segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O silêncio que procede a exaustão


Penso que há duas formas distintas de sobrevivência ante aos abalos, choques e tensões que quotidianamente nos confrontam. A primeira delas utilizá-se de recursos dramáticos e, consequentemente, tende a terminar com um ar de  tragicidade, de angústia e extrema ansiedade: é quando nos sentimos atingidos e  buscamos uma resposta imediata para combater a implosão de sentimentos confusos  que nos ferem. 

Procuramos inúmeras explicações, elegemos as o réu e, automaticamente, nos sentamos na cadeira da vítima. A processualidade do crime  ganha dinamismo, força e poder em nosso imaginário. Tal como na constatação de um crime, na perturbadora sensação de que fomos roubados, humilhados, ofendidos e  traídos, buscamos formas de compensar a lesão ainda em carne viva. A princípio, sangramos em profundo rancor, absorvidos por um estado colérico e, depois que a  cadeira do réu encontra-se estranhamente vazia, continuamos a sangrar, desta vez, pela nossa inegável fraqueza. Sabe-se que das veias pulsantes se esvai toda a energia criadora, exaurem-se os ânimos e instala-se o tédio. Estavas tão exausto pela guerra interna que travara  nos cenários artificiais da mente que parece não ter sobrado mais nada. Nada... 

A estranha e paradoxal sensação de uma leveza insustentável. De estar vazio, mas  também exausto por uma solidez que pressiona o peito. O mal já estava  feito...tal como um imenso tornado que não poupa nada nem ninguém, arrebata tudo aquilo que jaz em seu percurso, eu estaria lançada para fora do meu próprio diâmetro de sanidade, arrastada por forças desconhecidas num contexto de insana desordem.

Não importa a quantidade de virtudes que semeamos e os passos que demos adiante. Não importam os saltos qualitativos que demos a partir das lições anteriormente apreendidas; diante de  um violento tornado, tudo se vai, tudo se dissolve, tudo se desmorona. Talvez  porque por trás deste cenário, de um frágil cenário se encontrava a maior de  todas as lições e virtudes internas: a da necessidade de um proceder desinteressado diante do mal, da sujeira, das inconveniências e dos desgostos  trazidos por outrem. É sobre esta lição secundária que eu venho aprendendo entre a excitação colérica e o desejo incomensurável de, simplesmente, apagar cada  nuance doentio destes cenários patéticos, afinal, havia, ainda, a possibilidade  de sermos os únicos sentenciados no bater do martelo da vida. 

Diante da inflamação de nossas células e do estado febril que nos acomete diante  dos atos delituosos do outro, somos incitados a vestir-nos como soldados em  combate bélico e acabamos contaminados pelo fel e pela pólvora. Sujos, feridos e exaustos tentamos prosseguir a caminhada e buscar o nosso herói, no entanto, tal  como um campo de batalhas, não há mais nada para salvar, nem mesmo um fio de dignidade. Todo o resto se converte em poeira e ruínas.

Arruiná-lo-íamos somente para defender as fronteiras de um cenário absolutamente artificial? Entregar-se-ia à forças que, em questão de segundos, te desertificarias?

Em negação ao tormento e a exaustão que procedem estes estímulos chocantes, aprendemos a anular completamente a presença fantasmagórica do outro, pois quando emprestamos nossas forças internas para o combate externo, nos enfraquecemos e o histórico de nossas perdas tendem a se avolumar. E, ao final desta guerra, não há vencidos e nem vencedores. Ficamos tão desestabilizados que perdemos o norte, as motivações, o excitamento natural e saudável das nossas aspirações mais  elevadas. 
Sacrificamos em vão nossas forças e nos cegamos com o nosso poder. Do que adiantas tamanho investimento quando estamos negativados num empreendimento que nos arrasa?!

Toda a vez que estou diante das mazelas de outrem, dos ataques sutis até os confrontos mais viscerais, busco este estar em mim de um modo totalmente desinteressado para com os conteúdos mórbidos do outro. Um proceder silencioso onde sucede apenas um maior engajamento de mim com o meu centro interior. 

Se lutamos, caímos e precisamos da superação. Mas quando fazemos do mal alheio a possibilidade de rejeição pela vertente da indiferença e pelo riso dos humores, saímos vitoriosos sem  termos empreendido uma batalha se quer. 

De batalhas, só se forem pelos meus sonhos!
De combates, só se forem aqueles contra os estigmas que me permiti suportar em razão de uma inconsciência temporária, afinal, ninguém escreve em mim sem um burocrático consentimento. 

Do meu mundo já expurguei toda a intimidação, os olhares hostis e as palavras amargas.
Não me alcanças mais e quando me olhas, dou-te meu silêncio, a minha mais branda calmaria e, assim, prossigo nas façanhas reveladoras da alma que me são redentoras.


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