terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Da morte do sujeito no campo psicológico: desabafos acadêmicos

Causa-me espanto e dissabor certas tendências do pensamento psicológico em pauta nas universidades brasileiras ainda que hajas explicações óbvias para o grau de interpenetração destas tendências observadas não apenas nos diversos locus de atuação dos profissionais quanto, principalmente no meio acadêmico, donde esperaria-se mais de um amplo arcabouço histórico-teórico-metodológico de que se dispõe a ciência psicológica. Em primazia, falo das desastrosas consequências que o binômio psicologia e política tem produzido na construção e no direcionamento dos conteúdos psicológicos no qual o sujeito é [ou deveria ser] o objeto privilegiado destes estudos. Todavia, atrevo-me afirmar que este objeto encontra-se ameaçado...mais do que isso: encontra-se suprimido, negligenciado, vitimizado, escamoteado...Falo, pois da morte do sujeito no pensamento e na ação profissional em tempos em que as grandes tragédias do mundo tem exercido uma grande pressão nesta área para romper com o fio condutor que estabelece a relação do sujeito com os mal-estares antigos e contemporâneos. Falo, por conseguinte, de outras tantas mortes: do sepultamento da metafísica e da hermenêutica para a compreensão do homem e de suas mazelas psíquicas. 
Em suma, me refiro às tendências da Psicologia Social que, sendo patenteada através de inúmeras denominações (Psicologia Sócio-Histórica, Histórico-Cultural, Sócio-Interacionista, etc) busca isentar o sujeito da responsabilidade, do dever e da consciência para o seu próprio mundo interno. Isso significa, a grosso modo, que o sujeito não se emancipa, senão, por meio da ação e revolução política. A exata medida de sua liberdade é diretamente proporcional ao nível de engajamento sociopolítico do sujeito que ao olhar criticamente para a sua situação socioeconomia e cultural buscará por meio da revolução e das revoltas construir uma sociedade justa e igualitária. Não é preciso exaurir esta análise para perceber a problemática que este tipo de pensamento introduz no campo de estudo da Psicologia.
Na verdade, trata-se de um duplo homicídio [daqueles altamente qualificados]: a do sujeito, citada anteriormente, e da própria Psicologia a qual não compete desenvolver consciências políticas, tampouco, organizar militâncias no combate às injustiças morais e sociais do mundo. Este feito se deu por uma tentativa de desconstrução do papel da Psicologia e do Psicólogo no caos do mundo contemporâneo. Trata-se de uma visão pragmática que passa a requestionar estes papéis com o intuito de cobrar respostas e atitudes eficazes o suficiente para abalar, na tentativa de desconstruir, a ordem material do mundo. E mal sabem da distorção e da tragédia que operaram ao atribuir à Psicologia lentes corretivas do Marxismo. 
Séculos de produção psicológica e pelo menos milhares de anos de pensamento filosófico que sustentaria as bases epistemológicas da Psicologia parecem ser atacados com uma sequência brutal de considerações limitantes, reducionistas e burocratizadas da experiência humana. Hipotecaram a essência do existente, o estado interno do vir-a-ser e condicionaram as possibilidades de emancipação à adesão política. Aprisionaram as potencialidades nos condicionamentos econômicos. Negaram todo e qualquer tipo de potencialidade e de poder pessoal do sujeito. Apagaram-lhe a alma e os talentos. Por fim, bateram-lhe à face a mais redentora de todas as portas: àquela que outrora conduzia o sujeito para as mais nobres e revigorantes experiências de autoconhecimento e do domínio das diversas formas de ser no mundo. 
Sou incapaz de imaginar até o mais miserável dos consolos e dos conselhos que brotariam de uma posição tão desumana da própria experiência humana. Não lhe assusta e provoca-lhe náuseas a ideia de que você é um mero produto que dança e canta no mundo a partir de uma dimensão em que você foi inserido e que, se insatisfeito, deve lutar...lutar não por você, mas por toda a sua espécie? Por que o uno é sempre dependente do todo? Por que nem a mais frágil unidade do ser, nem a força da totalidade integrativa do homem poderia sustentar a vida?
De fato, é espantoso e repugnante travestir a condição humana de determinação social. É o maior e mais escarneante dos equívocos moldar a complexidade dos fenômenos psicológicos à fôrma que  dá origem às classes sociais. Imaginar a realidade como um cenário fantasmagórico e os sujeitos como mero apêndices de uma máquina que acreditam devorar seres humanos é admitir uma bestialidade "natural" dos seres humanos, é esvaziar os sentidos latentes e as representações simbólicas constituintes do Ser, é provocar a mais degradante esterilização cognitiva, intelectual e afetiva do sujeito.
Será que a acelerada valorização das externalidades frívolas, dos protagonismos alienados e dos espetáculos enquanto experiência existencial, fez-nos cegos, deficitários, moribundos?!? Será que a aparente desconexão do ser em razão da frenética conexão de nossas carências com os excessos das redes sociais virtuais tem soterrado a energia pulsante e a centelha divina que habita cada um de nós? 
Enquanto tendência amplamente valorizada e de fácil adesão a uma cultura de mazelas e de reprodução da miséria psicossocial, a vertente sociológica da Psicologia tem retirado as possibilidades progressistas da experiência existencial humana, fazendo crescer o muro que separa o sujeito da subjetividade, como numa assustadora experiência de separação entre corpo e mente e mente e cérebro. Trata-se, pois, de uma agressiva anatomia psicológica que nada diz a respeito do sujeito e de seus fenômenos, pois há, nitidamente, apenas um jogo de forças políticas que fazem uso do poder da ciência e do próprio sujeito para manobrar intuitos que em nada se relacionam aos compromissos éticos do saber psicológico para com o sofrimento humano.
Esta é uma síntese do panorama científico, institucional e acadêmico da condição do sujeito na cultura psicológica difundida nas universidades seduzidas por um pensamento que dotaram de falsos romantismos e preceitos morais. 
Infelizmente, muito ingressantes da graduação em Psicologia não estão munidos de um filtro intelectual e ideológico competente para analisar, refletir e emitir julgamento de valores a este respeito. A Universidade conduz os conteúdos de forma enfática ao pensamento que julgam hegemônico de acordo com as tendências do mercado de trabalho e da própria situação política do país de difusão. Diante das tantas incertezas que pairam sobre os estudantes ingressantes e leigos na área, é desprezível ver como os seres humanos, muitas vezes, podem ser equiparáveis a um imenso recipiente no qual diariamente são depositados conteúdos, provas de conteúdos e, em seu processo final, desinteressado despejo destes à luz do esquecimento para, então, preenchê-lo novamente de conteúdos ardilosamente lançados a cada um destes recipientes, como num ciclo vicioso, ciclo este de perdas e danos.
O generalista consolo desta posição do sujeito, é a de uma passagem relativamente tranquila pelo meio acadêmico, pois tem-se apenas as expectativas alegres dos estágios práticos, da formatura e, finalmente, da atuação no qual orgulham-se de seu título estampado em certificados e cartões profissionais.

Contudo, para aqueles que respiram há muito da Psicologia no mais simples dos gestos, nas mais banais observações e nos mais improváveis contextos, sentir a Psicologia pulsar nas veias e nos olhares lançados ao mundo em contrapartida a tendências chocantes de adulteração do próprio sujeito é, no mínimo, o prelúdio de uma devastadora experiência acadêmica..,é um convite à guerra, é ferida pungente, é incitamento à defesa do humano que não se faz, senão, pelo seu próprio julgamento na certeza ou na mais desejante das intenções, de absolvê-lo, mostrando-lhe caminhos, revelando alternativas, ensinando-lhe mais sobre a arte do pensamento e a  performance da ação. Disserta-lo-ei, pois, sobre a centralidade do sujeito e da experiência humana para a compreensão e intervenção frente às mazelas psíquicas que, em última instância, apenas contribuem para a proliferação da própria miserabilidade humana.


Firmo aqui meu compromisso para com o resgate do sujeito, o sujeito humano, o sujeito metafísico e quântico. Meu compromisso também é com a Psicologia emancipatória, que nega as muletas e as tutelas e que promove as múltiplas e infinitas possibilidades de Ser e de Estar no mundo.

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