terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Lições de Dramaturgia Laboral: Ato III.: Das adoráveis mentiras


Você seria capaz de mentir como forma de preservar suas próprias verdades?
Defenderia a tua verdade se, para isso, tivesse que construir um castelo de mentiras ao seu redor?
Teria suficiente lucidez para achar-se em meio a perdição?
Que preço estaria disposto a pagar pelo insustentável peso das mentiras e pela tormenta das verdades que impiedosamente batem-lhe à porta?

Todas as verdades tendem a ser constituídas também a partir do amargo das mentiras. Verdades e Mentiras, dois pólos opostos, mas que se condicionam mutuamente, Ambas se enlaçam, ambas levam os homens à profundos estados de tormento e nem todos que, diariamente precisam vestir mentiras, sabem do peso das verdades. Da mesma forma, não se sabe até que ponto nossas verdades mostram-se frágeis e, em meio ao nosso esforço de mantê-las intactas, acabamos por protegê-las cercando-as de mentiras.
Alguns optam por meia-verdade, meia-mentira e, assim, vive-se de forma meio-consciente. Tende a ser chocante demais nos depararmos com o fato de nossos ofícios compactuarem, muitas vezes, com a anulação de nós mesmos. Como se fossemos artesão dos instrumentos que, mais tarde, serviriam para nos ferir e arrancar-nos a vida pulsante.

Toda vez que me vejo diante de um palco -  mais assemelha-se a uma corte de juris e jurados, onde multidões se reúnem para assistir a sua performance, lembro que existe dentro de mim alguém que nunca  de encenações que desvelam o peso das mais infames hipocrisias e dos gestos sarcásticos que, com certas doses de seriedade e orgulho, quer convencer-me de que há algo errado, inadequado com àquilo que me proponho a fazer, faço uso de um dos recursos utilizados em larga escala pelos atores profissionais: as adoráveis mentiras. Em grande parte elas nos sustentam e podem ser nossas últimas defesas. Isso porque sempre há forças que nos amarram, que nos limitam, que controlam os nossos passos e, as vezes, é preciso fingir-se de morto para não sermos abruptamente devorados pelas multidões.

Ás vezes conseguimos ampliar nosso espaço de introspeção, de conexão interna quando no exercício de nossas funções buscamos formas criativas de preencher as lacunas deixadas pelo tédio. Um tipo de compensação pelas horas destinadas às atividades monótonas, opacas e repetitivas Quando somos involuntariamente membros da Cia de teatro corporativo, podemos romper com certos hábitos quotidianos. Se você atua em frente a um computador, é possível utilizar-se de fones de ouvido, um instrumento poderosíssimo que lhe permite desconectar-se, temporariamente, dos excessos, inutilidades e blasfêmias que mais parecem um cortejo soturno de algazarras e de conversas desinteressantes. Você pode ser absolutamente profissional em seu personagem, em seu contexto de atuação, porém, nada lhe impede de selecionar aquilo que lhe convém, aqueles que poderão, por exemplo, enriquecer a mente e a alma. Nossos sentidos são janelas abertas para o mundo, porém, com incontáveis filtros e recursos que norteiam nossas escolhas, guiando-nos em direção aos nossos desejos mais profundos. Assim, se durante o expediente não podemos ser o rio que flui, podemos ao menos estabelecer contato com a nossa dimensão interna e, por experiência própria, sinto que ao atribuirmos importância às nossas motivações e propósitos interiores - mesmo que seja uma parte ínfima destes elementos - aquele dia monótono, entediante, colérico passa a dar a luz a dias inspiradores, como se uma chama se acendesse em meio à escuridão e fosse se expandindo. Buscava tanto a claridade e encontrava mil formas de lutar contra a tendência de nos alienarmos ou de simplesmente nos transformarmos em pessoas desconhecidas que vestem mil personagens mas que, no entanto, é incapaz de perceber-se como ser único, livre e independente de todos estes contextos estreitos que nos metemos, acreditando sermos incapazes de sairmos dele.A batalha é diária, mas sempre é-nos realizadora. Isso implica em mil acrobacias para não corrermos o risco de rompermos, sem nos darmos conta, com as demandas externas, pois é preciso de certa percepção ou perspicácia para manter estes dois polos equilibrados. Claro que muitos não vão lhe entender, afinal de contas, quando se vive em terra de cegos, a mais sutil das visões pode despertar a ira e um efeito em cadeia indesejável, por isso mentir, é preciso. Não por constrangimento, não por atribuir qualquer importância aos julgamentos alheios. É por uma questão de honra a integridade, apenas isto. E para quê ou por quem você revelaria sua face? Para que batam-lhe na cara, para que usurpem todo o contentamento que preservavas em retidão? Para depois explicar-se, defender-se, recolher os pedaços e prosseguir?

O desafio de ser si mesmo passa pela nossa habilidade de arquitetarmos mentiras  que nos permitam vivenciar as nossas verdades no contexto laboral. É preciso, pois,  resgatar aquele Ser sufocado, o Ser renegado, aquele que raramente protagoniza o nosso estrelato. É preciso buscar sentidos e significados por cada centímetro dos caminhamos que percorremos, é necessário revestirmos cada passo com uma emoção singular. Ainda que caminhes por lugares inóspitos, por terras desconhecidas e hostis, faz-se absolutamente necessário resgatarmos as nossas motivações internas, aquilo que nos inspira, que enaltece, que nos preenche verdadeiramente. 

Nossos deveres e compromissos jamais poderão substituir o espaço destinado aos nossos sonhos, realizações e desejos d'alma. Do contrário a vida seria uma causa perdida e todos os nossos esforços seriam inúteis. Não me basta viver de meias verdades legítimas, por isso fico com as mentiras que brincam de falar verdades.

Por vezes, precisamos transparecer certa indiferença e manter uma postura condizente a uma relativa uniformização. Passarmos de tolos, sujeitos ordinários e uniformes às vezes é uma estratégia defensiva de grande amplitude quando em verdade estamos a necessitar da vida integral que nos escapa...

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