terça-feira, 14 de outubro de 2014

Acusações, sentenças e ofensas - da condenação ao arbítrio


Há dentro de mim um urrar por liberdade. Uma alcatéia pronta a atacar os parasitas silenciadores do direito de ser do outro. Não respeita-se, como pode se ver mundo a fora, o princípio fundamental da existência: o direito de ser. Por isso, luto por uma liberdade voltada para o quebrar das algemas, uma liberdade que não é mais do que a afirmação da legitimidade do meu ser. Não uma liberdade impossível do existir, desse conceito doentio e ingênuo de liberdade, tampouco do desvario de tentar extrair-se do corpo e fazer-se luz, desprezando-se as forças internas e externas para nos encerram. Não. Não é essa batalha a qual me refiro. Devo assegurar, pois, a dignidade de um tempo para mim mesma, a liberdade das escolhas, dos passos, dos devaneios mas sem cair em ilusividades como se o ser fosse totalmente desprendido desse invólucro cósmico, como se o corpo não respondesse as leís da física. Pois somos, também, fisicamente feitos. Deve-se ter em mente a morte eminente quando se salta de um prédio imaginando que se farão asas. Não, é dessa liberdade impossível a que me refiro. Falo de leis que deveriam ser violentamente violadas para retirar-nos do campo de concentração a qual fomos recrutados. Me refiro ao fim das relações de servidão voluntárias, de penalidades alternativas que nos são imputadas. Há muralhas a serem derrubadas, limites a serem superados, há a necessidade de rasgar-se, de estilharçar-se, de se ver em pedaços muitas vezes. Por muito pouco caímos nas armadilhas das vicissitudes da vida mundana. Somos subjulgados, apontados, condenados. Na relação com o mundo há uma batalha sangrenta urgindo nas mentes e nas bocas das pessoas que é a expartição de padrões considerados anômalos, excêntricos, aburdos e imorais. Não se vê a patologia daquele que, cego para tuas próprias verdades, estás com uma luneta e uma lupa analisando as verdades e os preceitos alheios. 
A processualidade da vida esbarra na ensurdecedora batida de martelos, das penalidades impostas, dos castigos instituídos, dentre eles o medo e a resignação Há não só nas estórias e nas crônicas, como também na própria História, exemplos de sentenças de aprisionamento onde os motivos ora são difusos e ora arbitrários definiriam os destinos de milhares de seres humanos. Assim ocorrera no Holocausto Judeu, em diversas Instituições Psiquiátricas, nas ilhas remotas dos exílios. Mas de outro modo, ocorre, a todo momento, um processo movido por desconhecidos, por rostos sem face, por palavras proferidas por lábios amargos. Há as ofensas de cada dia, no trabalho, na família, nos circuitos infindáveis das redes sociais. Somos impelidos a responder a estes processos. Muitos a testemunhar nossos crimes comportamentais, acusando-nos, nomeando-nos, encurralando-nos e não há defesas. Somos arrastados e jogados à própria sorte, nos quartos escuros, em total reclusão. Somos, a todo momento, objetos de sentenciação, vítimas da coerção massificada. Onde estará nosso arbítrio? O que fizemos de nosso "Eu"? Quantos nomes e personalidades já nos deram? Quantos manuais de como viver já nos apresentaram? Quanto de nós fora abruptamente usurpado? Qual o preço da nossa liberdade? Como nos alforriamos em vida? Quanto se perde e quanto se ganha no jogo da vida? O que se perde com o tem quê... ou com o que não podemos fazer com quê...isso é sobre liberdade numa sociedade apriosionada por inverdades, convenções e conversões absurdas. 
Em tempos caóticos, viver exilado é uma alternativa quase apaixonante. É o exercício do arbítrio, do mais puro livre-arbítrio. Quantos gênios da história tornam-se ícones de si mesmos na prisão preventiva da sociedade humana? Quantas obras, quantos nasceres comportam estes espaços remotos e sufocantes, verdadeiros depósitos de indesejáveis enquanto os boêmios se dispersavam no Baile de Máscaras?! É, por vezes, temível viver do lado de fora.  
Pois faço da condenação uma trilha para enveredar-me pelos exílios da existência, pois bem renego a prisão em vida, a prisão em sociedade, a reclusão em plena luz do Sol. Não afianço a minha liberdade para viver pequenamente a vida. No entanto, aquele espaço tão restrito dos cômodos isolados em lugares remotos resplandece na medida em que exerço meu arbítrio. Nesses espaços que sinto a morte se fazendo vida, lá que as paredes acinzentadas e corroídas pelo tempo se iluminam. É aurora. É nascedouro. Há harpas angelicais do lado de fora. É bem verdade que quando a alma se liberta, tudo o mais se torna vívido. Minha morte em vida, é meu renascer, o meu fortalecer. E eu já passo ver os botões de rosas se desabrochando na pequena janela. Uma fresta de luz ilumina-me o rosto, rouba-me uma lágrima. Da minha mente fez-se sol...já sinto as correntes se afrouxando...

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