terça-feira, 14 de outubro de 2014
Elogio ao Escárnio (o elixir para a tragédia vinda de fora)
Embora sejamos eternos e portadores de uma alma de essencialidade luminosa infinita, a consciência dos grilhões que nos aprisionam e da violência com que somos lançados ao mundo que sangra entre lanças e espadas que ferem o espírito inevitavelmente levam-nos a um conjunto cronológico de dias que nos roubam essências da alma, que assassinam nossos sonhos, interrompem nossos desejos, calam nossas palavras e fazem-nos reféns de outrem.
Num cenário de tantas mortes, despersonalizações, delírios e martírios, pode-se, simplesmente, debochar da legião estrangeira, dos desconhecidos que, das mortes mal morridas, tornam-se mortos-vivos cambaleantes prestes a devorar-te. Um mundo de nômalos, àqueles vivem da patologia da normalidade, ditando regras, etiquetas, propagando a uniformização do mundo, desgraçando a vida de outrem, contaminando a beleza do mundo, erigindo jazigos nos jardins aonde se crescia a vida.
Escárnio é antídoto para a infecção altamente contagiosa de vidas secas e amargas que, negando a Luz, a própria luz, luz-alma, perseguem os lampejos das almas que ainda vibram, das almas que ainda estão alinhadas à energia primordial dos seres, àquelas que se inclinam ao Sol. Rir, rir-se, terminar-se em galhofas é fechar as cortinas para a dramaturgia teatralizada nos palcos da existência serena, é negar os aplausos dessa legião que aguardam nas coxias o momento da revanche final. Rir-se-á, portanto, da poluição multisensorial despejada por lábios de fel e por atos de perfídia, levando dissabores, sujeira e degradação.
Não, meu espírito não alimentarás os teus fardos. Não empresto meus sentidos para a tua perversão. Basta! Às tuas tragédias dou-lhe o escárnio, o riso, a indiferença.
Escárnio é a qualidade sublime da valorização de si, pois desmorona as muralhas das opulências, porque devia-nos das flechas envenenadas que urgem inflamar a pele. É possibilidade de ignorar o fétido, de manter-se íntegro em meio aos apedrejamentos infames, pois quando posamos com a boca escancarada em risos, herdamos as valias dos tolos, mas com a dignidade dos nobres.
Esta é a legítima função do escarnecimento: dissolver o horizonte gélido das façanhas obscuras.
Escárnio é, pois, centenas de fileiras de soldados preparados para combater a tua sombra. Não! De mim não arrancará as lágrimas e nem o fervor do sangue correndo nas veias para sustentar a tua perdição.
É preciso defender a beleza da vida. Vida. Vês o que fazes com a vida, em vida? Sentes os impulsos latentes da alma que não sobrevive à invasão do outro? Luz é preciso. Iluminas? Brilhas? Encontra o teu vale insurgente? Aonde foram os teus anjos?
Escárnio é a resposta dada à palavra amarga, ao gesto hostil, ao olhar sarcástico. Recurso essencial para que impeças que outrem ridicularize o seu universo. Seu. Tão seu, e tão somente seu. Escárnio é força, é auto-amor, é um importar-se desinteressado. Não é violência, não é sobre ferir, é sobre defesa da alma, simplesmente. Não te fraquejas as sombras? Não te doí o peito atravessado por flechas envenenadas que mata-te lentamente?
Não bebeis do líquido amargo. Não rendeiste às pílulas, aos sedativos, à válvula de escape. Enfrentais com escárnio entre os dentes a vida que lhe escapa num segundo de distração. Não se curvai aos brutais. Mas paralisai-os com a esgarnação.
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