domingo, 22 de novembro de 2015

A magia da simplicidade: um espetáculo cujas cortinas jamais se fecham.

E naquele dia aprendi a mais bela e significativa das lições: de que toda a magia do mundo residia na simplicidade, este truque da natureza no qual sentimos extremamente ricos e prósperos na dimensão do  vazio. É justamente desse despojar-se de tudo e de nossos próprios excessos que ponho-me a discursar. Porque teve um dia que acordei querendo pássaros a soar seus cânticos poéticos no meu quintal, houve dias em que eu desejava rajadas de ventos tateando fortemente  vidraças. Nutria o desejo pela força e pela calmaria que se despendia do suspiro Em outros dias acordei desejando neve, sentindo os flocos a avolumar-se no meu casaco, a desenhar-me as linhas da face . Sonhei em sentir as forças da natureza a me carregar no colo para depois repousar no solo e despertar com o cheiro da terra molhada e a argila a hidratar-me a pele, a penetrar em meus poros e a relaxar os músculos já fraquejantes. Intencionava observar o orvalho da manhã e caminhar em direção às brumas para nelas me perder. Desejava a simplicidade de um sorriso sem motivo, daqueles que ficam impregnados por instantes diante do maravilhar-se. Maravilhar-se com o que? Com os desenhos nas nuvens do céu, com a possibilidade de descer as montanhas como tobogã, de ralar joelhos e cotovelos de ver os arlequins passarem todos maquiados  nas ruas, causando risos na cidadela ao longe, desejava os gracejos boêmios, a gargalhada espontânea, o desimportar-se deliberado das convenções, dos rituais. Queria me despojar das regras, anulá-las, estar de fronte a um imenso precipício para arremessar as pedras da rigidez, das mágoas, das angústias, de todas as dores. Quisera eu estar assim, com o olhar seduzido pelas mais ternas expressões das dimensões naturais, a abrir a janela de um casebre apenas para contemplar os sons, aromas e galhos dos arvoredos frutíferos, a deitar seus galhos elegantemente, oferecendo teus frutos silvestres. Desejava estar a  emocionar-me com o casal de pássaros amando-se num ninho destinando, aquele amor pueril, doce, singelo, com gosto de eternidade. Queria correr e girar em meio as correntezas dos ventos que sopram, fazer esconderijos atrás das árvores, das simplicidades de gestos, de atos, de olhares, de presenças. Queria o deleite das risadas boêmias, da magia dos sorrisos sinceros mas madrugadas afora. Queria olhar ao alto absorvendo a energia do etéreo, vivenciar a gratuidade da vida.

Falo da simplicidade que se expressa no céu estrelado, onde tudo que desejamos é pousar nosso olhar sobre a serenidade do céu salpicado de pequeninos pontos brilhantes, momentos em que a brisa converte-se em carícias ternas a tocar a face. 

Momentos de intensa magia acontecem após uma longa jornada sem destino, perdendo-se em meio a imensidão das estradas, em meio ao desfile de arvoredos, com suor na face e os músculos a fraquejar. Sem espaços, sem limites, perdendo-se em velocidades improváveis. Era o eclipse do êxtase total da experiência em meio à liberdade é presenciar o nascer do sol, em seus primeiros e tímidos raios a banhar a pele de um dourado reluzente.
Há momentos que não se deseja o conforto do travesseiro para repousar, tampouco de um lar para regressar. Há vezes que a alma quer ir mais longe e, frequentemente, longe do mal estar civilizatório em meio aos seus valores volúveis, a hipocrisia dos ritos sociais, ao acinzentado mundo das mercadorias e dos artigos de luxo. 
Hoje não queria escadas, elevadores, asfaltos, queria terra, montanhas, florestas, nuvens mais próximas do alcance dos meus braços. Queria bailar na chuva em meio ruas desertas, sentindo a chuva a banhar-me insistentemente.
Noutros, desejava estar aonde o reflexo do luar guia nossos passos incertos em direção ao santuário da alma, o lugar improvável, em meio a ruínas onde se é possível respirar a atmosfera silenciosa de territórios longínquos. 
Supliquei pelo retorno às essências em meio a paisagens bucólicas. A sinfonia da Mãe Natureza és tão bela que está diariamente a deitar seus ramos por entre os dias insanos que se passam no artificial mundo das metrópoles, onde vive-se  absurdez da vida em meio aos perímetros demarcados pelas pequeninas janelas dos arranha-céus. Todos envolvidos com seus afazeres enquanto a vida escorre por um conta-gotas apressado. E a ampulheta dos dias, a derramar apressadamente as areias em seu invólucro, nos recorda que é tempo de se desfazer de muitas camadas que nos retira deste contato sagrado com nós mesmos, que polui sonoramente o silêncio tão venerado pela alma e tão desrespeitado por tantas conversas sem conteúdo, tantos ditos, sem nada dizer. 


domingo, 23 de agosto de 2015

Tributo aos gênios anônimos da literatura ficcional: romper paradigmas é preciso!

Escrever é deixar um legado memorável, não apenas ao mundo, mas a nós mesmos, e por isso, escrever também é imortalizar a alma, de modo que, ao escrevermos, podemos atingir diretamente tantas almas aflitas e com sede...Sede de quê? Sede do encontro, do maravilhar-se na experiência de se fundir ao texto, de nele mergulhar, se envolver, se encantar e ter aquela sensação da existência pura, sem chão, sem muletas e sem máscaras. Tive grandes momentos de revelação, de despertar ao me deparar com textos cotidianos, sobre os mais divertidos percalços da vida, mas que neles residiam doses poéticas, alto teor filosófico e estas eram, fundamentalmente, os ingredientes secretos para uma verdadeira sedução literária. Não havia rótulos, paradigmas, não havia necessidade de se identificar, a rigor, o estilo, a métrica, os ritmos, pois estes se revelavam por si mesmos, na mais pura expressão de autenticidade. E a literatura, enquanto arte, necessita de certo desprendimento da ciência literária para nos atingir, nos afetar.

O domínio pela palavra, sem dúvidas, é um dos mais significativos recursos de que nos valemos para enfrentar os ruídos desordenados e incompreensíveis que nos deparamos a todo momento. A palavra reordena, resignifica, reedita, clarifica e, permanece, ecoa, resiste ao tempo.

As tecnologias da comunicação contemporâneas, por outro lado, tem atuado na redução semântica e poética do discurso. Diálogos curtos, estórias previsíveis, sempre regadas ao sono alienante das expectativas fugazes; dos finais felizes, do destino agonizante dos vilões.  A eterna paixão por heróis e ódio aos vilões, além de um abandono lamentável da Filosofia, da poesia e dos grandes clássicos que imortalizaram-se durante séculos, não porque diziam o que se esperava encontrar nas páginas de um livro, mas porque diziam sempre o "não dito" e os "entreditos", porque incomodavam, perturbavam, desafiavam a ordem vigente, traziam à luz revelações sobre temas que nem todos tinham suficiente nível de consciência e de percepção para apreendê-los, tampouco, coragem para escutá-los. Shakespeare, Dante de Aligheiri, Goethe, Nietzsche, Dostoiévski, foram alguns destes grandes nomes que ousaram empreender uma aventura nas águas violentas das paixões humanas e fez da ficção uma crítica, uma denúncia, um periscópio em meio às turbulências dos afetos. Não tinham qualquer pretensão de fazer-se compreendidos, porque, fundamentalmente, a incompreensão era parte daquele momento do "nirvana", do despertar, da sensação de uma iluminação profunda, a clarear os escombros da existência suprimida nos moldes ficcionais do cotidiano.

A literatura ficcional contemporânea, [com poucas ou muitas exceções] é uma reprodução das velhas formas maniqueístas de se produzir uma estória. Com poucas exceções, vemos as fórmulas hollywoodianas e as técnicas dos best sellers presentes para tornar as estórias compatíveis com as expectativas do leitor contemporâneo, amplamente influenciado pelos espetáculos da mídia e das tecnologias cinematográficas, porém pouco habituado aos nuances de textos de maior densidade, que demandam um perscrutamento mais amplo, uma leitura analítica e, ao mesmo tempo, uma imaginação que lhe permita alçar voo...  Não falo de "semideuses", integrantes dos círculos intelectuais, nem dos meticulosos em sua rigidez formal. Falo de gente que fala sobre gente, mas fala na mais profunda expressão de autenticidade. Dos que fazem poesia do cotidiano, dos que resgatam gênios no absurdo da vida fugaz. Falo de autores anônimos que criam ficções que, além de tocar uma alma, deixa-nos naquele estado de perplexidade, momento em que as peças do quebra cabeça se encaixam, momentos em que, em fragmentos, encontramos o fio condutor que nos permite "juntar os pedaços". 
Desejo, pois, que todos os autores anônimos, que viveram no silêncio da alma, as mais fantásticas revelações, que enxergando além das margens do concreto, puderam fazer de suas inquietações, paixões e desatinos, obras capazes de reverberar os ares de tempos em que poesias eram um arsenal de aforismos e discursos sobre os mistérios e temores da alma. Tempos que a prosa falava para além dos imediatismos, época em que não havia qualquer cuidado em flertar com o surreal, o insano, o inverso...

Aqui, vale ressaltar, não me refiro apenas aos intérpretes contemporâneos do pensamento magistral da nobreza literária de grandes gênios do pensamento, mas refiro a estes tantos "anônimos" que caminham para além das superfícies rasas, daqueles que não tem qualquer receio em parecer insanos ou excêntricos em meio às suas divagações literofilosóficas. Ademais, preciso, mesmo, expressar meu encanto por quem é capaz de fazer amplos resgates de temas profundos na banalidade do cotidiano. Uma ousadia que é-me, profundamente inspiradora. São respostas  aos grandes dilemas da atualidade, mas respostas que trazem o elixir de grandes magos, literatura que não se encerra na última página, na última linha, mas que nos proporciona ao seu término, aquela insustentável leveza do ser, um incômodo leve, um sentimento de congruência e de compreensão...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Entre Sartre e Heidegger: espanto, fascinação e elogio ao Ser em meio ao tédio e a angústia

O tédio e a angustia - conceitos em que inúmeros filósofos se debruçaram ao longo de suas reflexões, análises e dissertações -  talvez marque toda a trajetória da humanidade, dado o sentimento de que falta-nos algo, aquela sensação nauseante que nos impele a questionamentos, vale dizer, perigosos, tendo em vista que em determinados estágios da consciência, podemos não estar preparados para buscarmos e aceitarmos as respostas [ainda que frágeis, temporárias e contingentes].

No entanto, se o tédio e a angústia são alvos do manual de soluções para as crises da subjetividade do homem, é certo que sem estas sensações, jamais iriamos de encontro ao Ser, permanecendo nas superfícies rasas do mundo tecnocrático e utilitarista onde, no final de tudo, acabaríamos sendo consumidos, devorados pelas próprias formas de proteção que criamos, pelas próprias utopias e soluções de bem-estar e conforto que a vida moderna oferece em larga escala. Contudo, resta-nos avaliar se estas "soluções"são capazes de, verdadeiramente, devolver-nos certas doses de bem-estar, harmonia e alegria, mesmo temporárias. Ao que parece, as respostas que nos confortam, não passam de anestésicos para a nossa consciência e para a urgência e os excessos de nossas emoções e sentimentos que conclamam, a todo momento, ações, escolhas, decisões, as quais muitas vezes nos sentimos demasiadamente impotentes para administrá-los

Tempos contemporâneos marcados por sintomas  fruto, em grande medida, da nossa cega submissão às formas padronizadas do bem saber viver e do nosso pavor frente à melancolia. Em geral,  as profundidades nos assustam e, no fundo, tememos ser consumados pelo oceano de ditos, entreditos e  não ditos que revelam a nossa fragilidade e finitude diante de tudo e de todos. São, pois, em vão cada um de nossos esforços diários para parecermos fortes e insubstituíveis. Aprendemos muito sobre o mundo na velocidade da informatização, porém, muito pouco sabemos de nós mesmos. Vivemos nas superfícies o conforto das ilusões paradisíacas que tentam preencher o vazio, as lacunas da nossa incompreensão. É-nos, pois, terrível a ideia da finitude e da contingência e, temos disfarçado esse grande temor com uma infinidade de ocupações destituídas de significado,

O surgimento da náusea [sartreana - vale abrir o parênteses], ou seja, da angústia perante à constatação de que nada jaz, de que nada se apresenta concretamente e definitivamente, estando tudo fadado ao acaso, à finidade - não apenas cronológica, mas existencial - nos leva a crer que nada nos resta nem no início de todas as coisas, ou seja, nas essências, tampouco, na finalidade de todas as coisas, ou seja, em sua utilidade. Eis, então, que surge o Ser inexorável, o ser que é na medida em que se apresenta [para utilizar a conceituação heideggeriana], ou seja, nada é digno de elogio, espanto, encantamento, senão, o Ser em suas múltiplas expressões. Não é, pois, a essência ou a natureza humana dignas de celebração, afinal, seríamos nós capazes de definir esta 'substância'? Em grande medida, essa essência tomada como objeto privilegiado das teologias, das ciências humanas e, mesmo, pelas correntes filosóficas idealistas nada diz a respeito do ser, não o define na medida em que criam-se modelos idealizados do humano, como se fosse possível prever a manifestação do ser, moldá-lo e predizer o seu destino. 

Na leitura sartreana, o Ser precede a essência...o que vale dizer, em outras palavras, que o elogio à virtude humana recaí sobre a realização do Ser enquanto ser, não de um suspeito "vir a ser", ou melhor, não de uma receita pronta das potencialidades do ser, embora todos nós estejamos certos de que o que somos é, absolutamente, transitório. Apenas devemos lembrar que, a priori, nada nos define, nada há anteriormente para nos apoiar, para dizer quem somos. É, talvez sejamos aquele que caminha sem tocar o solo, absorvido em profundidades abstratas, sem roteiros prévios e, por isso, é-nós responsabilidade primordial construirmos a nós mesmos sabendo que há os temporais a nos desmoronar e, assim, a todo momento somos obrigados a nos confrontarmos. Esqueçamos pois, as origens, os fundamentos ou princípios primeiros, pois o que existe antes do ato é o nada, a medida mais justa para a experiência humana de ser, pois nada, de fato, seríamos em nossa autenticidade mais pura, se fossemos o desabrochar de uma mera utopia.

Por mais que nossa espécie tenha lutado por provar sua superioridade e uma essência divina moldada às semelhanças do que jaz de mais nobre, a verdade é que somos perceptíveis apenas através do que projetamos. Não temos um início ou fim, pois começos e fins se colidem a todo momento e, estamos cá, nos equilibrando sobre uma fina corda entre risos e temores, vivenciando a náusea da inconcretude de todas as coisas, pois nada nos foi dado e confirmado a priori, o que explica as forças acionadas pelo poder da nossa mente e das nossas percepções. De nada vale o discurso poético dos românticos sobre a alma, os sentimentos, as emoções e os afetos sem a expressão concretizada pelo Ser que cria, age e transforma. Alma é a própria expressão do humano, demasiado humano. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O problema da felicidade e do sucesso na contemporaneidade

Em tempos de "patologização" da vida, das personalidades, dos relacionamentos humanos, a questão da felicidade e do sucesso que outrora compunha a motivação natural e nossas inclinações saudáveis para nutrirmos de alegrias, esperanças e bom humor, hoje compõe o repertório de nossas angústias. Ser feliz e ser próspero são duas dimensões que nos atormentam com uma sutil e intensa força que já nem buscamos mais o sentido e o significado dos eventos que sucedem os nossos dias.    

Estamos sempre ocupados demais para performar em alto nível, como máquinas que trabalham incessantemente para produzirem o resultado para o qual estas foram devidamente programadas, não restando muito espaço e tempo para processarmos adequadamente o conteúdo destes eventos. Ocupados demais em entregarmos uma imagem satisfatória de nós mesmos aos outros, deixamos em segundo plano nossos sentimentos, emoções, valores e propósitos mais profundos. Nossa cultura nos impele a este padrão de comportamento altamente tóxico, nocivo e, de fato, tornamo-nos obcecados pelo sucesso inexorável ainda que isso custe a nossa própria insatisfação interior.

Entristecer-se, envolver-se em certo estado melancólico, sofrer uma queda emocional, permitir-se estar parado por algum tempo, quietinhos num canto nos auto-observando ou analisando o que se passa ao nosso redor, é assimilado como sinal de adoecimento psicológico. Até a prática meditativa se tornou um utilitário a serviço da busca por respostas funcionais à lógica cultural e social do sucesso. Precisamos descobrir dentro de nós 'fórmulas mágicas' para lutar. Contra o quê? Lamentavelmente, contra a nossa própria natureza, contra o 'humano, demasiado humano'. 

Não podemos falhar, cair ou parar por algum tempo. Os estímulos externos, muitas vezes são tão intensos, que se nos permitirmos sair dessa  dinâmica produtiva e performática, temos a sensação de que podemos estar a um passo da insanidade. Paradoxalmente, sentimo-nos como se arremessados em um imenso vazio, na tenebrosa escuridão quando, por alguma razão, saímos dos palcos nos quais desfilam nossas máscaras. Há situações em que somos tão controlados emocional e cognitivamente, que uma simples ruptura dessa rotina de sucessos artificiais é o suficiente para sentirmos fragmentados. Tornamo-nos estranhos de nós mesmos e completamente desajeitados ante as desilusões, as tristezas e as angústias existenciais. Narcisistas, porém, ao mesmo tempo, estrangeiros da imagem que vemos refletida em nosso espelho.

Nos mais diversos cenários da vida social, profissional e, mesmo afetiva, viver em estado de profunda felicidade e com mostras significativas de prosperidade e realização já é um imperativo. E assim, grandes afetos se convertem apenas em grandes empreendimentos. 

Para o suposto "fracasso", em qualquer uma destas áreas, há uma resposta conclusivas nos DSMs e nos mais variados consultórios, afinal, fizeram de nossas dores motivos para o constrangimento. E, assim, riem de forma escancarada os tolos iludidos pela falsa alegria supostamente trazidas por nada mais do que euforias artificiais e ideias arbitrárias de sucesso. Quanto esforço e quanta luta precisamos empreender para evitarmos as decepções, a melancolia, a perda do jogo...

A cada ano, avolumam-se mais do que as categorias dos DSMs; amplia-se os tratados e os discursos psiquiátricos e os [equivocadamente] filosóficos e psicológicos combatentes das fraquezas humanas, criando a falsa ideia de que estão trabalhando pelo bem-estar e por uma melhor adaptação dos indivíduos em seu meio ambiente. Uma homeostase ás avessas.  E, assim, tornamo-nos cada vez mais incapazes de lidarmos com nossos medos, perdas e frustrações. 

O problema parece se resumir a uma única incógnita: o que realmente estamos fazendo daquilo que fizeram de nós? O filósofo francês Jean-Paul Sartre nos alertara para a responsabilidade que temos para com o nosso projeto existencial e, assim, se dispendemos grandes quantidades de energia nos responsabilizando, acumulando tarefas que não nos dão mais do que mera aprovação social, por qual motivo não assumimos a responsabilidade pela atenção aos nossos temores e tremores?!

Escrevo para preencher folhas em branco...

[...] Porque és verdadeiramente viciante e visceral a maneira como preenche os meus dias e que todos os meus "nãos" continham chamas vivas do que foi...foste? 

Neste manancial de tormentas,  perturba-me a alma estes suspiros teus sufocados na languidez da tua fala sempre de incompreensíveis palavras. És, assim como uma presença fantasmagórica, um retrato que ocupas cada um de meus cômodos, aprisiona-se nas janelas, nas paredes, na velha escrivaninha cujas torres de papel um dia falaram sobre ti. 

Romanceei um dia tua existência doce e fugaz e tu converteste neste conto [de dentro], pois tua fala mistura-se as minhas palavras e, constantemente, dizes através de mim. Que insanos estes momentos em que tu parece ter assumido o controle de absolutamente tudo, a ponto de meu todo estar revestido, ainda, de ti.

Se ao menos eu tivesse a certeza de que tu não estivesses na memória de minhas células, que este pulsar não fosse dos lampejos da tua presença. Por que insistes em esvaziar os meus dias com ilusões tórridas? Porque vens querer-me nos momentos de maior fragilidade? Com que  coragens assiste-me a despir-me de peles que nunca me pertenceram?

Que justificativa plausível tens para continuar aqui, ao lado, a tecer suas meio-verdades? Por que insiste em fiar-me em ti, quando jaz há muitas milhas deste sendeiro extraordinário, em que agora me encontro?

Estou a principiar o prelúdio da insanidade, essa febre que me consome, trazendo-me mais incoerências, pois se estou há anos a caminhar solitariamente as veredas da existência, como posso eu sentir uma presença envolvente a soprar-me estas palavras que aqui escrevo??! Logo, concluo que tudo não passa dessa minha tendência sonhadora em projetar emoções nunca sentidas, porém tão  esperadas... 

Oras! É atributo e função fundamental do escritor ensaiar passos nunca dados antes, custe o que custar! São ossos do ofício da tradução literal e não-literal da vida, de uma dimensão sentimental não compreendida, não vivida, não escrita. Escreve-se, terapeuticamente, para termos coragem de encarar nossos próprios abismos e, aqui ao relento, escrevo tantas vezes para preencher folhas em branco...



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Silêncio de uma só alma


Era inverno... e eu podia sentir o queimor da neve a ruborizar-me a face em meio as montanhas. Não havia mais nada a não ser eu e o teu perturbador silêncio. Em verdade, nunca conheci tua  face, pois quando me vens, meus poros estão a respirar nada mais do que o aroma de tua voz ecoando há muitas milhas do horizonte. E, então, eu poderia ver apenas as linhas tênues de um desconhecido semblante .

Eu aqui, a deriva de montanhas gélidas experimentando um tipo de liberdade que - eu sei bem -  me custará a própria vida, pois estou em queda livre, dissipando-me no ar em meio à melodia dos teus passos firmes, tão certos...Sucumbi aos limites físicos e estou deslizando na aspereza dos rochedos de tua ilha, este santuário de tantos acordes, onde vivia apenas eu e o  teu silêncio. Estou, pois, sentindo os limites  entre o céu e a terra, entre a insustentável leveza do etéreo e a dilacerante aspereza do rochedo. E enquanto estava a deslizar nas chamas gélidas do teu desejo, entorpecia-me a alma este recrudescente aproximar-te. 

Arrancava-me o  ar... era a alucinógena sensação de ver-te como uma energia que brilhava, pulsava, presente, insistente, porém que me escapas... Nunca alcançar-te-ei porque, em verdade, projetei-te em meus delírios, pois é-me poético teu silêncio e dele fiz versos de um incessante querer-te. Tú és aquele que jaz entoando cânticos e eu, como se de olhos vendados, jamais fosse capaz de ver-te assim, tão perto... eras quase aquele fantasma de tantas óperas, disposto na mais alta das torres, para além do pico mais alto das montanhas. Eras, pois, distante, mas eu era capaz de decodificar os teus ritmos...

Era o movimento, a emoção, a música que me incitava a querer-te tanto que estou, agora, há 
poucos metros da superfície da razão, a respirar com certa dificuldade e impaciência... sabendo o quanto doerão meus ossos quando sentir o impacto  do eterno retorno ao mundo de ruídos insuportáveis. Era o badalar da meia noite que me consumiria, que me atiraria nas profundezas do teu vazio. 

Persiste em meu âmago, este excêntrico gosto pelo deserto, pelo gélido, pelos limites intransponíveis. Contudo, bastaria rejeitar todas as sirenes, as cores, as conversas boemias, a insanidade das cidades, quando estaria a embriagar-me em teus soturnos monólogos? Certamente, não!
Dividida entre a normalidade patológica do caos, no cotidiano revelador de nossos mais primitivos instintos e a natureza poética de amores improváveis emoldurados por seres angelicais, não era possível escolher entre o sonho e o delírio.

Lutava em vão contra as sombras do teu silêncio, pois era inevitável que tu adentraste meu mundo, sem ao menos pedir licença, tirando-me das superfícies de tantas certezas, para lançar-me no vazio 
de uma liberdade que faria dos meus dias tempestades a arrebatar-me das seguranças e deste 
último fio de lucidez que dá-me a dimensão [assustadora] desta queda livre. 

Já nem respirando, mas suspirando estou perdendo a consciência em meio a densidade do ar rarefeito de tuas palavras... 
Era-me nobre ofício estar aqui a  interpretar o teu silêncio, as inteligíveis palavras do sax  que ainda está, ao longe, a produzir esta melodia soturna. Era forte, era perturbador, como o som de um velho estribilho a reproduzir incessantemente o desespero invernal, a fúria dos ventos, o queimor da neve a sangrar a pele...

E ardia igualmente este silêncio que nunca fora apenas teu, porque enquanto performava-te nos cenários da minha existência, eu estava também longe, dissertando sobre delírios e desejos meus. 
Destarte, já com os ossos em chamas, eu sei que este ensurdecedor silêncio não é mais do que a própria expressão da minha alma e este silêncio, bem, é um composição de tantos dizeres não ditos...


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Nossas incertas certezas



Estamos, indubitavelmente, lançados em um mundo de filiações ideológicas-existenciais, diante de um  catálogo milenar de ideias, visões, posturas regras e rituais, repleto de receitas para uma vida equilibrada. 

Há um esforço  e uma sensibilidade da própria humanidade em resolver-se em meio às angústias e ansiedades que o mistério da vida comporta.
Receitas, soluções, revelações...parece-me que quanto mais fervorosos são os discursos focados na promoção do bem-estar humano, mais sedutor é o silêncio. Talvez porque este seja um dos poucos elementos que não se contamina pelo desespero humano, pelas convulsões sociais, em meio a todos os seus jogos de poder e de domínio. A epopeia da história da humanidade nos mostra que as épocas de maior fragilização foram aquelas mais propícias à dominação, à submissão, à escravidão. Não foi diferente a história da construção da subjetividade. 

Quando a concepção do "eu" sofreu um declínio diante das revoluções que se contrapunham ao espírito medieval, as angustiantes incertezas provocadas por esse rompimento  abrupto da vida prevista, da vida controlada, da vida ditada a priori, inúmeras instituições empenharam-se em  domesticar o, então, "bom selvagem", dominando suas paixões, refreando a sua capacidade criativa, colocando em dúvida a própria opção pela liberdade. Séculos se passaram e, embora a liberdade finalmente tenha superado algumas das principais muletas da humanidade, ela fez-nos, novamente, prisioneiros. Sem um norte, parece que tendemos a ajoelhar-mos às soluções pré-fabricadas de vida humana.

O homem desbussolado do século XXI, em meio a um despejo de pacotes prontos de felicidade e de salvação, vive a angústia do excesso de informação em paralelo a impossibilidade da compreensão, ao menos da compreensão ampla, aquela que que dá-nos o sentimento indescritível do significado, daquilo que se revela a nós de uma forma muito particular.

E, em geral, somos levados a nos contentar com meias-verdades, meio-significados, meio-sentidos e, assim, muitas vezes sentimos que vivemos pela metade. O silêncio e a meditação talvez seja aquilo de mais legítimo que restara a um mundo de milhares de vozes insanas em busca de uma verdade universal. É o momento sagrado da experiência de totalidade do Ser. É o solitário [porém, libertador] momento em que nos desapegamos de todos os excessos e nos pomos a ver a nós mesmos libertos de tantas peles....são momentos de lampejos anímicos, do despertar de um sono milenar...

No entanto, por mais que desejemos o êxtase da compreensão, achar a última peça do quebra-cabeças, atingir a lucidez, estamos indiscutivelmente condenados à dúvida. A insustentável leveza do ser passa pelo crivo do peso da dúvida. E mais: qualquer sensação de estarmos próximo de uma 'revelação' verdadeiramente libertadora não foge do fato de nossas verdades serem contaminadas pelos nossos sentidos e, em última instância, contaminados pela internalização social e cultural que sofremos deste o nascimento. 

A crise da metafísica talvez seja uma constatação significativa de que não existem verdades primeiras ou últimas, de que cada alívio de verdade é procedido de um suspiro de desconfiança. Restaria, pois, o silêncio, a meditação, o sentimento genuíno? Havia, então, 'intercessores' desse momento de comunhão de nós conosco mesmo e com a esfera do universal??!

Se há alguma lei a explicar o mistério da vida, esta nunca nos foi dita. Existe, é claro, os ecos ensurdecedores dos discursos sociais, religiosos e metafísicos, mas tais afirmações parecem não ser tão convincentes às verdades d'alma. Ás vezes precisamos "constatar por nós mesmos", o que significa abandonarmos o conforto teórico e demagógico dos recitais socioculturais para  analisarmos, averiguarmos, compararmos e, acima de tudo, sentirmos! 

Verdades nunca serão palpáveis e, em geral, serão sempre transitórias e as paisagens naturais da vida em seu ciclo incessante de transformação dá-nos essa perturbadora desconfiança. Se é-nos impossível banhar-nos duas vezes nas mesmas águas de um rio, por qual razão haveria de termos verdades conclusivas eternas? Se somos esse eterno vir-a-ser, não seria, pois, as verdades ditas, aceitas, internalizadas a impossibilidade de nos transformarmos?!

A vida e suas leis comportam uma sabedoria que [ainda]  nos é cara. Estamos, assim, arremessados a um deserto de incertas certezas, de definições e respostas frágeis, um mundo de gestalts em aberto.