Compreendi que não é o preenchimento de todas as coisas que faz-nos completos. Tampouco, os excessos que nos fazem transbordar duma alegria singular. Ao contrário, me dei conta de que é o vazio que faz o peito transbordar. Que é a certeza das finitudes que nos tornam intensos na busca por nós mesmos, mas também no toque particular que damos a tudo que nos cerca.
Da mesma forma, é pela experiência da escassez que nos tornamos sábios jogadores, ora vencendo e ora perdendo, treinando habilidades, estratégias e empregando forças que não supúnhamos ter. As leis da vida é, pois, de extraordinária inteligência, pois nos lança ao vazio para que saibamos construir um mundo, e nos construirmos e nos desconstruirmos a todo momento.
São os "apesar de..." que nos move e só somos lançados para a aventura da vida frágeis e vulneráveis porque esta alavanca inconsciente do universo é uma constante. Quantos temporais atravessamos para depois avistarmos um lindo arco-íris? Quantas noites sombrias precisamos atravessar para ver o nascedouro do Sol?
Sem nossas incertezas e crises, não conheceríamos nosso "eu" em profundidade. Crises aprimoram nossa capacidade analítica e o nosso desempenho interno ante as desavenças e contradições da existência.
Mesmo na inércia, somos constantemente movidos pelos nossos sentidos sempre a estimularmos. Quando nos aquietamos em profunda meditação, quando - por algum motivo - estamos desprovidos de nossas forças ou mesmo renegando as agitações externas, ainda assim, há um sutil movimentar-se. Há, um mover-se em direção à contemplação. E o que é a contemplação, senão, uma construção de sentido em direção a uma síntese poética que preencha os nossos sentidos, que enfeitice nossos olhos, que nos lance à nirvana?
Somos afortunados em nossos vazios, porque exercemos, com toda a plenitude, a capacidade de nos recriarmos constantemente, de nos alimentarmos das sementes vindouras lançadas pelo universo.
São nossas epopeias que glorifica-nos e, não, os palcos fúnebres dos ritos sociais, mas a alma errante que se deleita na possibilidade do novo, sempre!
Somos fundamentalmente distintos de qualquer inteligência artificial e fugimos de qualquer tentativa de modelagem de nossa cognição quando existe dentro de nós um impulso transformador que muda, a todo momento, esta tal de realidade.
Estamos culturalmente habituados a nos sentir pequenos, face aos ditames doutrinários das sociedades ocidentais, mas não sabemos ao certo até que ponto a realidade enquanto solidez é responsável por nós. A realidade é frágil, a realidade é sempre parcial, ela é... nada..
A singularidade da experiência humana e a imprevisibilidade de todas as coisas revela o quanto somos construtores por excelência dos significados, de como nossas crenças fazem a nossa fortaleza ou o nosso infortúnio interior. Perdoe-me os materialistas, mas não somos produto de um meio, não existem fracos ou derrotados, mas pessoas aprendendo a viver, a construir-se a partir do vazio. E é nossa mais legitima responsabilidade a maneira como iremos preencher ou desperdiçar estes espaços. Não é possível conceber as inúmeras possibilidades de Ser a partir da ideia de um mundo já feito, já edificado onde já fora definido o nosso leito, as nossas escolhas e as experiências pelas quais iremos passar. Se existem estruturas, elas são produto de criação e passíveis de desconstrução pela razão oposta ou pela mesma razão que levou à sua construção. Romperemo-as, pois! Estruturas nada mais são do que os grilhões e algemas que limitam a expressão pura do homem. São nossas vaidades e medos que nos encarceram, nossa deseducação afetiva e emocional.
Não somos a partir de um sistema...não importa aonde chegamos, em que caminho ficou perdido uma parte de nós, não importa o quanto somos perseguidos pela ideia de que nascemos desafortunados, de que o mundo nos condena. Não! E não se trata de negar o sofrimento humano, tampouco, negligenciá-lo, mas trata de assumirmos a responsabilidade de nós mesmos e a negação do que nos nega. Trata-se de aprendermos a nos (re)construir, de sermos facilitadores do processo de outrem.
Sentir o vazio não é, deprimir-se, é um convite da inquietude para sermos mais de nós mesmos.
Contudo, não podemos perder de vista a vulnerabilidade natural de nossa espécie.
Terapeutas, profissionais diversos na interface com as Humanidades tem papel preponderante como facilitadores desse processos, re-significação das experiências, reconexão com a vida em sua plenitude. É preciso reduzir o excesso de críticas voltadas ao concreto, e apostarmos nesses vazios como processo e não retrocesso, tal como a sociedade do espetáculo costuma impor em apologia ao sucesso e a felicidade permanentes.
Se antes a falta era motivo de angústia, hoje ela é inspiração para um novo projeto, uma mudança significativa, uma implosão de fatos fundamentais para por-nos de volta no caminho que nos conduz àquilo que tanto procurávamos.
Falta e vazio podem ser as experiências mais completas de sentido, é aquela folha em branco ou um pedaço de papel escrito que necessita de suas partes perdidas para a compreensão inteligível do que o define. Pode ser o sentimento de nada bastar, um sentimento que vai estar sempre presente até que o detemos, encarando-o com confiança. Ás vezes é uma dor de cabeça sutil, porém, persistente. Um incitamento ou indiciamento. Seja como for, há horas de estar no vazio, de simplesmente estarmos vazios, atentos aos solilóquios da alma, às notas de melodias distantes ou do escutar da respiração ofegante.
Falta e vazio podem ser as experiências mais completas de sentido, é aquela folha em branco ou um pedaço de papel escrito que necessita de suas partes perdidas para a compreensão inteligível do que o define. Pode ser o sentimento de nada bastar, um sentimento que vai estar sempre presente até que o detemos, encarando-o com confiança. Ás vezes é uma dor de cabeça sutil, porém, persistente. Um incitamento ou indiciamento. Seja como for, há horas de estar no vazio, de simplesmente estarmos vazios, atentos aos solilóquios da alma, às notas de melodias distantes ou do escutar da respiração ofegante.
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