Se um dia me fosse questionado quais seriam os primeiros sinais da maturidade em seus aspectos psicossociais eu diria, prontamente, que seria o declínio de nossas ilusões mais veementes, aquelas que, talvez, sustente todo um edifício projetado pelos sonhos pueris e, ao mesmo tempo, por um tipo de poder que acreditamos possuir: o de poder mudar tudo e a todos com a força de nossas utopias e ações sociais.
O passar dos anos tem implicações significativas para o nosso amadurecimento; trata-se da abertura das cortinas de um palco para cenários que oscilam entre o cômico e o trágico. A vida vai se tornando mais parecida com as peças teatrais shakespearianas¹, com os subsolos dostoiesviskyanos, com os infernos de Camões e com os labirintos e prisões kafkanianos. Nossos conceitos, ideias, sentimentos e sensações são colocados à prova de fogo: assistimos ao lento queimor de nossas convicções mais profundas a ponto de sentirmos na pele a aridez da alma. Somos lançados ao deserto no qual uma sede desesperante nos consome...
Precisamos de respostas, muitas respostas e provas irrefutáveis, pois todas as paredes e colunas desmoronaram e nossos afetos...Bem, eles são, de fato, enganosos e tende a nos seduzir provocando-nos os mais diversos episódios de delírio.
O peso dos anos somado à dilatação de nossas percepções e aos confrontos que o cotidiano trava com a nossa intimidade, dá-nos a absoluta dimensão do vazio e das impossibilidades ante aos desejos ingênuos. Um desfilar em série de ilusões cristalizadas a se chocar com a dimensão empírica do ser. Inúmeros cristais a se quebrarem, emoções sendo desfeitas, sonhos sendo entrincheirados e muitas, muitas outras mortes. A dissolução das aparências e o permanente questionar de nossa identidade. Eis o sinais que vão se tornando mais evidentes na matemática dos anos.
Vamos nos dando conta das personalidades que não nos pertence, das revoluções que apenas traduziam as euforias desordenadas e a excitação hormonal latente. De fato, nós aposentaríamos os heróis e revolucionários que ora habitavam dentro de nós quanto tomados pela fúria das desilusões. Afinal, seríamos capazes de sustentá-los defronte à tragédia do real? Encontraríamos força de sermos quem um dia fomos nas exigências e pressões dos lugares que percorremos e que, cotidianamente, esbofeteia-nos a face?
Contudo, a experiência consciente da tragicidade e de suas dissonâncias em toda a nossa estrutura humana é o privilégio sem precedentes do amadurecer. De posse de uma versão mais reduzida de nós mesmos, somos capazes de equacionar melhor os percalços aos quais nos deparamos. Aprendemos que não somos muitos e não temos sequer, o bom caráter dos heróis. Somos quem somos e quem podemos ser, somente. Não somos muitos, temos apenas a nós mesmos. Não iremos transformar o mundo, quando muito, somos capazes de transformar o nosso mundo interno e o resto vem como consequência.
Paradoxalmente, a experiência do trágico torna menos trágica a própria vida. Aprendemos a converter o desespero ingênuo na possibilidade de transcendência. Desaceleramos o nosso viver para fora, e passamos a habitar mais o que jaz dentro. Não desperdiçamos o presente com utopias, mas presenteamos o aqui e agora com as possibilidades, meramente humanas, demasiadamente humanas.
Aprendemos, por conseguinte, que não somos [pelo menos em vida] tão divinizados como professavam as instituições que nos acolhiam. Nada temos de especial quando este destaque vem de fora. Somos legitimamente únicos quando abrimo-nos para as percepções que vem de dentro.
Aprendemos, por conseguinte, que não somos [pelo menos em vida] tão divinizados como professavam as instituições que nos acolhiam. Nada temos de especial quando este destaque vem de fora. Somos legitimamente únicos quando abrimo-nos para as percepções que vem de dentro.
As desilusões rompem com fragilidades e a elas devemos a nossa veneração, pois sem elas não haveria estopim para o progresso. Já imaginou o que seria das sociedades e de suas tecnologias se os inventores e intelectuais não tivessem partido de uma desilusão? Dessa mesma forma, as desilusões agem em nosso mundo interior. Não é, pois morte simplesmente, é renascimento, é transcendência; a possibilidade do eterno vir a ser, do processo dialético no qual precisamos sonhar para construir, porém devemos ser acordados, muitas vezes de forma assustadora, para que sonhos não se transformem em meras nuvens e se desmanchem no ar. Senti-lo-ias, assim, o alívio que penetra por entre os poros após uma violenta tempestade. Eis a lição exuberante da maturidade do espírito que se liberta das quimeras juvenis.
Viver é um contínuo desfolhar de anos em paralelo a um constante questionamento interno. Entre choques e alívios prossegue a existência na mais absoluta calmaria e na mais absoluta certeza das permanentes incertezas...
¹ Digno de nota: que não se enganem os românticos, pois não se trata de representações românticas do amor e das ternuras, mas de uma verdadeira anatomia dos ânimos e das tragédias que constitui a experiência humana, ou melhor, que é inerente à própria condição humana.
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