Há algum tempo que sua vida perdera a cor, a completude, o significado.
Há algum tempo que passara a andar curvado,num caminhar sonâmbulo, num arrastar-se diário
Nas costas, uma pesada mochila, com os mesmos objetos, as mesmas ferramentas.
Já não tinhas mais certeza do que jazias apertado sobre os panos e bolsos deste artefato. Não tinhas mais consciência do conteúdo dela e mal tinha desejo de tê-la. Apenas sabia que a cada dia parecia mais pesada.
Mesmo assim, lutara para mantê-la atada ás costas, ainda que já não dispunha mais de força muscular para sustentá-la em coluna ereta.
A cada dia o sono, antes pesado, misteriosamente foi se tornando mais leve. Já não se entregava mais aos travesseiros que sempre o aguardava em desespero. O mal já estava feito. O pobre homem jazia desperto, em meio a rituais inúteis para entregar-se ao desejado sono de uma noite veloz. Insônia. Entre incontáveis vezes em que perambulava pela sala com o corpo cansado, terminava na poltrona com os cotovelos apoiado nas pernas e as mãos tentando suportar o peso da cabeça. De olhos abertos, porém fadigados, direcionados para o nada, o semi-consciente homem, caíra num cochilo e, dentro de poucos segundos, despertara assustado. Imaginou ter escutado o inconveniente alarme do despertador comunicando-lhe a chegada de mais um dia que se levantava pontualmente as 04:00 da manhã. Porém, os ponteiros sempre tão seguros de si, ainda registravam 02:00hs. É bem verdade que as horas mostraram metade de seu exíguo período de sono consumido e, assim, entrara em delírio em meio ao tic-tac dos relógios que pareciam falar por si em madrugadas silenciosas. O homem franzino, de cabelos grisálios, de olhos, agora, semi-cerrados era atormentado por uma vertigem que parecia desenhar intermitentemente círculos de fogo em sua cabeça. Sentira como se os ponteiros do relógio vibrassem dentro de si e fora consumido por uma terrível cefaleia. Náusea. É bem verdade que o estômago ruía pelo ausente jantar, pelos dias terminados em apenas uma xícara de café amargo ou pela última taça de água ardente que jazia escondido numa geladeira esvaziada. Esvaziada era a sua existência; consumida pelos dias e noite fastidiosos. O humilde casebre - de janelas estreitas e paredes acinzentadas, era revestido também de um esvaziamento peculiar. Cada objeto parecia vazio de si mesmo. Tudo era incompletude; desde os rústicos castiçais ausentes de velas até as molduras enferrujadas sem fotografias. Tudo era ausente de conteúdo, de cores, de volume, de textura. Uma atmosfera envelhecida, um ar empoeirado impregnava o estreito cubículo em que sobrevivia.
As rachaduras e os infiltramentos das paredes pareciam soluçar em meio a gritos dilacerantes de um concreto que ameaçava derreter por dentre os tijolos crus. O som das ruínas confundia-se com algum tipo de cortejo fúnebre, uma marcha solitária de tantas mortes. Não, não se trata da decomposição do corpo, mas da putrefação dos sonhos d'alma.
Uma pilha de contas de energia elétrica jaziam amontoadas sobre a velha escrivaninha já corroída pelas areias do tempo, mas a casa possuía apenas a luz das lamparinas. A casa acordara apenas com a luz do Sol, a qual já não contemplara há alguns anos. Tudo era névoa, neblina, um borrão. Era, assim, a existência esquecida, a existência encolhida, a existência sufocada...O que fizera aquele pobre homem consigo mesmo? Teria tido ele escolha? Teria tido ele, nível de consciência mais profunda em meio a guerra travada com o seu implacável destino? Estaria, pois, destinado ao desatino?!
Ás vezes não é preciso se metamorfosear em um inseto para acabar como tal, com a dignidade em migalhas e o rosto em frangalhos. Basta diminuir-se em relação ao tamanho dos teus sonhos. Basta envenenar-se com as soluções modernas disfarçadas de pacotes mágicos de felicidade.
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