Estudar sempre fora verbo presente em minha vida. Não se estuda apenas no sentido pragmático, embora o estudo seja ferramenta primordial na criação de todas as coisas, mas se estuda para si, em si. Existe a imaginação e a criatividade para dar uma forma toda particular se ler o mundo. Sim, pois o estudo é apenas uma leitura do mundo em fragmentos. São gigantescos blocos organizados, catalogados, fragmentados em áreas, matérias, linhas e abordagens. O estudo é, pois, lente para se expandir a alma e sentir o esplendor da fusão romântica entre forças internas, a saber, a colisão entre intelecto, imaginação e alma. Os três ingredientes da vida concreta e essencial.
Pois ocorre-me, sempre que estou confinada nos bancos vazios e cheios das salas de aula, um mal estar. Um dissabor. E assim, vem a desilusão. Não para aterrar-me os sonhos, tampouco, ofuscar o brilho presente nas intencionalidades de dar vida a tais conhecimentos, tal como um escultor dá vida ao barro e a argila que outrora não passava de uma pasta abstrata, matéria-prima. Não, não é sobre uma total desidentificação do mundo acadêmico, mas um descontentamento, um impulso à mudança de perspectiva, uma resistência anímica à manipulação vulgar dos saberes, à toda disseminação ideológica que culmina em mentes domináveis, controláveis e aprisionadas nos conteúdos apostilados.
Há falta de poesia nas Universidades, há uma incompreensão fatível da verdadeira arte do conhecimento. E as aulas correm pelo salto veloz de capítulos de obras sem que possamos senti-las, adentrá-las, de fato. Corre-se porque precisa-se chegar à fase dos testes com todo o conhecimento consolidado. De slide em slide vê-se a falta de entusiasmo diante de minuciosas letrinhas já arrependidas por se mostrarem a quem não é capaz de transmiti-las. Sendo a arte do discurso, as formas se se fazer compreendido, como as Universidades relegam este atributo à metodologias corroídas pela falta de expressividade e de elaboração? Onde estarás a eloquência e a retórica?
Eis que o silêncio da leitura no mundo autodidata jaz como esperança, brisa tênue para o deleite de passar horas não apenas decorando conceitos, mas compreendendo-os e transportando-os ao deserto do real. Não há sons, não há algazarras mais, perda de foco ou intermináveis discursos docentes sem que se faça desvelar o sentido por traz do tecnicismo científico do que se lê, do que se propõe a estudar. Isso é sobre Metalinguagem: linguagem (natural ou formalizada) que serve para descrever ou falar sobre uma outra linguagem, natural ou artificial (Houaiss) mas não é somente sobre isso. É também sobre Arte: a arte do processo de ensino-aprendizado já tão desgastado pelas areias do tempo e pela próprio exaurir dos valores educacionais que o mundo das escolas é facilmente confundível com o mundo das corporações. Universidades atentas as demandas profissionais acabam por dar o brio a uma formação mecanicista. Para quê o estudo de teorias que ão se esgotam, teorias que em sua incompletude aguardam novos pensamentos a lhes complementarem se não somos livres para pensar e fazer do estudo um constructo de habilidades próprias?! No que consiste um arcabouço técnico-científico de ideias reproduzidas como um rolo de filmagem?!
Dói-me a alma não poder ser artífice das riquezas consagradas nas leituras acadêmicas. Claro, não me falta a consciência ou o juízo da dimensão deontológica dos saberes. A Universidade deverá prover e defender esta dimensão para disciplinamento de quem irá portar um diploma e ser agente de intervenção societária. Todavia, a quem servirá tal formação? A que interesses se subordinam uma formatação como esta?! Já me ocorrera que não há liberdade no conhecimento tomado pela áurea catedrática. Fez-se cerceamento nas lacunas do saber, porque saber é tomado pelo seu complemento 'poder'. Saber-poder. Uma relação, por vezes, perversa. Mas eis que ouso tirar vantagem dessa relação. Isto se dá pelo estudo para si, por (re)aprender a aprender, por confiar na leitura que se faz com a alma.
Os anos aferidos nos calendários escolares não definem a qualidade dos estudos. As características qualitativas do que se propõe a estudar insurgem no espírito. É no espírito que nasce o intelecto criativo que dá significado ao que se apreende no ato de estudar. Nós é que decidimos se teremos 4 ou 5 anos de amontoados de teorias ou se daremos luz à estrela bailarina do mundo Nietzschiano. Faz-se necessário, pois, esvaziar mãos e mochilas de materiais pesados e preencher nossos dias universitários com a leveza do pensamento, com a força da alma, mas com a clareza dos nossos reais propósitos e objetivos.
Libertar este espírito intelectual, perspicaz, ousado e criativo é uma tarefa em tanto não, tão somente, para 4 ou 5 anos, mas para toda uma vida. O mundo acadêmico é, ou melhor, deveria ser o espaço pelo qual plantamos nossas árvores, abrimos nossa trilha na clareira. É preciso ir para além da dimensão escolarizante do conhecimento. Faz-se necessário ser cátedra na arte de conhecer e, de conhecendo, saber transmitir. Não há como entender a natureza da vida sem abrirmos as portas da percepção alcançada não apenas pelos livros, mas pelo contato com a vida enquanto ela acontece...
Não aprisionemos, portanto, este espírito do intelecto criativo, saibamos ir em direção às pistas que a vida e a imaginação propositalmente deixam para sermos artífices de nossas produções.
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