Temos o hábito de considerar a felicidade como o legado de lutas, de sacrifícios e de tantas sagas que empreendemos na perspectiva de nos sentirmos bem, de alcançarmos, após sangue, suor e lágrimas, o gozo pleno de inúmeras satisfações.
Assim como muitas outras coisas, a felicidade torna-se objeto, e em muitos contextos, mercadoria. Temos a convicção de que o estar bem internamente depende de uma ou mais conquistas externas. Fazemos uso de todas as nossas habilidades e movemos com intensidade as nossas forças para irmos em busca de algo que, muitas vezes, nem forma possui. Queremos apenas nos sentir bem. Isso bastaria. Mas não basta!
Frequentemente, atribuímos solidez à felicidade e a confundimos com a concretização de sonhos e objetivos que traçamos. Contudo, sabemos em que em solo estéril não é possível plantar. Quando na escassez, o solo inviabiliza o nascer da vida. Pela mesma metáfora concluímos que se não semearmos um jardim dentro de nós, nada nos bastará e estaremos fadados a escassez e a felicidade será sempre um utopia.
Hoje em dia, muitas filosofias revelam que a felicidade não é objeto, não é ente, não é matéria. Felicidade é estado de espírito e, como tal, tende a ser temporário, efêmero e tende, ainda, há assumir formas compatíveis com a nossa postura e visões de mundo.
Mas como podemos atingir este estado? Seria possível prolongarmos esta sensação de bem-estar e euforia??!
Precisamos entender que a felicidade é sempre a priori - anterior ao nosso pensamento, aos nossos sentimentos, às nossas ações e anterior, até mesmo, a nossa ideia de ser felizes. Quando nos sentimos bem conosco, quando somos gratos pelo que temos e pela liberdade e responsabilidade de buscarmos o que ainda não temos, estamos vivenciando a face mais fértil da felicidade, aquela em que todos os desabrochares se tornam possíveis, fase na qual nos revestimos de força, coragem e inspiração para chegarmos aonde desejávamos. É preciso traquejo interior para notá-la, é preciso humildade para fazê-la penetrar em nossos poros, pois felicidade não é resultado de...ela é mola propulsora para o alcance de...Ela não está no fim do caminho, ela é o caminho construído internamente. E ela não é imutável, ela assume diferentes formas e é compatível com os nossos comportamentos.
Nosso erro foi procurá-la a posteriori das nossas sagas. Aliás, não é preciso de lutas, felicidade não é dada a grandes esforços e nem simpatiza-se com ambições profundas. Ela passa para dizer 'Oi' simplesmente, e precisamos estar atentos para que a alegria de sua passagem nos convença de sua existência em nós. Somente assim podemos converter suas breves passagens em retornos demorados e intensos.
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