Olhar para a nossa própria história, a milenar história do homo sapiens sobre a Terra é nos percebemos como seres em permanente construção. De antemão, não temos as instruções e os discernimentos que nos permitam operar com certa logicidade no mundo. O mesmo ocorre com o nosso mundo interno...não temos uma fórmula latente de transcendência sem o confronto com os dias desafiantes no terreno existencial. Em verdade, a grandeza da alma se revela nas chagas, nos choques e no súbito despertar. Isso não significa que estamos destinados a termos nossos sonhos e objetivos convertidos em utas diárias, tudo é uma questão de perspectiva, de postura e, em suma, de educação mental.
Somos feitos de infinitas possibilidades e de complexos recursos intelectuais, emocionais e culturais, mas nossa estrutura elementar - aquela composta de instintos diversos - não pode ser negada. Nossa sobrevivência não se deu pela supressão de nossos instintos e comportamentos que se fazem presentes nas demais espécies, mas pela forma como soubemos operar nossas complexidades a partir da sabedoria de nossos instintos naturais. Sem eles, nada somos. Sem a energia das feras, a perspicácia dos felinos e a percepção acurada de um lince, nossas possibilidades de sobrevivência seriam nulas. Sem as forças da natureza a reger o nosso espírito seriamos inábeis para dominar as forças exteriores resultantes tanto do progresso quanto do regresso das grandes criações do mundo.
A história da espécie humana me parece como um imensurável esforço por nos diferenciarmos das demais espécies que, assim como nós, partilham de sua classificação científica-empírica no Reino Animalia. De fato, a trajetória do humano na Terra tem sido escrita a partir do progressivo domínio do homem sobre a natureza, dos mais rudimentares instrumentos até as grandes tecnologias de ponta que conhecemos hoje.
No entanto, será que somos, de fato, uma espécie tão diferenciada? Um cérebro volumoso e complexo é o suficiente para nos distinguirmos de tantos outros animais? Será, mesmo, nós os únicos portadores e reprodutores de um sistema cultural inteligível?
Não é preciso ascender polêmicas, como no Darwinismo, para se chegar a uma reflexão pertinente à milenar caminhada do homem sobre a Terra. Muitos são os indícios de que o homem contemporâneo é o resultado de um somatório de experiências aprovadas pelo laboratório experimental da natureza humana. O que somos hoje é produto das experiências que deram certo e muitas delas devemos aos nossos ancestrais e companheiros de caminhada. Até mesmo a expressão da cólera é um mecanismo herdado dos animais que atuam na conservação de nossa integralidade. Sem ele, seriamos facilmente consumidos e, também, seríamos esvaziados daqueles impulsos que nos projetam para fora, que nos leva para além da mesmice, da inércia e do conformismo.
Basta nos debruçarmos sobre as elementares estruturas de nosso comportamento e delinearmos a origem e as manifestações da emoção e dos afeitos para compreendermos como o 'selvagem' habita dentro de nós. Os grandes sábios são aqueles que fazem bom uso destas energias instintivas naturais, convertendo-as em experiências relevantes para a nossa ascensão psíquica.
Basta nos debruçarmos sobre as elementares estruturas de nosso comportamento e delinearmos a origem e as manifestações da emoção e dos afeitos para compreendermos como o 'selvagem' habita dentro de nós. Os grandes sábios são aqueles que fazem bom uso destas energias instintivas naturais, convertendo-as em experiências relevantes para a nossa ascensão psíquica.
Em geral, associamos comportamentos agressivos e os traços de sadismo ao comportamento de espécies selvagens, associação arquitetada pelo senso comum que distorce enormemente a complexa relação dos ecossistemas e das cadeias/teias alimentares. Mais do que isso: acaba por obscurecer o sentido de certos comportamentos animais para a harmonia da própria espécie e manutenção, fluidez das leis da Natureza. Contudo, como justificar os instintos naturais do homem e suas paixões d'alma fortemente inflamáveis, se somos dotados de códigos socioculturais complexos, hábitos, condutas e comportamentos relativos ao nosso próprio processo evolutivo?
Não são apenas os portadores de transtornos psicológicos que manifestam comportamentos equiparáveis a de certos animais quando estão em delírio ou quando são dominados por pensamentos e ações doentios típicos das psicopatias e sociopatias.
A condição humana e a experiência existencial do humano podem camuflar os aspectos mais brutais do homem em se tratando de procedimentos social, legal e moralmente aceitos numa determinada sociedade ou grupo social. Todavia, a medida, a extensão, a intensidade de nossos conflitos internos e externos são parte de um grande processo de sublimação de impulsos primitivos e emoções desordenadas que entram em choque com a multiplicidade de mecanismos de defesa, de escape, de transformação de que, inconscientemente, fazemos uso como forma de preservação e perpetuação da própria espécie, afinal, mesmo contando com recursos psicológicos e culturais tão sofisticados, vemos diariamente a miséria psicossocial humana estampada nos mais variados contextos da vida social e no íntimo de cada ser humano. Um percurso marcado por percalços onde o humano está fadado a viver dialeticamente o conflito, ou seja, na medida em que o soluciona, simultaneamente, o pólo desta solução apresenta um novo conflito onde uma nova resolução será requerida e esta resolução será, por conseguinte, a síntese do conflito inicial.
No filme "Instinto", temos a presença de um aforismo que diz muito sobre quem somos e que nos esforçamos para ocultar que o entendimento do homem a partir de sua barbárie. "Nada é mais selvagem do que a civilização humana". Esta máxima do filme, na verdade, é um convite para repensarmos a posição cancerígena do homem frente à Natureza que não apenas possibilitou a própria gênese do humano como, também, permitiu que este pudesse diferenciar-se em ações concretas e simbólicas de outros animais e, assim, progredir inexoravelmente.
Contudo, séculos de exploração, inconsciência, negligência e brutalidade humana, faz com que coloquemos em dúvida as potencialidades do vir-a-ser humano. Até quando suportaremos a vida em vida?
Pretensão das mais infundáveis acreditar que nascemos divinamente "prontos", ou seja, que somos a mais nobre e divinizada das criaturas. Não, não, de fato não somos, pois a perfeição ora ambicionada pelos humanos colocaria em contradição a própria condição imperfeitamente humana que nos revelam. Perfeição, assim como felicidade, são situações efêmeras que existem a partir de certos estados e disposições internas. Ademais, somos, como diria o magistral filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, "(...) uma espécie que carrega o próprio cadáver nas costas".
Custa-nos imaginar a nós mesmos despidos de tantas peles, de tantos 'vir-a-seres', de tantas possibilidades latentes porque acreditamos que somos a própria personificação da divindade e, em nossa absurda pretensão, esquecemos como cada um de nossos passos obedecem aos ciclos vitais que até certa idade são extremamente semelhantes aos passos de inúmeras espécies. isso se apoia no fato de que não somos produtos, mas processos. De que não somos um todo único e coerente, mas uma constante construção [ e o que dizer das tantas demolições?! De quanto inteiros, fomos renegados à meros fragmentos?!? E, ainda estamos, talvez a procurá-la de algum pedaço perdido de nós mesmos].
E, se formos, um mero acidente da matéria? Digo, a própria esperança que a matéria nutre de que, um dia, saberíamos o que fazer de nós mesmos e, muitos de nós, estamos completamente absortos diante deste enigma universal. Na contemporaneidade, no entanto, diria que chegamos ao ápice de nosso desvario. As pressões constantemente exercidas sobre nós para exibirmos sempre as mais funcionais, efetivas e inteligíveis performances, principalmente em nosso contexto social, leva-nos a constatar que há algo errado dentro de nós que é a causa de nossos infortúnios diante da busca pelo contentamento existencial. Somos impelidos a fazer de nós semi-deuses na insana tentativa de camuflarmos as angústias e os constrangimentos que sentimos ante os nossos despreparos, inabilidades e inexatidões.
Jamais nascemos 'prontos', pois a experiência humana de ser e estar no mundo é que nos diferenciaríamos uns dos outros pela forma que demos a nós mesmos. Somos convidados a ser artesãos de nós mesmos e fizemos de nossa busca pela perfeição e calmaria, uma quimera. Buscamos estar prontos, mas jamais estamos suficientemente prontos. Em muitos momentos somos arrebatados por nossa própria inabilidade e vulnerabilidade diante da vida. Somos ameaçados, caçados, devorados - senão por espécies ainda mais selvagens - pelo tempo, pelo tédio, pela dor, pelo amor, pela insanidade e pela própria lucidez. Morremos de muitas mortes, apesar de parecermos, muitas vezes, intactos. Só os nossos instintos e afetos mais primitivos sabem da devastação que provocamos em nosso mundo interno, dos choques, dos abalos, da escassez sempre infinita.
Que me perdoe as flores, os frutos, os imensos arbustos, mas não há contenção de vida sufocada em pequenas esferas irregulares. No máximo, somos mais do que sementes lançadas ao vento, muitas das quais, esterilizaram-se ainda em vida, muitas das quais deixamos queimar para nos sentimos vivos ao menos por algum lampejo de vida...
Nenhum comentário:
Postar um comentário