sábado, 8 de novembro de 2014

Em defesa da contemplação do Universo - Salvai a poética filosófica...

Caos e vazio. 
Duas pequenas palavras que traduzem o absurdo existencial de tempos em que somos convocados a reconstruir as experiências e as dimensões do sentido numa superfície incerta, instável e demasiadamente frágil de uma realidade que se desperta das ilusões modernas, das utopias e dos castelos de contos de fada que a Ciência prometera.
Sem referências, sem destinos, sem trilhas, lançado ao abismo do vazio. Um Niilismo travestido de 
Pobre homens da Pós-Modernidade que hoje se perguntam: o que sobrou dos séculos vindouros da Razão? Será que algo sobrou dos sonhos, das utopias, das promessas da Modernidade? Mais perturbador ainda seria indagar, o que fazem hoje, daquilo que foi feito com eles?
Lançados à própria sorte num mundo movido pela velocidade ilimitada e pela constante aceleração, lograr espaço para a construção da experiência simbólica do Self é um desafio a ser travado diariamente, pois a crise de identidade deflagrada com o arrebatador processo de homogenização iniciado a partir da segunda metade do século XX faz da espécie humana um gigantesco laboratório de sujeitos massificados, funcionais, 'eficientes' e responsivos à lógica de um sistema que diante desta ausência de referências, institui formas de representações simbólicas a partir da lógica da produtividade.
Nunca os valores de produtividade e eficiência foram tão introjetados e, quem diria, tão internalizados não apenas nos sujeitos bestializados pelas tendências culturais contemporâneas, mas também na própria episteme das Humanidades. Que me perdoe, os materialistas, porém o caos instalado no conhecimento e na experiência filosófica é, sobretudo, resultado da perda da conexão com a primeira das virtudes filosóficas que remetem à Antiguidade Grega: a contemplação. É o preço de um mundo explicado apenas pelas suas estruturas, no máximo por superestruturas desconexas e que proclamam a morte do romantismo filosófico. Transformar o mundo sem transformar o próprio homem é um equívoco terrível, o qual culminou nesta Era de Extremos e de intensificação das assimetrias humanas. Há homens sucumbindo aos discursos sociais limitantes e homens que agarram às suas próprias ruínas para (re)construir-se e repensar os horizontes que tomou para si. Já dizia o grande escritor inglês Oscar Wilde "Estamos todos na sarjeta, porém alguns estão olhando as estrelas"...
Atualmente, minha impressão é de que os processos de contemplação conheceram os seus limites históricos, sendo suprimidos na experiência pós-moderna visto que o homem não se reconhece a partir do contato sensível com o seu espírito, mas através de uma identidade moldada em torno do consumo material e, especialmente, simbólico, pois necessitamos do abastecimento diário de emoções artificiais. Consumimos a experiência do sentido, mas não paramos pra construí-la, modificá-la, edificá-la, pois estamos sempre muito ocupados a serviço da cultura  que nos pressiona a trabalhar em cima de uma performance definida exógenamente e a priori por sujeitos ou instituições anônimas á existência individual. 
Frequentemente confundida com preguiça e indolência tanto pelo senso comum quanto para instituições até então, sólidas, como a família e a Igreja, a contemplação em Filosofia encerra-se na eclosão intelectual de grandes Mestres da filosofia moderna como Schopenhauer, Nietzsche e Freud, os quais contribuíram enormemente para a evolução física e metafísica do mundo a partir de suas suspeitas. Como grandes investigadores dos fenômenos subjetivos do homem e da sociedade, estes grandes Mestres da Suspeita ousaram dar respostas arrebatadoras para um mundo estruturalmente rígido por verdades inquestionáveis. Estes gênios, muitas vezes injustamente incompreendidos [mesmo pelos intelectuais] são exemplos de uma vivência filosófica eminentemente contemplativa, pois ousaram interpenetrar no mais íntimo da Natureza do Self, extraindo dele mesmo as dores do mundo. Nietzsche fez da tragicidade da própria vida um sistema filosófico combativo porém, simultaneamente, ancorado na ideia de que cabia ao ser [e somente a ele] construir a sua própria existência e definir seus estados anímicos, afinal, a Terra, o Mundo, o Universo não pararia para que os homens recolhessem seus próprios fragmentos. Tudo continuaria, num eterno retorno...
No entanto, pensar este caráter contemplativo da Filosofia nos dias atuais é quase uma tarefa impossível de ser empreendida. Tendemos a nos constranger com uma experiência filosófica na qual edificamos nossos impérios através da ociosidade criativa, da peregrinação silenciosa, dos momentos de interiorização que requer uma total entrega de nós para nós mesmos. Somos programados para ser sujeitos laboriosos e nossos prazeres tem sido cooptados dentro dos rituais sociais que entorpecem nossos sentidos. Ora, o mundo contemporâneo é um conglomerado de vozes triunfantes que nos impele, a todo momento, a dialogar, discursar, opinar, encontrar soluções rápidas e eficazes, além de despejar sobre a nossa privacidade uma série de mensagens contraditórias e intimidadoras que nos leva, a todo momento, sermos atores [ou fantoches] da sociedade do espetáculo observada pelo escritor francês Guy Debord.
A poética filosófica está, pois, ameaçada pelo constrangimento frente a experiência romântica e a esta adrenalina pulsante que anula a experiência do sentido, convertendo-a em experiências de servidão voluntárias sem que nos déssemos conta de que, dia após dia, perdemos um pouco de nós mesmos, que aquela imagem de nos sacrificarmos para afirmarmo-nos perante ao mundo não passa de um invólucro prestes a se desmanchar com qualquer suspiro de vida.
Contudo, uma reflexão se faz necessária: diante da transitoridade, transitoriedade e efemeridade de todas as coisas e de todos os sentidos e valores do mundo pós moderno, diante de toda a obsolência, de todas as transformações e conversões, o que sobrará de nós, quando deslocados das relações materiais dentro de um contexto sólido? Com a 'liquefação' do mundo, em que bases nos apoiaremos nos 'pós guerra' da experiência concreta? 
A concretude se desvela tão frágil e não nos preocupamos com este contato sensível e transcendente que é o ponto crucial para a (re)construção de nós mesmos.




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