quarta-feira, 29 de julho de 2015

Entre Sartre e Heidegger: espanto, fascinação e elogio ao Ser em meio ao tédio e a angústia

O tédio e a angustia - conceitos em que inúmeros filósofos se debruçaram ao longo de suas reflexões, análises e dissertações -  talvez marque toda a trajetória da humanidade, dado o sentimento de que falta-nos algo, aquela sensação nauseante que nos impele a questionamentos, vale dizer, perigosos, tendo em vista que em determinados estágios da consciência, podemos não estar preparados para buscarmos e aceitarmos as respostas [ainda que frágeis, temporárias e contingentes].

No entanto, se o tédio e a angústia são alvos do manual de soluções para as crises da subjetividade do homem, é certo que sem estas sensações, jamais iriamos de encontro ao Ser, permanecendo nas superfícies rasas do mundo tecnocrático e utilitarista onde, no final de tudo, acabaríamos sendo consumidos, devorados pelas próprias formas de proteção que criamos, pelas próprias utopias e soluções de bem-estar e conforto que a vida moderna oferece em larga escala. Contudo, resta-nos avaliar se estas "soluções"são capazes de, verdadeiramente, devolver-nos certas doses de bem-estar, harmonia e alegria, mesmo temporárias. Ao que parece, as respostas que nos confortam, não passam de anestésicos para a nossa consciência e para a urgência e os excessos de nossas emoções e sentimentos que conclamam, a todo momento, ações, escolhas, decisões, as quais muitas vezes nos sentimos demasiadamente impotentes para administrá-los

Tempos contemporâneos marcados por sintomas  fruto, em grande medida, da nossa cega submissão às formas padronizadas do bem saber viver e do nosso pavor frente à melancolia. Em geral,  as profundidades nos assustam e, no fundo, tememos ser consumados pelo oceano de ditos, entreditos e  não ditos que revelam a nossa fragilidade e finitude diante de tudo e de todos. São, pois, em vão cada um de nossos esforços diários para parecermos fortes e insubstituíveis. Aprendemos muito sobre o mundo na velocidade da informatização, porém, muito pouco sabemos de nós mesmos. Vivemos nas superfícies o conforto das ilusões paradisíacas que tentam preencher o vazio, as lacunas da nossa incompreensão. É-nos, pois, terrível a ideia da finitude e da contingência e, temos disfarçado esse grande temor com uma infinidade de ocupações destituídas de significado,

O surgimento da náusea [sartreana - vale abrir o parênteses], ou seja, da angústia perante à constatação de que nada jaz, de que nada se apresenta concretamente e definitivamente, estando tudo fadado ao acaso, à finidade - não apenas cronológica, mas existencial - nos leva a crer que nada nos resta nem no início de todas as coisas, ou seja, nas essências, tampouco, na finalidade de todas as coisas, ou seja, em sua utilidade. Eis, então, que surge o Ser inexorável, o ser que é na medida em que se apresenta [para utilizar a conceituação heideggeriana], ou seja, nada é digno de elogio, espanto, encantamento, senão, o Ser em suas múltiplas expressões. Não é, pois, a essência ou a natureza humana dignas de celebração, afinal, seríamos nós capazes de definir esta 'substância'? Em grande medida, essa essência tomada como objeto privilegiado das teologias, das ciências humanas e, mesmo, pelas correntes filosóficas idealistas nada diz a respeito do ser, não o define na medida em que criam-se modelos idealizados do humano, como se fosse possível prever a manifestação do ser, moldá-lo e predizer o seu destino. 

Na leitura sartreana, o Ser precede a essência...o que vale dizer, em outras palavras, que o elogio à virtude humana recaí sobre a realização do Ser enquanto ser, não de um suspeito "vir a ser", ou melhor, não de uma receita pronta das potencialidades do ser, embora todos nós estejamos certos de que o que somos é, absolutamente, transitório. Apenas devemos lembrar que, a priori, nada nos define, nada há anteriormente para nos apoiar, para dizer quem somos. É, talvez sejamos aquele que caminha sem tocar o solo, absorvido em profundidades abstratas, sem roteiros prévios e, por isso, é-nós responsabilidade primordial construirmos a nós mesmos sabendo que há os temporais a nos desmoronar e, assim, a todo momento somos obrigados a nos confrontarmos. Esqueçamos pois, as origens, os fundamentos ou princípios primeiros, pois o que existe antes do ato é o nada, a medida mais justa para a experiência humana de ser, pois nada, de fato, seríamos em nossa autenticidade mais pura, se fossemos o desabrochar de uma mera utopia.

Por mais que nossa espécie tenha lutado por provar sua superioridade e uma essência divina moldada às semelhanças do que jaz de mais nobre, a verdade é que somos perceptíveis apenas através do que projetamos. Não temos um início ou fim, pois começos e fins se colidem a todo momento e, estamos cá, nos equilibrando sobre uma fina corda entre risos e temores, vivenciando a náusea da inconcretude de todas as coisas, pois nada nos foi dado e confirmado a priori, o que explica as forças acionadas pelo poder da nossa mente e das nossas percepções. De nada vale o discurso poético dos românticos sobre a alma, os sentimentos, as emoções e os afetos sem a expressão concretizada pelo Ser que cria, age e transforma. Alma é a própria expressão do humano, demasiado humano. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O problema da felicidade e do sucesso na contemporaneidade

Em tempos de "patologização" da vida, das personalidades, dos relacionamentos humanos, a questão da felicidade e do sucesso que outrora compunha a motivação natural e nossas inclinações saudáveis para nutrirmos de alegrias, esperanças e bom humor, hoje compõe o repertório de nossas angústias. Ser feliz e ser próspero são duas dimensões que nos atormentam com uma sutil e intensa força que já nem buscamos mais o sentido e o significado dos eventos que sucedem os nossos dias.    

Estamos sempre ocupados demais para performar em alto nível, como máquinas que trabalham incessantemente para produzirem o resultado para o qual estas foram devidamente programadas, não restando muito espaço e tempo para processarmos adequadamente o conteúdo destes eventos. Ocupados demais em entregarmos uma imagem satisfatória de nós mesmos aos outros, deixamos em segundo plano nossos sentimentos, emoções, valores e propósitos mais profundos. Nossa cultura nos impele a este padrão de comportamento altamente tóxico, nocivo e, de fato, tornamo-nos obcecados pelo sucesso inexorável ainda que isso custe a nossa própria insatisfação interior.

Entristecer-se, envolver-se em certo estado melancólico, sofrer uma queda emocional, permitir-se estar parado por algum tempo, quietinhos num canto nos auto-observando ou analisando o que se passa ao nosso redor, é assimilado como sinal de adoecimento psicológico. Até a prática meditativa se tornou um utilitário a serviço da busca por respostas funcionais à lógica cultural e social do sucesso. Precisamos descobrir dentro de nós 'fórmulas mágicas' para lutar. Contra o quê? Lamentavelmente, contra a nossa própria natureza, contra o 'humano, demasiado humano'. 

Não podemos falhar, cair ou parar por algum tempo. Os estímulos externos, muitas vezes são tão intensos, que se nos permitirmos sair dessa  dinâmica produtiva e performática, temos a sensação de que podemos estar a um passo da insanidade. Paradoxalmente, sentimo-nos como se arremessados em um imenso vazio, na tenebrosa escuridão quando, por alguma razão, saímos dos palcos nos quais desfilam nossas máscaras. Há situações em que somos tão controlados emocional e cognitivamente, que uma simples ruptura dessa rotina de sucessos artificiais é o suficiente para sentirmos fragmentados. Tornamo-nos estranhos de nós mesmos e completamente desajeitados ante as desilusões, as tristezas e as angústias existenciais. Narcisistas, porém, ao mesmo tempo, estrangeiros da imagem que vemos refletida em nosso espelho.

Nos mais diversos cenários da vida social, profissional e, mesmo afetiva, viver em estado de profunda felicidade e com mostras significativas de prosperidade e realização já é um imperativo. E assim, grandes afetos se convertem apenas em grandes empreendimentos. 

Para o suposto "fracasso", em qualquer uma destas áreas, há uma resposta conclusivas nos DSMs e nos mais variados consultórios, afinal, fizeram de nossas dores motivos para o constrangimento. E, assim, riem de forma escancarada os tolos iludidos pela falsa alegria supostamente trazidas por nada mais do que euforias artificiais e ideias arbitrárias de sucesso. Quanto esforço e quanta luta precisamos empreender para evitarmos as decepções, a melancolia, a perda do jogo...

A cada ano, avolumam-se mais do que as categorias dos DSMs; amplia-se os tratados e os discursos psiquiátricos e os [equivocadamente] filosóficos e psicológicos combatentes das fraquezas humanas, criando a falsa ideia de que estão trabalhando pelo bem-estar e por uma melhor adaptação dos indivíduos em seu meio ambiente. Uma homeostase ás avessas.  E, assim, tornamo-nos cada vez mais incapazes de lidarmos com nossos medos, perdas e frustrações. 

O problema parece se resumir a uma única incógnita: o que realmente estamos fazendo daquilo que fizeram de nós? O filósofo francês Jean-Paul Sartre nos alertara para a responsabilidade que temos para com o nosso projeto existencial e, assim, se dispendemos grandes quantidades de energia nos responsabilizando, acumulando tarefas que não nos dão mais do que mera aprovação social, por qual motivo não assumimos a responsabilidade pela atenção aos nossos temores e tremores?!

Escrevo para preencher folhas em branco...

[...] Porque és verdadeiramente viciante e visceral a maneira como preenche os meus dias e que todos os meus "nãos" continham chamas vivas do que foi...foste? 

Neste manancial de tormentas,  perturba-me a alma estes suspiros teus sufocados na languidez da tua fala sempre de incompreensíveis palavras. És, assim como uma presença fantasmagórica, um retrato que ocupas cada um de meus cômodos, aprisiona-se nas janelas, nas paredes, na velha escrivaninha cujas torres de papel um dia falaram sobre ti. 

Romanceei um dia tua existência doce e fugaz e tu converteste neste conto [de dentro], pois tua fala mistura-se as minhas palavras e, constantemente, dizes através de mim. Que insanos estes momentos em que tu parece ter assumido o controle de absolutamente tudo, a ponto de meu todo estar revestido, ainda, de ti.

Se ao menos eu tivesse a certeza de que tu não estivesses na memória de minhas células, que este pulsar não fosse dos lampejos da tua presença. Por que insistes em esvaziar os meus dias com ilusões tórridas? Porque vens querer-me nos momentos de maior fragilidade? Com que  coragens assiste-me a despir-me de peles que nunca me pertenceram?

Que justificativa plausível tens para continuar aqui, ao lado, a tecer suas meio-verdades? Por que insiste em fiar-me em ti, quando jaz há muitas milhas deste sendeiro extraordinário, em que agora me encontro?

Estou a principiar o prelúdio da insanidade, essa febre que me consome, trazendo-me mais incoerências, pois se estou há anos a caminhar solitariamente as veredas da existência, como posso eu sentir uma presença envolvente a soprar-me estas palavras que aqui escrevo??! Logo, concluo que tudo não passa dessa minha tendência sonhadora em projetar emoções nunca sentidas, porém tão  esperadas... 

Oras! É atributo e função fundamental do escritor ensaiar passos nunca dados antes, custe o que custar! São ossos do ofício da tradução literal e não-literal da vida, de uma dimensão sentimental não compreendida, não vivida, não escrita. Escreve-se, terapeuticamente, para termos coragem de encarar nossos próprios abismos e, aqui ao relento, escrevo tantas vezes para preencher folhas em branco...



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Silêncio de uma só alma


Era inverno... e eu podia sentir o queimor da neve a ruborizar-me a face em meio as montanhas. Não havia mais nada a não ser eu e o teu perturbador silêncio. Em verdade, nunca conheci tua  face, pois quando me vens, meus poros estão a respirar nada mais do que o aroma de tua voz ecoando há muitas milhas do horizonte. E, então, eu poderia ver apenas as linhas tênues de um desconhecido semblante .

Eu aqui, a deriva de montanhas gélidas experimentando um tipo de liberdade que - eu sei bem -  me custará a própria vida, pois estou em queda livre, dissipando-me no ar em meio à melodia dos teus passos firmes, tão certos...Sucumbi aos limites físicos e estou deslizando na aspereza dos rochedos de tua ilha, este santuário de tantos acordes, onde vivia apenas eu e o  teu silêncio. Estou, pois, sentindo os limites  entre o céu e a terra, entre a insustentável leveza do etéreo e a dilacerante aspereza do rochedo. E enquanto estava a deslizar nas chamas gélidas do teu desejo, entorpecia-me a alma este recrudescente aproximar-te. 

Arrancava-me o  ar... era a alucinógena sensação de ver-te como uma energia que brilhava, pulsava, presente, insistente, porém que me escapas... Nunca alcançar-te-ei porque, em verdade, projetei-te em meus delírios, pois é-me poético teu silêncio e dele fiz versos de um incessante querer-te. Tú és aquele que jaz entoando cânticos e eu, como se de olhos vendados, jamais fosse capaz de ver-te assim, tão perto... eras quase aquele fantasma de tantas óperas, disposto na mais alta das torres, para além do pico mais alto das montanhas. Eras, pois, distante, mas eu era capaz de decodificar os teus ritmos...

Era o movimento, a emoção, a música que me incitava a querer-te tanto que estou, agora, há 
poucos metros da superfície da razão, a respirar com certa dificuldade e impaciência... sabendo o quanto doerão meus ossos quando sentir o impacto  do eterno retorno ao mundo de ruídos insuportáveis. Era o badalar da meia noite que me consumiria, que me atiraria nas profundezas do teu vazio. 

Persiste em meu âmago, este excêntrico gosto pelo deserto, pelo gélido, pelos limites intransponíveis. Contudo, bastaria rejeitar todas as sirenes, as cores, as conversas boemias, a insanidade das cidades, quando estaria a embriagar-me em teus soturnos monólogos? Certamente, não!
Dividida entre a normalidade patológica do caos, no cotidiano revelador de nossos mais primitivos instintos e a natureza poética de amores improváveis emoldurados por seres angelicais, não era possível escolher entre o sonho e o delírio.

Lutava em vão contra as sombras do teu silêncio, pois era inevitável que tu adentraste meu mundo, sem ao menos pedir licença, tirando-me das superfícies de tantas certezas, para lançar-me no vazio 
de uma liberdade que faria dos meus dias tempestades a arrebatar-me das seguranças e deste 
último fio de lucidez que dá-me a dimensão [assustadora] desta queda livre. 

Já nem respirando, mas suspirando estou perdendo a consciência em meio a densidade do ar rarefeito de tuas palavras... 
Era-me nobre ofício estar aqui a  interpretar o teu silêncio, as inteligíveis palavras do sax  que ainda está, ao longe, a produzir esta melodia soturna. Era forte, era perturbador, como o som de um velho estribilho a reproduzir incessantemente o desespero invernal, a fúria dos ventos, o queimor da neve a sangrar a pele...

E ardia igualmente este silêncio que nunca fora apenas teu, porque enquanto performava-te nos cenários da minha existência, eu estava também longe, dissertando sobre delírios e desejos meus. 
Destarte, já com os ossos em chamas, eu sei que este ensurdecedor silêncio não é mais do que a própria expressão da minha alma e este silêncio, bem, é um composição de tantos dizeres não ditos...