Há quem garanta a fidelidade da história ao caracterizar a sociedade moderna com a erupção do Iluminismo - e de lá para cá, obviamente, muita coisa mudou. Entretanto, é de científica constatação que das luzes, inevitavelmente, projetam-se as sombras. Um erro, imaginar que a luz se faz pelo som desesperante das tecnologias e das formulas do saber bem viver. O que não foi ensinado, quando o ser humano deixou suas crenças metafísicas e tratou de se construir no mundo, foi o de buscar a sua própria metafísica, a metafísica da alma. De lá para cá, a história se fez a partir da negação das subjetividades da alma e das desesperantes tentativas de alcançar e ostentar um tipo de felicidade permanente; uma necessidade de potência, de destaque. E o movimento tomou forma; como um tufão gigantesco arrebatou temporariamente o significado da existência, substituindo-o por maneiras artificiais de Ter razões e motivos concretos para se auto-venerar e, para além disso, publicizar-se frente a um mundo de incertezas. Tornar público a vida supostamente condecorada de diamantes. A Era dos Heróis e Deuses anônimos, da perfeição cibernética, das ilusões e dos prazeres virtuais. Vencer as possíveis derrotas, desviar-se das catástrofes ou, talvez, sofrê-las mas, ainda assim, sobreviver ileso. Há uma perversidade inerente ao frenesi da auto-superação, da felicidade ilimitada, da liberdade desmedida. No entanto, não se observa a evidente contradição: nunca a liberdade fora tanto o objeto de controle daquele que tanto almeja esta liquefação de todos os limites; há, pois, uma necessidade permanente de controle do presente e do futuro, manipulação e sabotagem de si e do outro diante da avidez por tomar nas mãos as cordas que movem o mundo. Tecnologias e conhecimentos a favor do controle e do domínio.
Há uma confusão histórica entre as múltiplas dominações dos sistemas e instituições religiosas com a benéfica meditação única do ser. Em nome das proezas intelectuais e tecnocientificistas houve a transferência do eu Maior para as futilidades e banalidades de uma vida com múltiplos canais e redes, desconsiderando os portuários da existência. Uma teia gigantesca talvez seja a metáfora adequada para a absurda banalização das relações sociais e da vida humana, pois estamos atados a uma rede frágil, porém consistente que, sendo um emaranhado de linhas que se entrecruzam é, fatalmente, uma terrível armadilha. Teias que nos transformam em presas vulneráveis. Somos devorados pelas nossas próprias urgências. Somos, pois, filhos de Kronos. O tempo que tudo devora, sempre implacável, o mundo se desmanchando nas mãos, tal como os tolos que arrancam flores do solo para apreendê-las em ornamentos ou para fadá-las a viverem isoladas em vasos artificiais. Esvaziemo-nos, portanto, das artificialidades, da água sufocada dos recipientes estreitos, dos cativeiros e dos cárceres que, inutilmente, desejam abrigar o vívido, o essencial ou - na linguagem moderna - as pílulas da felicidade inexorável.
Em meio a todo esse progresso, o que, no entanto, sentimos no absurdez do mundo do trabalho - particularmente nas grandes corporações?! Como sentimos as amizades em redes sociais? Como podemos consumir nossos dias com as interações cibernéticas, dedilhando velozmente celulares, tablets, dispositivos eletrônicos que nos deixa em transe frente ao mundo que nos cerca.
Não se faz luz nas externalidades das relações objetais. Não há qualquer centelha de luz na voracidade com que alimentamos o desejo pelos últimos lançamentos tecnológicos ou pelas horas desperdiçadas nas conversas sem conteúdo. Trocamos nossos gênios por "geeks", trocamos a sutileza pela inconveniência, o sentimento pela razão. Não há qualquer centelha de nós nas escolhas de roupas padronizadas que escolhemos para mais um dia laborioso, nas ilusividades de que através delas podemos sustentar algum tipo de superioridade; em verdade, tentamos, no máximo, alçar algo parecido com dignidade. Não há sentido nas certificações de estudos grandiosos se estas valias forem usurpadas pelo cotidiano das horas afinco de trabalho corporativo. Há, sim, um vácuo de estupidez na rotina robotizada dos nossos dias. Um movimentar-se permanente, sem contudo, sairmos de onde estamos. Um tipo de inércia, estanque Há, pois, um impulso constante de se fazer completo e de ostentar as bandeiras do sucesso, há um retorno, uma ânsia por fazer-se semideuses ainda que na alma esteja o reflexo da barbárie, das derrotas, dos vestígios desastrosos da existência, estes quase sempre maquiados e cuidadosamente fantasiados e colocados nas vitrines virtuais como ícones do progresso e da superação.
Fernando Pessoa, o poeta português "de dentro", já nos alertara sobre estes semideuses, indivíduos que não são gente, propriamente, mas que espalham a ânsia mortal se se tornarem estereótipos de um tipo de felicidade jamais compreendida, aquela felicidade artificial, quase patológica.
Pois o que é a felicidade se não um estado de espírito?! É possível buscar uma muda de felicidade, plantá-la e esperar sobre as pedras que cresçam arvores frutíferas? Desconfio deste tipo de felicidade que cresce nos quintais de terrenos improváveis. Das dores das conchas que se fazem as pérolas, das dores do parto que se faz a vida, do desapego se faz a leveza, da mesma forma como da escuridão que se é possível distinguir a luz. A felicidade acontece numa fração de segundos e somente sua alma poderá retê-la e lhe dar a forma que lhe cabe em sua existência.
Para isso, custa-lhe uma ação assustadora: se colocar diante do espelho e arrancar d' alma aquilo que não lhe pertence, todas as coisas que lhe foram acrescentadas por pessoas e objetos que não lhe pertence. Dos sorrisos erroneamente retribuídos em rituais sociais até às inveracidades tomadas como verdades absolutas. É hora de desentulhar a sujeira que faz cegar nossos olhos e calar nossas bocas. É momento de resgatar os sonhos que nos fora injustamente usurpados. Faz-se, urgentemente necessários negarmos tudo aquilo que nos nega. É o exercício do des-pertencimento, do desenraizamento que proporcionará a sensação da insustentável leveza do ser. Pode-se olhar para dentro de si quando não se tem mais mil olhos a te vigiarem e te julgarem em seu interno. Há de se encontrar um santuário absolutamente vazio de trialidades e se preencher de luz. Quando a visão de seu reflexo no espelho tornar-se clara, sem borrões ou brumas a encobrir-te, você já abraçou um estado de felicidade. Nada mais importará, porque a vida não é em si, ela é para si.
Não é preciso, pois, mais se preocupar em se filiar aos clubes de compartilhamento das dores da existência, nem das bebidas amargas e depressoras para se anestesiar das feridas pungentes. Não é preciso mais dos sorrisos e dos cumprimentos sociáveis quando a alma deseja calar-se. Não há identidade, não há um identificar-se no outro. Não há nada lá fora. As multidões são ilusões, cenários, o cruzamento de outras vidas onde não há o seu Eu. É quando você descobre o seu próprio lugar, dentro de si mas despontando para fora sem receios, podendo dar passos leves sem que sintas a aspereza do concreto. Conversas infames, blasfêmias, risos sarcásticos, olhares curiosos, nada disso se fará seu quando se projetas na leveza de teu ser que é luz, possibilidade, sonho, realidade...
Não se faz mais apenas para algo externo e estranho a nós...se faz para si, em si, no alinhamento sutil com seu cosmo interno e todo o mais será seu...não há dores que resistam para sempre, não há resistência para a existência, ela simplesmente flui...se estás neste sentimento de luz não é preciso dos esforços inesgotáveis das condutas morais e sociais, das aprovações, do tiro de partida. Tudo se faz a partir da alma...Como alcançar os sonhos se eles estão enamorados pelos objetos externos?! Pois insisto que quando agires na direção de si, bastará retirá-los com convicção das prateleiras do mundo e carregar em seus braços o que é teu, somente teu. Tudo o mais será teu.