sábado, 18 de outubro de 2014

Anseios bucólicos - A vida sonhada pelo outro lado da janela


Houve tempos em que a Natureza, enquanto a quintessência da humanidade e princípio   primordial do movimento cósmico da existência era, por excelência, o principal elemento presente na manifestação da arte poética no contexto intelecto-cultural do homem. A eloquência do discurso dos românticos revelava a interdependência mais sublime do homem em relação ás forças naturais. Sabiam que tais forças revestiam o espírito e ascendia a alma para as inclinações mais belas do sonhar. Os românticos  reconheciam, pois, a Natureza como um estado interior de absoluta perfeição, é  artesã do esplendor e refúgio para os dias tempestivos.
E hoje, desejei estar neste santuário. Abrir as janelas e ver a poesia tomar  forma, ver solos, terras, mares e montanhas longínquas. Desejei perder-me entre os  arbustos e estar só no topo de uma alta montanha. Ver a vida enquanto ela vive.
A vida do outro lado da janela, assim, aparecia arrancando-me suspiros de encanto,  pois era uma sensação indescritível que ascendia inúmeras urgências. Viver era uma dessas urgências, pois a perda da nossa conexão natural, faz-nos cegos diante da vida. Torna-nos prisioneiros de estruturas concretas que arranca-nos a percepção das essências. 
Vedes o cortejo de sons e aromas no alto das montanhas? Vê-se? Vês? 
Vedes a musa, Mãe-Natureza, em seu esplendor a romancear um novo dia?
Ao repousar o olhar para o outro lado da janela, havia uma intencionalidade de Ser. Havia, pois a urgência de ser e de viver a contemplação esmagada nas urgências da produtividade humana da contemporaneidade. Todavia, aquela janela representava uma escolha. A escolha de si, para si, em si. Pudeste escolher em vida megalomaníaca a si? Reconheceste teu 'eu' nas vicissitudes e solicitações 
constantes do mundo moderno?
Era hora de silenciar a mente e voltar a sentir. Desejei, pois, natureza.
A efervescência da vida levemente conduzida por bosquejos que se elevam às catedrais do etéreo. 
E, lá, o dia nasce lento, manso, com o orvalho gotejando nas folhas verdejantes que condecoram as vidraças das janelas.
E do casebre avista-se o doce aroma do chá de frutas silvestres. A cerejeira a  dobrar-se pelo jardim, oferecendo teus frutos, cortejando os ramos de rosas que banham-se no orvalho da manhã enquanto, ao lado, os girassóis se voltam para sorver os raios solares ainda tímidos que pincelam os céus condecorados de nuvens brancas. A atmosfera é de leveza insustentável. Não há resquícios de mortes e de sujeiras.  Tudo é límpido, insurgente, reluzente. Tudo parece tão certo. Cada detalhe em seu  devido lugar. Cada coisa e cada ente cumprindo com seu destino. Espaço onde os  dias se desfolham em poemetos. Recanto de absoluta beleza onde a natureza se movimenta em harmonia. Nas abóbodas celestiais, os acordes uníssonos de pássaros a cantarolar, a produzir sonetos por entre as núvens que, mais tarde, irão se deleitar em chuva. 
Um santuário em sépia para abrigar os anseios da alma. Era sempre silêncio. Não um silêncio qualquer, mas aquele silêncio revigorante que recita bons presságios em  forma de poesia. 
Ergue-se, pois, no doce Setembro, o primeiro solstício de inverno. Época de recolhida, porém, jamais, de amargura. O mel e as amêndoas em provisão abundante adoçam os dias que se desfolham em poesia. Dias que enamoram noites e que fecundam o diário da existência.

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