quinta-feira, 2 de outubro de 2014

As dissonâncias do sofrer nas Artes: do poder cartático da expressão d'alma

Estava a me indagar: porque sofrem os poetas?! Do que adoecem os filósofos? O que é a ruína dos grandes gênios e inventores? Porque escritores sofrem de crises criativas?! Quantas psicopatologias não catalogadas, não registradas, não analisadas se fazem presentes na subjetividade de grandes ícones? Que mal estar acomete-lhes a alma?
Pensar, refletir e analisar...é preciso intrepidez para se atirar numa jornada desconhecida, de emoções ambivalentes e de sentimentos incompreendidos. Não é fácil decompor a própria alma, inflamar-se, fragmentar-se na esperança de compreender-se em pedaços. Tomar-se a si mesmo, inexpressivo, de sorriso lânguido. Não é fácil encarar a própria mortalidade, a fragilidade do corpo enquanto se vive. Pois o que é o artista, senão, uma alma errante que busca ancorar-se num porto seguro em dias tempestivos?! Muitas vezes neurastênico, com fibras e músculos em frangalhos, com o corpo em tormenta, muitas vezes prostrado em uma cama ou simplesmente convalescendo numa velha poltrona. Eis que irrompem as mais consagradas obras, eis que o poder cartático da alma rebenta em profundo silêncio. O artista é aquele que busca freneticamente palavras, gestos, imagens, pinceladas ou acordes capazes de traduzirem-o, de juntar as peças ou, simplesmente, de recolher os pedaços de si mesmo. Descrever o indescritível, dissociar o inextricável, investigar o imperscrutável, eis o ofício nobre do artista, a tentativa de refrear a angústia, de sublimar o sofrer, de reconstruir o chão.
A questão é que não há quaisquer seguranças no jogo da vida. Somos lançados à merce da existência, somos peças de um tabuleiro de xadrez e não sabemos, ao certo, quem está por trás dele. Estamos, pois, lançados à vunerabilidade existencial, sem certezas, apenas com alternativas.
Todo artista, inevitavelmente, põe um pouco de si em sua produção. A arte é, senão, produto da criação humana, expressão das palavras ditas ou não ditas, dos sons inaudíveis, dos ruídos secos ou do mais absoluto silêncio. Há gritos, sussurros, segredos e dores nas entrelinhas das formas, dos gestos, das texturas, dos borrões de tinta despercebidos. Os rostos para nós desconhecidos, as paisagens improváveis ou, mesmo, o conjunto de riscos e rabiscos traz algo de verídico, de factual. Aquela paisagem calma, de cores frias que nos mostra um pequeno barquinho na imensidão do oceano, pode ter sido o "depois" de uma violenta tempestade. Por isso na Arte nada é evidente. Há uma relação dialética que ora afirma e ora esconde aspectos pertinentes do real. Assim é a diária da sobrevivência. É preciso tato. É preciso fazer com que escolhas, afirmações pessoas brinquem de esconde-esconde em pinceladas discretas no quadro da vida. Somente aqueles de alma elevada, de sentimentos puros e olhares sinceros poderão encontrá-los e dele desfrutá-los, pois nada do que o poeta coloca pode ser visto na superfície. Por isso insisto que uma das maiores tragédias da vida foi aniquilar a arte, amarelar os livros de filosofia, empoeirar as pinturas e afrescos, porque vive-se na sociedade das superfícies, do supérfluo, do aqui e agora. Os imediatismos fez-nos escravos de nossos próprios impulsos. Não há espaço nem tempo para profundidades. Tornamo-nos frívolos e pragmáticos, raciocinamos em demasia e sentimos bem pouco. Criamos emergências diversas para a nossa insaciável vontade de potência quando, em verdade, poderíamos emergir a essência das coisas, de nós que nos abandonamos nas guerras travadas pela (sub)existência. Matamos os Deuses e as Poesias. Consequentemente, deixamos a aridez nos solos que um dia foram férteis. Adoecemos porque não respiramos mais dos encantos bucólicos pois nos encarceramos na megalomania das metrópoles.
Neuroses e psicoses se escondem no delírio artístico. A tela em branco que jaz face a face com o artista é o artefato que irá permiti-lo reelaborar a sua experiência do trágico, do amargo, do insatisfatório, do nauseante. A tela é, por conseguinte, uma página em branco, um papel que clama por ser preenchido.  Por isso, arte também é cura. A arte que oculta a dor, a dor que porta a arte...tudo é criatividade e, sobretudo, sublimação, transferência e contra transferência. Há uma concepção psicanalítica fortemente arraigada nas Artes. Esse transformar-se, equacionar-se, reduzir-se e completar-se, de fazer com que os monstros que outrora lhe aterrorizavam se transformassem em servos de teus sonhos. Na transferência, o artista projeta teus anjos e demônios em personagens fictícios, são eles os portadores de sentido das luzes e das sombras dos escritores. Assim, os personagens amam, morrem, alucinam, alçam voo...transferir à dor à prosa ou à poesia é um estado sublime do entregar-se, é um pouco do que Vinícius de Moraes descreve como "a dor que desatina sem doer".
E o que dizer da contratransferência? Em que medida os apreciadores das grandes Artes transferem um pouco de si na relação com o autor?! Ora, os espaços em branco deixados pelo artista é este bramir pela completude. O poeta se faz em mil pedaços e nós o juntamos, respondemos aos gemidos, nos identificamos, experimemtamos um pouco desta experiência e, assim, perdura o fluir inesgotável, infindável da experiência consciente e inconsciente da dor.

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