Das ruínas encontrei-me em santuários longínquos, em espaços improváveis, num caleidoscópio de páginas envelhecidas suportadas pelo nosso milenar percurso histórico. Eis-me diante de um imenso portal que me levaria, enfim, para a casa.
A nacionalidade estampada em meus registros não dizia nada a meu respeito, uma estranha sensação de inadequação envolta por pensamentos coléricos teciam os meus dias. Não havia perspectivas identitárias na absurdez e na repugnância das futilidades e das atrações volúveis de terras gigantescas, porém consumadas por uma tragicidade doentia. Doentios eram os dias que se acabavam em prantos e agonias.
A possibilidade de Ser residia, pois, na negação de cenários putrificados por sons e cheiros de mortes. Contudo, após a nevasca, o Sol há de brilhar novamente e a vida há de despertar de seu sono eterno. Da mesma forma, sempre chegará o dia de retornarmos para a casa e de sermos surpreendidos pelo Dèjá Vu de tantas vidas.
Minha alma intuía o seu destino e uma carruagem que lhe conduziria ao seu lugar. Percorria mais de mil milhas, mas o destino era certeiro e já era hora de alçar voo.
Minha alma intuía o seu destino e uma carruagem que lhe conduziria ao seu lugar. Percorria mais de mil milhas, mas o destino era certeiro e já era hora de alçar voo.
Vi, pois, minha alma reluzir nas claraboias de galerias abandonas, comunguei dos recitais proféticos das catedrais, rendi-me aos cânticos líricos, entreguei-me à melodia dos flautistas.
Ao descer da carruagem, os instintos anímicos já reconhecia o cenário exuberante que estendia-se em sublime harmonia diante dos meus olhos. Se súbito, saltei e os pés não atingiram o solo, como um certo desprezo da gravidade, o corpo era conduzido em absoluta sutileza às entranhas de um magnífico Palácio. Não andava, flutuava.
Nos cômodos solitários e na mobília rústica, eis que a inspiração e o espírito libertino da criatividade acontece. Assoprara a poeira e seus filamentos se transformavam em grãos dourados a fazer círculos no ar. Não havia mortes, ainda que deserto. Não havia solidão, não havia agitação ainda que silêncio. Tudo era calmo e cada ser elementar se comunicava em respeitoso silêncio. Um piano empoeirado já demonstrara seus sinais de envelhecimento, mas com o vigor de um sábio, exibia as partituras que banhavam cada cômodo em profundo êxtase. Estava ali, imponente, as partituras que faziam as estrelas do céu bailarem e a lua a fundir-se ao mar.
Inebriante era aquela sensação de estar há milhares de léguas da urbanidade enfadonha, da agitação boêmia, do caos nauseante. Estou aprendendo mais de mim, escutando, agora, os contos de fadas d'alma. Não havia dúvidas de que aquele longínquo espaço terrestre era, em verdade, um campo de sonhos envelhecidos...lugar donde nasciam as inspirações e os devaneios.
É uma estranha sensação de inteireza em meio as ruínas de lugares que já foram imponentes e cercados de exércitos de cavalarias. Dos cenários inóspitos, havia lampejos de vida. Vida.
Avistar a janela pequenina das torres causava-me uma liberdade quase sufocante. O horizonte era esplêndido...uma ilha envolta a um império de formações montanhosas e de mares que acariciavam as areias brancas da superfície. Tão distante de tudo, mas tão perto da alma...
Despedia-me, assim, dos excessos metropolitanos para me entupir de ausências bucólicas. Sê inteiro no espírito das florestas, adentrar à alma dos oceanos. Era, pois a liberdade infinita, silenciosa, sedutora dos tempos remotos e dos lugares inóspitos. Era outra atmosfera, outro solo, outras linguagens. Era um estado anímico em sua total pureza.
Não havia nada nem ninguém. Mas havia uma comunicação sutil no ar, uma poesia ruidosa no balançar das arvores, no gotejar das chuvas, nos ventos que atingiam as vidraças. Eram cenários paradisíacos que dançavam, que fazia acrobacias, rodopiavam pelos ares. De quantas almas somos feitos?
Pareciam me ver aos pedaços assim como os escombros que se aterravam nos solos, mas era quando sentia-me em inteireza. Quando se está no movimento, no dinamismo implacável das grandes cidades, a alma se petrifica, se reduz a uma engrenagem, ou talvez ao simples botão. Nossas almas foram aprisionadas em corpos grotescos e gestos ensaiados. Liberta-se em meio aos campos de concentração da urbanidade era decretarmos o nosso próprio assassinato.
Talvez a vida errante seja essa tentativa - sempre presente nos recônditos de nosso Ser - de buscar as ruínas que nos dão a inteireza do espetáculo de Ser, simplesmente Ser...Ser sendo a exata medida de nossos sonhos e aspirações.
Ser inteiro em ruínas...
...o caminho de volta para casa...
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