Em tempos de "patologização" da vida, das personalidades, dos relacionamentos humanos, a questão da felicidade e do sucesso que outrora compunha a motivação natural e nossas inclinações saudáveis para nutrirmos de alegrias, esperanças e bom humor, hoje compõe o repertório de nossas angústias. Ser feliz e ser próspero são duas dimensões que nos atormentam com uma sutil e intensa força que já nem buscamos mais o sentido e o significado dos eventos que sucedem os nossos dias.
Estamos sempre ocupados demais para performar em alto nível, como máquinas que trabalham incessantemente para produzirem o resultado para o qual estas foram devidamente programadas, não restando muito espaço e tempo para processarmos adequadamente o conteúdo destes eventos. Ocupados demais em entregarmos uma imagem satisfatória de nós mesmos aos outros, deixamos em segundo plano nossos sentimentos, emoções, valores e propósitos mais profundos. Nossa cultura nos impele a este padrão de comportamento altamente tóxico, nocivo e, de fato, tornamo-nos obcecados pelo sucesso inexorável ainda que isso custe a nossa própria insatisfação interior.
Entristecer-se, envolver-se em certo estado melancólico, sofrer uma queda emocional, permitir-se estar parado por algum tempo, quietinhos num canto nos auto-observando ou analisando o que se passa ao nosso redor, é assimilado como sinal de adoecimento psicológico. Até a prática meditativa se tornou um utilitário a serviço da busca por respostas funcionais à lógica cultural e social do sucesso. Precisamos descobrir dentro de nós 'fórmulas mágicas' para lutar. Contra o quê? Lamentavelmente, contra a nossa própria natureza, contra o 'humano, demasiado humano'.
Não podemos falhar, cair ou parar por algum tempo. Os estímulos externos, muitas vezes são tão intensos, que se nos permitirmos sair dessa dinâmica produtiva e performática, temos a sensação de que podemos estar a um passo da insanidade. Paradoxalmente, sentimo-nos como se arremessados em um imenso vazio, na tenebrosa escuridão quando, por alguma razão, saímos dos palcos nos quais desfilam nossas máscaras. Há situações em que somos tão controlados emocional e cognitivamente, que uma simples ruptura dessa rotina de sucessos artificiais é o suficiente para sentirmos fragmentados. Tornamo-nos estranhos de nós mesmos e completamente desajeitados ante as desilusões, as tristezas e as angústias existenciais. Narcisistas, porém, ao mesmo tempo, estrangeiros da imagem que vemos refletida em nosso espelho.
Nos mais diversos cenários da vida social, profissional e, mesmo afetiva, viver em estado de profunda felicidade e com mostras significativas de prosperidade e realização já é um imperativo. E assim, grandes afetos se convertem apenas em grandes empreendimentos.
Para o suposto "fracasso", em qualquer uma destas áreas, há uma resposta conclusivas nos DSMs e nos mais variados consultórios, afinal, fizeram de nossas dores motivos para o constrangimento. E, assim, riem de forma escancarada os tolos iludidos pela falsa alegria supostamente trazidas por nada mais do que euforias artificiais e ideias arbitrárias de sucesso. Quanto esforço e quanta luta precisamos empreender para evitarmos as decepções, a melancolia, a perda do jogo...
A cada ano, avolumam-se mais do que as categorias dos DSMs; amplia-se os tratados e os discursos psiquiátricos e os [equivocadamente] filosóficos e psicológicos combatentes das fraquezas humanas, criando a falsa ideia de que estão trabalhando pelo bem-estar e por uma melhor adaptação dos indivíduos em seu meio ambiente. Uma homeostase ás avessas. E, assim, tornamo-nos cada vez mais incapazes de lidarmos com nossos medos, perdas e frustrações.
O problema parece se resumir a uma única incógnita: o que realmente estamos fazendo daquilo que fizeram de nós? O filósofo francês Jean-Paul Sartre nos alertara para a responsabilidade que temos para com o nosso projeto existencial e, assim, se dispendemos grandes quantidades de energia nos responsabilizando, acumulando tarefas que não nos dão mais do que mera aprovação social, por qual motivo não assumimos a responsabilidade pela atenção aos nossos temores e tremores?!
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