Feriados prolongados, nos quais voluntariamente saímos dos cenários sociais para dar-nos a atenção aos nossos anseios, vontades e paixões, tendem a ser perigosos, mas, simultaneamente, surpreendentes. A periculosidade reside naquelas sensações de insatisfação e de certo aborrecimento que abrem feridas profundas no peito, feridas estas que sangram na medida em que as veias já não mais suportam o peso de dias coléricos e absurdamente iguais, como se a vida fosse uma sucessão de eventos idênticos, como um canto em uníssono, com a mesma melodia triste, o mesmo ritmo entoando as mesmas vibrações. Vazio e patético. Eis o perigo de se olhar para dentro enquanto se vive, eis-me, então, assistindo o conjunto de pequenos quadros que dão a totalidade de uma projeção cinematográfica de tudo que fui e de tudo que ainda sou.
Em contrapartida, são estes dias consecutivos de introspecção e de observações cuidadosas que impulsionam vontades e ações que outrora não vingaram. Eram tempos em que as sementes originárias da vida jaziam escassas e, por isso, estavam fadadas à esterilidade. Falo de tempos em que atravessei desertos, campos de batalhas, florestas selvagens e subúrbios longínquos trazendo em minha alma apenas os dissabores, as sujeiras e a sede...tempos de mal-grado cujo motivo da cólera era o de pensar impérios, mas de sentir apenas o desconforto de humildes cabanas e de agir a partir de ruínas de edifícios inóspitos.
A advertência da alma só viera anos depois, quando o mal já havia acimentado o vale de sonhos exuberantes e, acima das superfícies, não restara mais nada além da detestável experiencia de dias laboriosos e noites consumadas pelo cansaço. Não era apenas os músculos e ossos que fraquejavam, todo o campo perceptivo e intelectual fora contaminado pela erupção de emoções doentias. Tal como um tornado que, numa fração de segundos, extraí com violência a vida cultivada no silêncio de dias normais. Estava, pois, estabelecido o caos. E foi a partir destes rastros de destruição que despertei de um sono profundo.
Havia a incômoda sensação de que algo estava completamente errado, de que as escolhas e as não-escolhas haviam fracassado e em meio ao nada, não sobrara uma coisa no lugar. Tudo havia se partido, não restara nada. E despertando em meio ao vazio, como se lançada num vácuo, de imensuráveis proporções ali tive a minha primeira redenção. Mesmo na experiência de observar-se em meio a um cenário onde nada mais existia, era preciso me desfazer do peso de inúmeras crenças e ideias limitantes. E eu sentia que era hora de resgatar o elo sagrado, os fios condutores da vida, a reconexão com a alma, as asas que outrora se partiram. Tudo serias diferente a partir de então...
Atreveria-me a não fazer mais juras, promessas e planejamentos rigorosos. Não trairia mais a minha verdade, os meus ideais e os meus propósitos. Não me ajoelharia mais diante de ninguém, apenas a alma pode fazer isso quando em meditação com o sagrado. Minha ousadia agora vinha de dentro para fora e eu não mais duvidaria das minhas intuições.
Desde dia em diante, renasci incólume das tantas mortes e optei pela vida em sua integralidade e resplandecência, mas entendi que eu ainda tinha um saldo com o tempo, este eremita que que outrora abreviara os tempos de obscurantismo e que, hoje, dera-me o tempo de ter o meu próprio tempo, de arquitetar meus sonhos e não mais me perder na dinâmica de exigências, violências e sujeiras e, tampouco, submeter-me às intimidações de outrem. De posse da minha consciência e lucidez, eu já não mais viveria ordinariamente os dias, era o extraordinário que eu almejara. Não precisaria mais de certezas ou convicções posto que não me caberia controlar a sucessão de eventos externos. Libertar-me-ia, pois, de todas as ações calculadas, dos passos silenciosos, das cautelas desmedidas. Não entregaria mais os pulsos às correntes dos compromissos importunos.
Chegara a hora de ser a centelha de realizações e de possibilidades a qual flamejara insistentemente em tempos em que a visão era turva e os sentimentos jaziam estilhaçados pelos escombros da existência desertificada.
Hoje bastava todo o conjunto de nulidades, bastava toda a inércia, a desesperança, as angústias e as preocupações excessivas. Contudo, não me basta o que me tornei hoje, nunca bastará...minha alma prossegue na onisciência da transformação constante.
Nunca me bastaria os vícios de buscar o ser...e elo entre a possibilidade e o infinito. Nunca há de bastar o vício viciante de viciar-me em conquistar virtudes internas....
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