tudo se vai, tudo se dissolve, tudo se desmorona. Talvez  porque por trás deste cenário, de um frágil cenário se encontrava a maior de  todas as lições e virtudes internas: a da necessidade de um proceder desinteressado diante do mal, da sujeira, das inconveniências e dos desgostos  trazidos por outrem. É sobre esta lição secundária que eu venho aprendendo entre a excitação colérica e o desejo incomensurável de, simplesmente, apagar cada  nuance doentio destes cenários patéticos, afinal, havia, ainda, a possibilidade  de sermos os únicos sentenciados no bater do martelo da vida. 

Diante da inflamação de nossas células e do estado febril que nos acomete diante  dos atos delituosos do outro, somos incitados a vestir-nos como soldados em  combate bélico e acabamos contaminados pelo fel e pela pólvora. Sujos, feridos e exaustos tentamos prosseguir a caminhada e buscar o nosso herói, no entanto, tal  como um campo de batalhas, não há mais nada para salvar, nem mesmo um fio de dignidade. Todo o resto se converte em poeira e ruínas.

Arruiná-lo-íamos somente para defender as fronteiras de um cenário absolutamente artificial? Entregar-se-ia à forças que, em questão de segundos, te desertificarias?

Em negação ao tormento e a exaustão que procedem estes estímulos chocantes, aprendemos a anular completamente a presença fantasmagórica do outro, pois quando emprestamos nossas forças internas para o combate externo, nos enfraquecemos e o histórico de nossas perdas tendem a se avolumar. E, ao final desta guerra, não há vencidos e nem vencedores. Ficamos tão desestabilizados que perdemos o norte, as motivações, o excitamento natural e saudável das nossas aspirações mais  elevadas. 
Sacrificamos em vão nossas forças e nos cegamos com o nosso poder. Do que adiantas tamanho investimento quando estamos negativados num empreendimento que nos arrasa?!

Toda a vez que estou diante das mazelas de outrem, dos ataques sutis até os confrontos mais viscerais, busco este estar em mim de um modo totalmente desinteressado para com os conteúdos mórbidos do outro. Um proceder silencioso onde sucede apenas um maior engajamento de mim com o meu centro interior. 

Se lutamos, caímos e precisamos da superação. Mas quando fazemos do mal alheio a possibilidade de rejeição pela vertente da indiferença e pelo riso dos humores, saímos vitoriosos sem  termos empreendido uma batalha se quer. 

De batalhas, só se forem pelos meus sonhos!
De combates, só se forem aqueles contra os estigmas que me permiti suportar em razão de uma inconsciência temporária, afinal, ninguém escreve em mim sem um burocrático consentimento. 

Do meu mundo já expurguei toda a intimidação, os olhares hostis e as palavras amargas.
Não me alcanças mais e quando me olhas, dou-te meu silêncio, a minha mais branda calmaria e, assim, prossigo nas façanhas reveladoras da alma que me são redentoras.