Se há algo absolutamente recorrente na prática de clínicos e não-clínicos, de intelectuais, artistas ou de pessoas comuns, este reside no fato de sermos sempre pacientes de nós mesmos. Significa que aonde quer que desejamos chegar para curar as feridas do outro, para transformá-lo ou, simplesmente, para clarear a trilha, acenar o caminho, toda essa busca representa simbolicamente o esforço inconsciente para buscar o elixir para a nossa própria existência, repleto de mistérios, fantasias, segredos e controvérsias. Decifrar enigmas, quebrar códigos secretos de nosso projeto existencial nos leva a uma imersão por tantos outros projetos existenciais e assim esbarramo-nos sobre as alegrias e as tristezas que atravessam o cotidiano de pessoas, sociedades, nações. Da melancolia ao gozo soberano das possibilidades de autorealização há diversas marés que precisamos driblar e o furioso impulso que nos leva a querer entender o mundo é a força que nos impele a querer encontrar o nosso próprio lugar no mundo, o que implica em afirmar que nosso encontro com o outro é sempre intencional, parcial e contaminado por nossas impressões, nossos sentidos. Interpretar o outro, entregar-se ou distanciar-se do outro tendencialmente é um momento no qual estamos, simultaneamente, resolvendo questões internas. Não dizem respeito, propriamente ao outro, mas, essencialmente ao que desejamos expressar; é o expressar-se e o compreender-se que nos leva a construir relações. E parece, mesmo, que tais relações não existem, pois será que já não nos é suficientemente plausível a ideia de que jamais atingiremos o cerne do outro? De que há um sutil filamento de individualidade que nos permite perder-nos em relação ao outro? Há uma unidade essencial dos seres que faz com que, ao final, tenhamos somente, e tão somente, a nós mesmos. Há o encontro, mas jamais um enlance indissolúvel. Parece estranho e me perdoe os românticos, mas nossas paixões dizem respeito a nossa alma, a ela respondem, a ela são, de alguma forma, subordinadas e o resto é apenas um conjunto de forças que se esbarram a todo momento, ofertando-nos a lição diária, o entendimento, ou o fragmento deste para que possamos unir as peças como num "quebra cabeças" e, mais uma vez, voltar-mos para nós mesmos.
Ao final, a nossa ânsia em compreender o outro não é mais do que a soma de nossos anseios na solidificação de uma identidade para a nossa alma.
Somos um, mas ao mesmo tempo, somos muitos, não porque absorvemos o outro, não por alienação de si, mas porque cada ligação que tecemos com o outro revela-nos personagens de nós mesmos, alguns dos quais nos orgulhamos profundamente pelo talento, pela maestria, pela delicadeza...e outros que abominamos por trazer a tona os monstros que nos habita, que nos corrompem, que desperta-nos a ira, o constrangimento e/ou a impotência. E, assim, mediante a fantasia acerca do "outro", em meio as frageis relações com o outro, tentamos decifrar os enigmas que se controem violentamente no peito.
Em geral, sofremos, agonizamos e adoecemos em função de um "outro" que aparece-nos sobre a forma de nossos próprios sonhos e pesadelos, jamais o atingimos, jamais o modificamos pois o "outro" quando é pessoa, jamais "é" em aquilo que nossos sentidos acreditam "ser". A crise da física e da metafísica. Se admitirmos a hipótese cartesiana que nossos sentidos podem não ser confiáveis no que se refere ao externo e reconhecermos os limites da metafísica no processo de "conhecer", na perspectiva kantiana, parece não ter-nos restado nada, além de nós mesmos. E todo o Universo que permanece girando e todas as pessoas que vem e que se vão de nossas vidas talvez sejam apenas os reflexos perdidos de nossas ilusões, traumas e lições que devemos vivenciar e repetir.
Estamos, pois, no Divã para através de um "Outro" frágil e temporário e através dele reconhecermos o "Si-mesmo", o humano "demasiado humano"....Quando na impossibilidade do "Outro" como gostaríamos que assim fosse, somos, de súbito, lançados nesta ilha deserta para que possamos reconhecer os oásis de nossas demandas ingênuas, imaturas e absolutamente dependentes, como se o encontro com os "outros" devolvesse-nos a parte perdida, corrompida, anulada ou faltante de nós mesmos.
Da impossibilidade do "outro", estamos certos de que nos consultórios, nos bares, nas praças, nas escolas ou nas ruas estaremos sempre e constantemente sendo lançados num imenso tabuleiro onde o que está em epígrafe é apenas a busca por nós mesmos.