sábado, 6 de dezembro de 2014

Agonia e êxtase: o movimento pendular da condição humana


A vida do Homem oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio, tais são na realidade os seus dois últimos elementos.

Os homens tiveram que exprimir esta ideia de um modo singular; depois de haverem feito do inferno o lugar de todos os tormentos e de todos os sofrimentos, que ficou para o céu? Justamente o aborrecimento.

— Arthur Schopenhauer, in As Dores do Mundo.


Pensar a condição humana, esse fato tão óbvio e tão obscuro, não é mais do que sentir a constante alternância da tríade dor-agonia-tédio, onde por vezes abandonamos os afetos doentios para sentirmos a liberdade extasiante do vazio. Pois na plenitude da existência não há verdadeiro êxtase do que a capacidade de nos sentirmos inteiros no vazio. No vazio somos muitos, porém íntegros, lúcidos, entregues a nós mesmos. No vazio retornamos às coisas mesmas, no vazio respiramos ar que acaricia nossos pulmões e expiramos, sem qualquer  arrependimento, as doses daquilo que foi mas não jaz mais.
Em "As dores do mundo", o filósofo Arthur Schopenhauer remete a esta condição pendular da existência humana reconhecendo a efemeridade dos prazeres e dos contentamentos em detrimento a presença sempre pontual das angústias. Defende que estas é que dão a igual medida dos prazeres, pois não é, senão, através dos contrastes que podemos sentir a plenitude da vida. Segundo ele, nossos momentos de alegria normalmente ocorrem sem uma consciência desperta destes ao contrário das angústias e da melancolia que nos lança violentamente a um estado de mais profunda interiorização. Da dor que lampeja na pele à emoção que traduzem em lágrimas uma euforia petrificada numa pintura distante...eis que para este grande pensador do século XIX, sofrer talvez não seja o grande vilão da estória. Na verdade, são nossas resistências e nossos medos que o torna poderoso e dominador de nossos instintos naturais. Perturbamo-nos muito na tentativa de construirmos um mundo colorido, simétrico e estável para depositarmos nossos sonhos e afastarmos nossos monstros internos. O sofrimento sempre foi e sempre será o exercício do sentir, do olhar para dentro de dentro de nós. E nossa carência por sentir, tem-nos absorvido neste mar de desencantos, amarguras e desgostos. Felicidade, tomada por uma superficialidade suprema, tornou-se tirânica, pois questionou nossa própria condição humana. Tirou-nos o direito à melancolia, ao recolhimento e a meditação. Deixou-nos fracos e à mercê do receio constante de uma tempestade que venha a consumar nossas vaidades e nossa tendência ao heroísmo.
Quando entupidos de excessos e proteções somos absolutamente vulneráveis, tentando - inutilmente - dia após dia salvarmo-nos da dor e das desgraças. Mas creio que não haja sofrimento mais recrudescente do que sobrevivermos sem estarmos centrados em nós mesmos, como se diante de um imenso espelho fossemos  incapazes de reconhecer o seu reflexo, como se arremessado contra a parede sem  sentir o peso e a destreza das carnes em contato com a aspereza das superfícies.
Estrangeiros de nós mesmos. Anônimos de nossa ontologia. Estranhos aos nossos  próprios sentidos. Espécie facilmente seduzida pelas externalidades,  justificando sua existência na fantasmagoria do concreto. Quantos discursos para  justificar a ideia de que não existe arco-íris no fim do túnel, quantas neuroses  e psicoses para escaparmos da ideia de nada podemos esperar de fora, que agonia  de muitos imaginar que somos aquilo que fizemos de nós. Que dor de morte  arrebata aqueles que cheios de tudo e ausentes de si, são visitados pela impiedosa verdade de que somos a escultura de nossas próprias mãos. De que  vivemos, durante muitos anos, décadas como um acidente da matéria, quando  deixamos de lado nossas inspirações anímicas para seguir os fluxogramas institucionais da vida. Identidades dissolvidas na uniformização dos gestos, dos sorrisos, das posturas e dos ritos sociais. Agonizados pela ideia de que somos condenados a uma liberdade que custamos a assumir e, por isso, a banalizamos, a distorcemos e fizemos dela a nossa violência, a nossa punição, o nosso cárcere. Fizemos até do amor o nosso martírio, a angústia e a depressão. Jogamos nas utopias românticas a nossa própria capacidade de amar e agora, somos pois estes seres cambaleantes, frágeis em busca das essências que deixamos em algum lugar na esperança de que seriamos amados e acolhidos. Desprovidos de autenticidade e de autonomia. Ora, que pretensão acharmos que seríamos salvos por outrem ou que somos inúteis o suficiente para que a nossa sina já fosse demarcada. Somos angustiados e vivemos miseravelmente porque cremos numa injustiça natural de todas as coisas e achamo-nos mais pertencentes aos outros do que a nós, pois hipotecamo-nos em demasia. Se somos desconhecidos para a nossa própria consciência de si, como esperar que um dia alguém nos conheça inteiramente e recolha nossos pedaços que não são mais do que peças desconexas...afinal, o que fizeste de ti?
E que loucura insana dos homens caminhar para o futuro esperando que nele haja,  enfim, a bonança e que tudo o mais será luz. 
Sábio o homem que extrai da dor a sua própria capacidade de manter-se inteiro,  que emociona-se em espírito sem precisar fabricar, com muito esforço, cápsulas  artificiais de alegrias. 
Não há motivos para imaginar o homem como projeto a ser construído, isso  implicaria em esperanças e utopias desnecessárias. Por que não vivemos a plenitude das possibilidades reais de uma alegria genuína sem disfarces, escapes  ou sublimações? 

Fugas? Só se forem para a liberdade!
Obcessões? Apenas aquelas que me preenchem de mim!
Agonias? Só se forem aquelas que nos impelem a esvaziar-nos das tantas máscaras e tratarmos de viver!

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