Dir-se-ia ser um daqueles instantes em que era preciso tira o pó da mobília, das estantes e abrir algumas portas e janelas improváveis, descer ao subsolo de memórias congeladas no tempo, de lembranças cristalizadas, de olhares perdidos na imensidão silenciosa dos corredores, quase labirintos que desenham os invólucros da alma. Tudo, absolutamente tudo que um dia fui e vivi deixava marcas profundas neste oceano biográfico. Os palcos estavam vazios, as poltronas empoeiradas, retratos, cheiros e anseios estavam espalhados pela superfície. Tal como o caos, tudo estava em absoluta desordem. Riscar um fósforo era arriscado quando tudo que jazia inerte ganha vida, cores, música e não é sempre que estamos preparados para valsar nos salões da existência onde restara apenas o vestígio de uma melodia triste.
Os corredores estreitos nos quais eu percorria em busca de "um grande talvez" emergia infinitas interrogações. Percorrê-lo era visualizar os soluços que encobriam as palavras não ditas, a violência de ter que silenciá-las. Havia ainda os sorrisos contidos, os gestos envergonhados, as lágrimas que um dia eram quentes de emoção, de redenção, de autoencontro estavam, pois cristalizadas em
tempos de inverno. Era a vida entreatos. Houve dias em que não bastava mais ser e saber. Era necessário sentir...e do sentimento fazia a necessidade de percorrer cada veia, cada fibra, cada músculo do corpo em busca daquilo que nos escapa.
A questão é: até que ponto somos capazes de nos permitir descer aos lugares inóspitos de nosso porão interior? Enfrentar fantasmas, velhas lembranças, aceitar um tipo de liberdade que nos impressiona...enfrentar a vaidade de sabermos, por fim, que somos absolutamente vulneráveis e que cambaleamos pelas avenidas incertas do destino.
Por vezes, estamos a caminhar sem propósito por entre os perímetros da vida jorrada para abaixo da superfície. Inevitavelmente, somos absorvidos pela vida não vivida, a vida suprimida, a vida implodida, prestes a entrar em erupção.
Nos subsolos da existência é que, de fato, existimos. O lugar em que nos permitirmos sermos tolos e ridículos pois não há palcos ou holofotes. Há, pois o Ser e o Nada. Eis o convite fenomenológico da existência: um retorno as coisas-mesmas.
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