sábado, 18 de outubro de 2014

Anseios bucólicos - A vida sonhada pelo outro lado da janela


Houve tempos em que a Natureza, enquanto a quintessência da humanidade e princípio   primordial do movimento cósmico da existência era, por excelência, o principal elemento presente na manifestação da arte poética no contexto intelecto-cultural do homem. A eloquência do discurso dos românticos revelava a interdependência mais sublime do homem em relação ás forças naturais. Sabiam que tais forças revestiam o espírito e ascendia a alma para as inclinações mais belas do sonhar. Os românticos  reconheciam, pois, a Natureza como um estado interior de absoluta perfeição, é  artesã do esplendor e refúgio para os dias tempestivos.
E hoje, desejei estar neste santuário. Abrir as janelas e ver a poesia tomar  forma, ver solos, terras, mares e montanhas longínquas. Desejei perder-me entre os  arbustos e estar só no topo de uma alta montanha. Ver a vida enquanto ela vive.
A vida do outro lado da janela, assim, aparecia arrancando-me suspiros de encanto,  pois era uma sensação indescritível que ascendia inúmeras urgências. Viver era uma dessas urgências, pois a perda da nossa conexão natural, faz-nos cegos diante da vida. Torna-nos prisioneiros de estruturas concretas que arranca-nos a percepção das essências. 
Vedes o cortejo de sons e aromas no alto das montanhas? Vê-se? Vês? 
Vedes a musa, Mãe-Natureza, em seu esplendor a romancear um novo dia?
Ao repousar o olhar para o outro lado da janela, havia uma intencionalidade de Ser. Havia, pois a urgência de ser e de viver a contemplação esmagada nas urgências da produtividade humana da contemporaneidade. Todavia, aquela janela representava uma escolha. A escolha de si, para si, em si. Pudeste escolher em vida megalomaníaca a si? Reconheceste teu 'eu' nas vicissitudes e solicitações 
constantes do mundo moderno?
Era hora de silenciar a mente e voltar a sentir. Desejei, pois, natureza.
A efervescência da vida levemente conduzida por bosquejos que se elevam às catedrais do etéreo. 
E, lá, o dia nasce lento, manso, com o orvalho gotejando nas folhas verdejantes que condecoram as vidraças das janelas.
E do casebre avista-se o doce aroma do chá de frutas silvestres. A cerejeira a  dobrar-se pelo jardim, oferecendo teus frutos, cortejando os ramos de rosas que banham-se no orvalho da manhã enquanto, ao lado, os girassóis se voltam para sorver os raios solares ainda tímidos que pincelam os céus condecorados de nuvens brancas. A atmosfera é de leveza insustentável. Não há resquícios de mortes e de sujeiras.  Tudo é límpido, insurgente, reluzente. Tudo parece tão certo. Cada detalhe em seu  devido lugar. Cada coisa e cada ente cumprindo com seu destino. Espaço onde os  dias se desfolham em poemetos. Recanto de absoluta beleza onde a natureza se movimenta em harmonia. Nas abóbodas celestiais, os acordes uníssonos de pássaros a cantarolar, a produzir sonetos por entre as núvens que, mais tarde, irão se deleitar em chuva. 
Um santuário em sépia para abrigar os anseios da alma. Era sempre silêncio. Não um silêncio qualquer, mas aquele silêncio revigorante que recita bons presságios em  forma de poesia. 
Ergue-se, pois, no doce Setembro, o primeiro solstício de inverno. Época de recolhida, porém, jamais, de amargura. O mel e as amêndoas em provisão abundante adoçam os dias que se desfolham em poesia. Dias que enamoram noites e que fecundam o diário da existência.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Não aprisionar os instantes

As urgências humanas são infinitas e a tendência a querer reter a experiência da existência em fragmentos controláveis, renega uma das leis fundamentais da vida: a de que tudo é movimento e, que inevitavelmente, a transformação se impõe como tônica para o desabrochar da vida.
Contudo, não há como cercear o eterno movimento, o eterno retorno Nietzchiano. 
Aprende-se, com isso, que os instantes felizes ou trágicos são meras pinceladas de um imenso quadro que pode ser tudo, menos estático.
Aprende-se que promessas não são mais que delongas erguidas sobre solos frágeis; o tempo tende a arrebatar as construções do futuro.
Aprende-se ainda que as urgências de tão ávidas por respostas, tendem a explodirem em chamas. Ardem e fazem ardor na pele para, então, converter-se em cinzas.
E perdura a incessante insistência em tornar palpável momentos e memórias.
Retê-las no âmago da existência é a mais dura das provas que, em geral, não acabam bem. Não vês que momentos são pedaços de essências com tempo de vida curto, os quais não podem ser mantidos inalterados em recipientes sufocantes?
Humilha-te e machuca-te quando, em sua miserabilidade interna, insiste em solidificar o fluxo das coisas, de conter o escoamento daquilo que foi mas que não jaz mais da mesma forma. Já constatava o filósofo pré-socrático Heráclito que "Não é possível se banhar duas vezes num mesmo rio".
Estamos a cavar os abismos dentro de nós mesmos e a procurar, cegamente, o que poderá preenchê-los. Não entendes que a vida escapa dos invólucros inúteis que forjamos?
Eis o problema de se pensar em demasia e sentir bem pouco. A nossa racionalidade extrema faz de nossa experiência existencial um laboratório no qual acreditamos ser capazes de controlar sem que, no entanto, se perceba como a vida flui através do espírito, que a nossa mente é a responsável pelo inferno e pelo paraíso da tua existência.
Não paralise teus instantes, mas permita-se senti-los no fluxo de consciência cósmica da vida.

Acusações, sentenças e ofensas - da condenação ao arbítrio


Há dentro de mim um urrar por liberdade. Uma alcatéia pronta a atacar os parasitas silenciadores do direito de ser do outro. Não respeita-se, como pode se ver mundo a fora, o princípio fundamental da existência: o direito de ser. Por isso, luto por uma liberdade voltada para o quebrar das algemas, uma liberdade que não é mais do que a afirmação da legitimidade do meu ser. Não uma liberdade impossível do existir, desse conceito doentio e ingênuo de liberdade, tampouco do desvario de tentar extrair-se do corpo e fazer-se luz, desprezando-se as forças internas e externas para nos encerram. Não. Não é essa batalha a qual me refiro. Devo assegurar, pois, a dignidade de um tempo para mim mesma, a liberdade das escolhas, dos passos, dos devaneios mas sem cair em ilusividades como se o ser fosse totalmente desprendido desse invólucro cósmico, como se o corpo não respondesse as leís da física. Pois somos, também, fisicamente feitos. Deve-se ter em mente a morte eminente quando se salta de um prédio imaginando que se farão asas. Não, é dessa liberdade impossível a que me refiro. Falo de leis que deveriam ser violentamente violadas para retirar-nos do campo de concentração a qual fomos recrutados. Me refiro ao fim das relações de servidão voluntárias, de penalidades alternativas que nos são imputadas. Há muralhas a serem derrubadas, limites a serem superados, há a necessidade de rasgar-se, de estilharçar-se, de se ver em pedaços muitas vezes. Por muito pouco caímos nas armadilhas das vicissitudes da vida mundana. Somos subjulgados, apontados, condenados. Na relação com o mundo há uma batalha sangrenta urgindo nas mentes e nas bocas das pessoas que é a expartição de padrões considerados anômalos, excêntricos, aburdos e imorais. Não se vê a patologia daquele que, cego para tuas próprias verdades, estás com uma luneta e uma lupa analisando as verdades e os preceitos alheios. 
A processualidade da vida esbarra na ensurdecedora batida de martelos, das penalidades impostas, dos castigos instituídos, dentre eles o medo e a resignação Há não só nas estórias e nas crônicas, como também na própria História, exemplos de sentenças de aprisionamento onde os motivos ora são difusos e ora arbitrários definiriam os destinos de milhares de seres humanos. Assim ocorrera no Holocausto Judeu, em diversas Instituições Psiquiátricas, nas ilhas remotas dos exílios. Mas de outro modo, ocorre, a todo momento, um processo movido por desconhecidos, por rostos sem face, por palavras proferidas por lábios amargos. Há as ofensas de cada dia, no trabalho, na família, nos circuitos infindáveis das redes sociais. Somos impelidos a responder a estes processos. Muitos a testemunhar nossos crimes comportamentais, acusando-nos, nomeando-nos, encurralando-nos e não há defesas. Somos arrastados e jogados à própria sorte, nos quartos escuros, em total reclusão. Somos, a todo momento, objetos de sentenciação, vítimas da coerção massificada. Onde estará nosso arbítrio? O que fizemos de nosso "Eu"? Quantos nomes e personalidades já nos deram? Quantos manuais de como viver já nos apresentaram? Quanto de nós fora abruptamente usurpado? Qual o preço da nossa liberdade? Como nos alforriamos em vida? Quanto se perde e quanto se ganha no jogo da vida? O que se perde com o tem quê... ou com o que não podemos fazer com quê...isso é sobre liberdade numa sociedade apriosionada por inverdades, convenções e conversões absurdas. 
Em tempos caóticos, viver exilado é uma alternativa quase apaixonante. É o exercício do arbítrio, do mais puro livre-arbítrio. Quantos gênios da história tornam-se ícones de si mesmos na prisão preventiva da sociedade humana? Quantas obras, quantos nasceres comportam estes espaços remotos e sufocantes, verdadeiros depósitos de indesejáveis enquanto os boêmios se dispersavam no Baile de Máscaras?! É, por vezes, temível viver do lado de fora.  
Pois faço da condenação uma trilha para enveredar-me pelos exílios da existência, pois bem renego a prisão em vida, a prisão em sociedade, a reclusão em plena luz do Sol. Não afianço a minha liberdade para viver pequenamente a vida. No entanto, aquele espaço tão restrito dos cômodos isolados em lugares remotos resplandece na medida em que exerço meu arbítrio. Nesses espaços que sinto a morte se fazendo vida, lá que as paredes acinzentadas e corroídas pelo tempo se iluminam. É aurora. É nascedouro. Há harpas angelicais do lado de fora. É bem verdade que quando a alma se liberta, tudo o mais se torna vívido. Minha morte em vida, é meu renascer, o meu fortalecer. E eu já passo ver os botões de rosas se desabrochando na pequena janela. Uma fresta de luz ilumina-me o rosto, rouba-me uma lágrima. Da minha mente fez-se sol...já sinto as correntes se afrouxando...

Elogio ao Escárnio (o elixir para a tragédia vinda de fora)


Embora sejamos eternos e portadores de uma alma de essencialidade luminosa infinita, a consciência dos grilhões que nos aprisionam e da violência com que somos lançados ao mundo que sangra entre lanças e espadas que ferem o espírito inevitavelmente levam-nos a um conjunto cronológico de dias que nos roubam essências da alma, que assassinam nossos sonhos, interrompem nossos desejos, calam nossas palavras e fazem-nos reféns de outrem. 
Num cenário de tantas mortes, despersonalizações, delírios e martírios, pode-se, simplesmente, debochar da legião estrangeira, dos desconhecidos que, das mortes mal morridas, tornam-se mortos-vivos cambaleantes prestes a devorar-te. Um mundo de nômalos, àqueles vivem da patologia da normalidade, ditando regras, etiquetas, propagando a uniformização do mundo, desgraçando a vida de outrem, contaminando a beleza do mundo, erigindo jazigos nos jardins aonde se crescia a vida.
Escárnio é antídoto para a infecção altamente contagiosa de vidas secas e amargas que, negando a Luz, a própria luz, luz-alma, perseguem os lampejos das almas que ainda vibram, das almas que ainda estão alinhadas à energia primordial dos seres, àquelas que se inclinam ao Sol. Rir, rir-se, terminar-se em galhofas é fechar as cortinas para a dramaturgia teatralizada nos palcos da existência serena, é negar os aplausos dessa legião que aguardam nas coxias  o momento da  revanche final. Rir-se-á, portanto, da poluição multisensorial despejada por lábios de fel e por atos de perfídia, levando dissabores, sujeira e degradação. 
Não, meu espírito não alimentarás os teus fardos. Não empresto meus sentidos para a tua perversão. Basta! Às tuas tragédias dou-lhe o escárnio, o riso, a indiferença. 
Escárnio é a qualidade sublime da valorização de si, pois desmorona as muralhas das opulências, porque devia-nos das flechas envenenadas que urgem inflamar a pele. É possibilidade de ignorar o fétido, de manter-se íntegro em meio aos apedrejamentos infames, pois quando posamos com a boca escancarada em risos, herdamos as valias dos tolos, mas com a dignidade dos nobres.
Esta é a legítima função do escarnecimento: dissolver o horizonte gélido das façanhas obscuras. 
Escárnio é, pois, centenas de fileiras de soldados preparados para combater a tua sombra. Não! De mim não arrancará as lágrimas e nem o fervor do sangue correndo nas veias para sustentar a tua perdição. 
É preciso defender a beleza da vida. Vida. Vês o que fazes com a vida, em vida? Sentes os impulsos latentes da alma que não sobrevive à invasão do outro? Luz é preciso. Iluminas? Brilhas? Encontra o teu vale insurgente? Aonde foram os teus anjos? 
Escárnio é a resposta dada à palavra amarga, ao gesto hostil, ao olhar sarcástico. Recurso essencial para que impeças que outrem ridicularize o seu universo. Seu. Tão seu, e tão somente seu. Escárnio é força, é auto-amor, é um importar-se desinteressado. Não é violência, não é sobre ferir, é sobre defesa da alma, simplesmente. Não te fraquejas as sombras? Não te doí o peito atravessado por flechas envenenadas que mata-te lentamente?
Não bebeis do líquido amargo. Não rendeiste às pílulas, aos sedativos, à válvula de escape. Enfrentais com escárnio entre os dentes a vida que lhe escapa num segundo de distração. Não se curvai aos brutais. Mas paralisai-os com a esgarnação. 
   

domingo, 12 de outubro de 2014

O suplício de um proletário - falando sobre o calabouço da existência

Há algum tempo que sua vida perdera a cor, a completude, o significado. 
Há algum tempo que passara a andar curvado,num caminhar sonâmbulo, num arrastar-se diário
Nas costas, uma pesada mochila, com os mesmos objetos, as mesmas ferramentas.
Já não tinhas mais certeza do que jazias apertado sobre os panos e bolsos deste artefato. Não tinhas mais consciência do conteúdo dela e mal tinha desejo de tê-la. Apenas sabia que a cada dia parecia mais pesada. 
Mesmo assim, lutara para mantê-la atada ás costas, ainda que já não dispunha mais de força muscular para sustentá-la em coluna ereta.
A cada dia o sono, antes pesado, misteriosamente foi se tornando mais leve. Já não se entregava mais aos travesseiros que sempre o aguardava em desespero. O mal já estava feito. O pobre homem jazia desperto, em meio a rituais inúteis para entregar-se ao desejado sono de uma noite veloz. Insônia. Entre incontáveis vezes em que perambulava pela sala com o corpo cansado, terminava na poltrona com os cotovelos apoiado nas pernas e as mãos tentando suportar o peso da cabeça. De olhos abertos, porém fadigados, direcionados para o nada, o semi-consciente homem, caíra num cochilo e, dentro de poucos segundos, despertara assustado. Imaginou ter escutado o inconveniente alarme do despertador comunicando-lhe a chegada de mais um dia que se levantava pontualmente as 04:00 da manhã. Porém, os ponteiros sempre tão seguros de si, ainda registravam 02:00hs. É bem verdade que as horas mostraram metade de seu exíguo período de sono consumido e, assim, entrara em delírio em meio ao tic-tac dos relógios que pareciam falar por si em madrugadas silenciosas. O homem franzino, de cabelos grisálios, de olhos, agora, semi-cerrados era atormentado por uma vertigem que parecia desenhar intermitentemente círculos de fogo em sua cabeça. Sentira como se os ponteiros do relógio vibrassem dentro de si e fora consumido por uma terrível cefaleia. Náusea. É bem verdade que o estômago ruía pelo ausente jantar, pelos dias terminados em apenas uma xícara de café amargo ou pela última taça de água ardente que jazia escondido numa geladeira esvaziada. Esvaziada era a sua existência; consumida pelos dias e noite fastidiosos. O humilde casebre - de janelas estreitas e paredes acinzentadas, era revestido também de um esvaziamento peculiar. Cada objeto parecia vazio de si mesmo. Tudo era incompletude; desde os rústicos castiçais ausentes de velas até as molduras enferrujadas sem fotografias. Tudo era ausente de conteúdo, de cores, de volume, de textura. Uma atmosfera envelhecida, um ar empoeirado impregnava o estreito cubículo em que sobrevivia. 
As rachaduras e os infiltramentos das paredes pareciam soluçar em meio a gritos dilacerantes de um concreto que ameaçava derreter por dentre os tijolos crus. O som das ruínas confundia-se com algum tipo de cortejo fúnebre, uma marcha solitária de tantas mortes. Não, não se trata da decomposição do corpo, mas da putrefação dos sonhos d'alma. 
Uma pilha de contas de energia elétrica jaziam amontoadas sobre a velha escrivaninha já corroída pelas areias do tempo, mas a casa possuía apenas a luz das lamparinas. A casa acordara apenas com a luz do Sol, a qual já não contemplara há alguns anos. Tudo era névoa, neblina, um borrão. Era, assim, a existência esquecida, a existência encolhida, a existência sufocada...O que fizera aquele pobre homem consigo mesmo? Teria tido ele escolha? Teria tido ele, nível de consciência mais profunda em meio a guerra travada com o seu implacável destino? Estaria, pois, destinado ao desatino?!
Ás vezes não é preciso se metamorfosear em um inseto para acabar como tal, com a dignidade em migalhas e o rosto em frangalhos. Basta diminuir-se em relação ao tamanho dos teus sonhos. Basta envenenar-se com as soluções modernas disfarçadas de pacotes mágicos de felicidade. 


Insuficiência e insignificância no academicismo - do aprisionamento do intelecto criativo

Estudar sempre fora verbo presente em minha vida. Não se estuda apenas no sentido pragmático, embora o estudo seja ferramenta primordial na criação de todas as coisas, mas se estuda para si, em si. Existe a imaginação e a criatividade para dar uma forma toda particular se ler o mundo. Sim, pois o estudo é apenas uma leitura do mundo em fragmentos. São gigantescos blocos organizados, catalogados, fragmentados em áreas, matérias, linhas e abordagens. O estudo é, pois, lente para se expandir a alma e sentir o esplendor da fusão romântica entre forças internas, a saber, a colisão entre intelecto, imaginação e alma. Os três ingredientes da vida concreta e essencial.
Pois ocorre-me, sempre que estou confinada nos bancos vazios e cheios das salas de aula, um mal estar. Um dissabor. E assim, vem a desilusão. Não para aterrar-me os sonhos, tampouco, ofuscar o brilho presente nas intencionalidades de dar vida a tais conhecimentos, tal  como um escultor dá vida ao barro e a argila que outrora não passava de uma pasta abstrata, matéria-prima. Não, não é sobre uma total desidentificação do mundo acadêmico, mas um descontentamento, um impulso à mudança de perspectiva, uma resistência anímica à manipulação vulgar dos saberes, à toda disseminação ideológica que culmina em mentes domináveis, controláveis e aprisionadas nos conteúdos apostilados.  
Há falta de poesia nas Universidades, há uma incompreensão fatível da verdadeira arte do conhecimento. E as aulas correm pelo salto veloz de capítulos de obras sem que possamos senti-las, adentrá-las, de fato. Corre-se porque precisa-se chegar à fase dos testes com todo o conhecimento consolidado. De slide em slide vê-se a falta de entusiasmo diante de minuciosas letrinhas já arrependidas por se mostrarem a quem não é capaz de transmiti-las. Sendo a arte do discurso, as formas se se fazer compreendido, como as Universidades relegam este atributo à metodologias corroídas pela falta de expressividade e de elaboração? Onde estarás a eloquência e a retórica?
Eis que o silêncio da leitura no mundo autodidata jaz como esperança, brisa tênue para o deleite de passar horas não apenas decorando conceitos, mas compreendendo-os e transportando-os ao deserto do real. Não há sons, não há algazarras mais, perda de foco ou intermináveis discursos docentes sem que se faça desvelar o sentido por traz do tecnicismo científico do que se lê, do que se propõe a estudar. Isso é sobre Metalinguagem: linguagem (natural ou formalizada) que serve para descrever ou falar sobre uma outra linguagem, natural ou artificial (Houaiss) mas não é somente sobre isso. É também sobre Arte: a arte do processo de ensino-aprendizado já tão desgastado pelas areias do tempo e pela próprio exaurir dos valores educacionais que o mundo das escolas é facilmente confundível com o mundo das corporações. Universidades atentas as demandas profissionais acabam por dar o brio a uma formação mecanicista. Para quê o estudo de teorias que ão se esgotam, teorias que em sua incompletude aguardam novos pensamentos a lhes complementarem se não somos livres para pensar e fazer do estudo um constructo de habilidades próprias?! No que consiste um arcabouço técnico-científico de ideias reproduzidas como um rolo de filmagem?!  
Dói-me a alma não poder ser artífice das riquezas consagradas nas leituras acadêmicas. Claro, não me falta a consciência ou o juízo da dimensão deontológica dos saberes. A Universidade deverá prover e defender esta dimensão para disciplinamento de quem irá portar um diploma e ser agente de intervenção societária. Todavia, a quem servirá tal formação? A que interesses se subordinam uma formatação como esta?! Já me ocorrera que não há liberdade no conhecimento tomado pela áurea catedrática. Fez-se cerceamento nas lacunas do saber, porque saber é tomado pelo seu complemento 'poder'. Saber-poder. Uma relação, por vezes, perversa. Mas eis que ouso tirar vantagem dessa relação. Isto se dá pelo estudo para si, por (re)aprender a  aprender, por confiar na leitura que se faz com a alma.
Os anos aferidos nos calendários escolares não definem a qualidade dos estudos. As características qualitativas do que se propõe a estudar insurgem no espírito. É no espírito que nasce o intelecto criativo que dá significado ao que se apreende no ato de estudar. Nós é que decidimos se teremos 4 ou 5 anos de amontoados de teorias ou se daremos luz à estrela bailarina do mundo Nietzschiano. Faz-se necessário, pois, esvaziar mãos e mochilas de materiais pesados e preencher nossos dias universitários com a leveza do pensamento, com a força da alma, mas com a clareza dos nossos reais propósitos e objetivos. 
Libertar este espírito intelectual, perspicaz, ousado e criativo é uma tarefa em tanto não, tão somente, para 4 ou 5 anos, mas para toda uma vida. O mundo acadêmico é, ou melhor, deveria ser o espaço pelo qual plantamos nossas árvores, abrimos nossa trilha na clareira. É preciso ir para além da dimensão escolarizante do conhecimento. Faz-se necessário ser cátedra na arte de conhecer e, de conhecendo, saber transmitir. Não há como entender a natureza da vida sem abrirmos as portas da percepção alcançada não apenas pelos livros, mas pelo contato com a vida enquanto ela acontece...
Não aprisionemos, portanto, este espírito do intelecto criativo, saibamos ir em direção às pistas que a vida e a imaginação propositalmente deixam para sermos artífices de nossas produções. 


Desgosto e despertença: sobrevivendo na sociedade das trevas

Há quem garanta a fidelidade da história ao caracterizar a sociedade moderna com a erupção do Iluminismo - e de lá para cá, obviamente, muita coisa mudou. Entretanto, é de científica constatação que das luzes, inevitavelmente,  projetam-se as sombras. Um erro, imaginar que a luz se faz pelo som desesperante das tecnologias e das formulas do saber bem viver. O que não foi ensinado, quando o ser humano deixou suas crenças metafísicas e tratou de se construir no mundo, foi o de buscar a sua própria metafísica, a metafísica da alma. De lá para cá, a história se fez a partir da negação das subjetividades da alma e das desesperantes tentativas de alcançar e ostentar um tipo de felicidade permanente; uma necessidade de potência, de destaque. E o movimento tomou forma; como um tufão gigantesco arrebatou temporariamente o significado da existência, substituindo-o por maneiras artificiais de Ter razões e motivos concretos para se auto-venerar e, para além disso,  publicizar-se frente a um mundo de incertezas. Tornar público a vida supostamente condecorada de diamantes. A Era dos Heróis e Deuses anônimos, da perfeição cibernética, das ilusões e dos prazeres virtuais. Vencer as possíveis derrotas, desviar-se das catástrofes ou, talvez, sofrê-las mas, ainda assim, sobreviver ileso. Há uma perversidade inerente ao frenesi da auto-superação, da felicidade ilimitada, da liberdade desmedida. No entanto, não se observa a evidente contradição: nunca a liberdade fora tanto o objeto de controle daquele que tanto almeja esta liquefação de todos os limites; há, pois, uma necessidade permanente de controle do presente e do futuro, manipulação e sabotagem de si e do outro diante da avidez por tomar nas mãos as cordas que movem o mundo. Tecnologias e conhecimentos a favor do controle e do domínio. 
Há uma confusão histórica entre as múltiplas dominações dos sistemas e instituições religiosas com a benéfica meditação única do ser. Em nome das proezas intelectuais e tecnocientificistas houve a transferência do eu Maior para as futilidades e banalidades de uma vida com múltiplos canais e redes, desconsiderando os portuários da existência. Uma teia gigantesca talvez seja a metáfora adequada para a absurda banalização das relações sociais e da vida humana, pois estamos atados a uma rede frágil, porém consistente que, sendo um emaranhado de linhas que se entrecruzam é, fatalmente, uma terrível armadilha. Teias que nos transformam em presas vulneráveis. Somos devorados pelas nossas próprias urgências. Somos, pois, filhos de Kronos. O tempo que tudo devora, sempre implacável, o mundo se desmanchando nas mãos, tal como os tolos que arrancam flores do solo para apreendê-las em ornamentos ou para fadá-las a viverem isoladas em vasos artificiais. Esvaziemo-nos, portanto, das artificialidades, da água sufocada dos recipientes estreitos, dos cativeiros e dos cárceres que, inutilmente, desejam abrigar o vívido, o essencial ou - na linguagem moderna - as pílulas da felicidade inexorável.
Em meio a todo esse progresso, o que, no entanto, sentimos no absurdez do mundo do trabalho - particularmente nas grandes corporações?! Como sentimos as amizades em redes sociais? Como podemos consumir nossos dias com as interações cibernéticas, dedilhando velozmente celulares, tablets, dispositivos eletrônicos que nos deixa em transe frente ao mundo que nos cerca.
Não se faz luz nas externalidades das relações objetais. Não há qualquer centelha de luz na voracidade com que alimentamos o desejo pelos últimos lançamentos tecnológicos ou pelas horas desperdiçadas nas conversas sem conteúdo. Trocamos nossos gênios por "geeks", trocamos a sutileza pela inconveniência, o sentimento pela razão. Não há qualquer centelha de nós nas escolhas de roupas padronizadas que escolhemos para mais um dia laborioso, nas ilusividades de que através delas podemos sustentar algum tipo de superioridade; em verdade, tentamos, no máximo, alçar algo parecido com dignidade. Não há sentido nas certificações de estudos grandiosos se estas valias forem usurpadas pelo cotidiano das horas afinco de trabalho corporativo. Há, sim, um vácuo de estupidez na rotina robotizada dos nossos dias. Um movimentar-se permanente, sem contudo, sairmos de onde estamos. Um tipo de inércia, estanque  Há, pois, um impulso constante de se fazer completo e de ostentar as bandeiras do sucesso, há um retorno, uma ânsia por fazer-se semideuses ainda que na alma esteja o reflexo da barbárie, das derrotas, dos vestígios desastrosos da existência, estes quase sempre maquiados e cuidadosamente fantasiados e colocados nas vitrines virtuais como  ícones do progresso e da superação.
Fernando Pessoa, o poeta português "de dentro", já nos alertara sobre estes semideuses, indivíduos que não são gente, propriamente, mas que espalham a ânsia mortal se se tornarem estereótipos de um tipo de felicidade jamais compreendida, aquela felicidade artificial, quase patológica.
Pois o que é a felicidade se não um estado de espírito?! É possível buscar uma muda de felicidade, plantá-la e esperar sobre as pedras que cresçam arvores frutíferas? Desconfio deste tipo de felicidade que cresce nos quintais de terrenos improváveis. Das dores das conchas que se fazem as pérolas, das dores do parto que se faz a vida, do desapego se faz a leveza, da mesma forma como da escuridão que se é possível distinguir a luz. A felicidade acontece numa fração de segundos e somente sua alma poderá retê-la e lhe dar a forma que lhe cabe em sua existência.
Para isso, custa-lhe uma ação assustadora: se colocar diante do espelho e arrancar d' alma aquilo que não lhe pertence, todas as coisas que lhe foram acrescentadas por pessoas e objetos que não lhe pertence. Dos sorrisos erroneamente retribuídos em rituais sociais até às inveracidades tomadas como verdades absolutas. É hora de desentulhar a sujeira que faz cegar nossos olhos e calar nossas bocas. É momento de resgatar os sonhos que nos fora injustamente usurpados. Faz-se, urgentemente necessários negarmos tudo aquilo que nos nega.  É o exercício do des-pertencimento, do desenraizamento que proporcionará a sensação da insustentável leveza do ser. Pode-se olhar para dentro de si quando não se tem mais mil olhos a te vigiarem e te julgarem em seu interno. Há de se encontrar um santuário absolutamente vazio de trialidades e se preencher de luz. Quando a visão de seu reflexo no espelho tornar-se clara, sem borrões ou brumas a encobrir-te, você já abraçou um estado de felicidade. Nada mais importará, porque a vida não é em si, ela é para si.
Não é preciso, pois, mais se preocupar em se filiar aos clubes de compartilhamento das dores da existência, nem das bebidas amargas e depressoras para se anestesiar das feridas pungentes. Não é preciso mais dos sorrisos e dos cumprimentos sociáveis quando a alma deseja calar-se. Não há identidade, não há um identificar-se no outro. Não há nada lá fora. As multidões são ilusões, cenários, o cruzamento de outras vidas onde não há o seu Eu. É quando você descobre o seu próprio lugar, dentro de si mas despontando para fora sem receios, podendo dar passos leves sem que sintas a aspereza do concreto. Conversas infames, blasfêmias, risos sarcásticos, olhares curiosos, nada disso se fará seu quando se projetas na leveza de teu ser que é luz, possibilidade, sonho, realidade... 
Não se faz mais apenas para algo externo e estranho a nós...se faz para si, em si, no alinhamento sutil com seu cosmo interno e todo o mais será seu...não há dores que resistam para sempre, não há resistência para a existência, ela simplesmente flui...se estás neste sentimento de luz não é preciso dos esforços inesgotáveis das condutas morais e sociais, das aprovações, do tiro de partida. Tudo se faz a partir da alma...Como alcançar os sonhos se eles estão enamorados pelos objetos externos?! Pois insisto que quando agires na direção de si, bastará retirá-los com convicção das prateleiras do mundo e carregar em seus braços o que é teu, somente teu. Tudo o mais será teu.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Da insustentável leveza de dentro

Hoje optei pelo novo, pelo excêntrico, pelo extraordinário e desconhecido
esvaziando-me de excessos inúteis que calavam-me a boca, antesiavam os músculos e cerravam-me os sentidos.
Optei por libertar-me, em vida, das contradições, confusões e desconexões que pairavam sobre o cotidiano sempre igual de dias longos.
Fazer poeira da inércia e sacudi-la em direção às marés, pois há muito não sentia a força das ondas a arrebatar-me e os oceanos a tirar-me o fôlego, pois já era hora de expirar o ar já velho e cansado de dias enfadonhos e dar um basta neste tabuleiro de peças mecânicas, vulgarmente chamado de vida.
Ser livre é sempre opção, é condenação natural do ser, mas é necessário algumas doses de lucidez para quebrar as correntes que mantinham a alma atada as ruínas de uma embarcação estancada à beira mar. Encontrar o porto e as luzes do farol era meta. E o corpo gritava e estremecia por este momento, pois cambaleava pelas páginas tão absurdamente iguais dos livros da vida.
Não quero mais ser escrita, mas quero a posse da pena e do tinteiro para escrever aventuras pessoais deixando minha marca, para depois, reencontrar-me em letras por diversos caminhos que hei de cruzar.
Para soltar as cordas desta embarcação precisarei desfazer-me de bagagens envelhecidas, de roupas desbotadas, mas também de vícios, desordens, distorções e das tantas chagas que fizeram-me prisioneira de estruturas imóveis da existência.
Esvaziar-me-ia das emoções doentias, dos gostos amargos, das experiências torturantes, das ações ingênuas e impensadas. Arrancar-me das vicissitudes há muito arraigadas em meu ser não é tarefa fácil, mas me é redentora. É necessário sangrar para expulsar a vida cristalizada, as células inflamadas e infladas por todo acúmulo de não-pertencimentos retidos na inconstância da vida.


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

As dissonâncias do sofrer nas Artes: do poder cartático da expressão d'alma

Estava a me indagar: porque sofrem os poetas?! Do que adoecem os filósofos? O que é a ruína dos grandes gênios e inventores? Porque escritores sofrem de crises criativas?! Quantas psicopatologias não catalogadas, não registradas, não analisadas se fazem presentes na subjetividade de grandes ícones? Que mal estar acomete-lhes a alma?
Pensar, refletir e analisar...é preciso intrepidez para se atirar numa jornada desconhecida, de emoções ambivalentes e de sentimentos incompreendidos. Não é fácil decompor a própria alma, inflamar-se, fragmentar-se na esperança de compreender-se em pedaços. Tomar-se a si mesmo, inexpressivo, de sorriso lânguido. Não é fácil encarar a própria mortalidade, a fragilidade do corpo enquanto se vive. Pois o que é o artista, senão, uma alma errante que busca ancorar-se num porto seguro em dias tempestivos?! Muitas vezes neurastênico, com fibras e músculos em frangalhos, com o corpo em tormenta, muitas vezes prostrado em uma cama ou simplesmente convalescendo numa velha poltrona. Eis que irrompem as mais consagradas obras, eis que o poder cartático da alma rebenta em profundo silêncio. O artista é aquele que busca freneticamente palavras, gestos, imagens, pinceladas ou acordes capazes de traduzirem-o, de juntar as peças ou, simplesmente, de recolher os pedaços de si mesmo. Descrever o indescritível, dissociar o inextricável, investigar o imperscrutável, eis o ofício nobre do artista, a tentativa de refrear a angústia, de sublimar o sofrer, de reconstruir o chão.
A questão é que não há quaisquer seguranças no jogo da vida. Somos lançados à merce da existência, somos peças de um tabuleiro de xadrez e não sabemos, ao certo, quem está por trás dele. Estamos, pois, lançados à vunerabilidade existencial, sem certezas, apenas com alternativas.
Todo artista, inevitavelmente, põe um pouco de si em sua produção. A arte é, senão, produto da criação humana, expressão das palavras ditas ou não ditas, dos sons inaudíveis, dos ruídos secos ou do mais absoluto silêncio. Há gritos, sussurros, segredos e dores nas entrelinhas das formas, dos gestos, das texturas, dos borrões de tinta despercebidos. Os rostos para nós desconhecidos, as paisagens improváveis ou, mesmo, o conjunto de riscos e rabiscos traz algo de verídico, de factual. Aquela paisagem calma, de cores frias que nos mostra um pequeno barquinho na imensidão do oceano, pode ter sido o "depois" de uma violenta tempestade. Por isso na Arte nada é evidente. Há uma relação dialética que ora afirma e ora esconde aspectos pertinentes do real. Assim é a diária da sobrevivência. É preciso tato. É preciso fazer com que escolhas, afirmações pessoas brinquem de esconde-esconde em pinceladas discretas no quadro da vida. Somente aqueles de alma elevada, de sentimentos puros e olhares sinceros poderão encontrá-los e dele desfrutá-los, pois nada do que o poeta coloca pode ser visto na superfície. Por isso insisto que uma das maiores tragédias da vida foi aniquilar a arte, amarelar os livros de filosofia, empoeirar as pinturas e afrescos, porque vive-se na sociedade das superfícies, do supérfluo, do aqui e agora. Os imediatismos fez-nos escravos de nossos próprios impulsos. Não há espaço nem tempo para profundidades. Tornamo-nos frívolos e pragmáticos, raciocinamos em demasia e sentimos bem pouco. Criamos emergências diversas para a nossa insaciável vontade de potência quando, em verdade, poderíamos emergir a essência das coisas, de nós que nos abandonamos nas guerras travadas pela (sub)existência. Matamos os Deuses e as Poesias. Consequentemente, deixamos a aridez nos solos que um dia foram férteis. Adoecemos porque não respiramos mais dos encantos bucólicos pois nos encarceramos na megalomania das metrópoles.
Neuroses e psicoses se escondem no delírio artístico. A tela em branco que jaz face a face com o artista é o artefato que irá permiti-lo reelaborar a sua experiência do trágico, do amargo, do insatisfatório, do nauseante. A tela é, por conseguinte, uma página em branco, um papel que clama por ser preenchido.  Por isso, arte também é cura. A arte que oculta a dor, a dor que porta a arte...tudo é criatividade e, sobretudo, sublimação, transferência e contra transferência. Há uma concepção psicanalítica fortemente arraigada nas Artes. Esse transformar-se, equacionar-se, reduzir-se e completar-se, de fazer com que os monstros que outrora lhe aterrorizavam se transformassem em servos de teus sonhos. Na transferência, o artista projeta teus anjos e demônios em personagens fictícios, são eles os portadores de sentido das luzes e das sombras dos escritores. Assim, os personagens amam, morrem, alucinam, alçam voo...transferir à dor à prosa ou à poesia é um estado sublime do entregar-se, é um pouco do que Vinícius de Moraes descreve como "a dor que desatina sem doer".
E o que dizer da contratransferência? Em que medida os apreciadores das grandes Artes transferem um pouco de si na relação com o autor?! Ora, os espaços em branco deixados pelo artista é este bramir pela completude. O poeta se faz em mil pedaços e nós o juntamos, respondemos aos gemidos, nos identificamos, experimemtamos um pouco desta experiência e, assim, perdura o fluir inesgotável, infindável da experiência consciente e inconsciente da dor.