sábado, 20 de dezembro de 2014

O egoísmo como virtude: observações sobre o estratagema dos procedimentos morais

No início do século XIX, o filósofo Arthur Schopenhauer descrevia notas dignas de grande apreço para o sistema filosófico que ele mesmo constituiria ao romper gradativamente com Kant e outros tantos pensadores ilustres deste mesmo século. São notas produzidas a partir de uma visão profundamente analítica e desveladora dos tantos conteúdos latentes encobertos pelos preceitos morais e códigos sociais que definiria, em suma, o que pode [e, principalmente o que não podem] os afetos. Em outras palavras, a hegemonia das leis, das regras, formas e padrões de condutas sociais e morais estariam, pois, a serviço da regulação, coesão e coerção dos indivíduos no qual estas seriam justificadas pela ideia do bem-comum e do interesse geral da coletividade. Entretanto, os aforismos quase sempre perturbadores do pensamento filosófico Schopenhauer se colocaram como uma espécie de periscópio no universo das paixões humanas. Como consequência, conceitos, princípios e valores hegemônicos que referenciavam a conduta humana e o julgamento do caráter e da personalidade dos indivíduos são questionados, profundamente arrebatados em seu âmago, pois tratava-se, por fim, de revelar as hipocrisias que tornaram possíveis a legitimidade destes valores e, para além disso, contribuíram para que o Estado, ao controlar a individuação dos homens, mantivesse inalterada a estrutura invisível que forja uma nítida separação entre os sujeitos que triunfam, prosperam e fazem uso ilimitado de sua vontade, contra aqueles que sucumbem à própria miséria, que trabalham arduamente apenas coma  certeza de seus deveres. Seres impedidos, pois, de sustentarem suas próprias vontades. 

Schopenhauer revela, através de seus magistrais registros filosóficos, a natureza egoísta dos homens sublimada pelos procedimentos éticos e morais que constituem a superfície deontológica onde são assentadas as relações humanas e sociais, onde as vontades egoístas são camufladas pelos mais diversos ritos sociais e culturais que visam conceber ao homem um espírito generoso e cooperativo, como se através das leis morais e sociais fosse possível alterar traços da natureza humana ou mesmo suprimir suas forças do espírito.

Ao olhar para a situação de extrema miséria social, nulidade  e escassez psicológica que caracteriza diversas sociedades, grupos sociais e, mesmo, indivíduos vistos isoladamente de um contexto concreto, vemos como o sentido do egoísmo enquanto traço natural da condição humana foi distorcido por séculos ou milênios de discursos morais, leis arbitrárias e práticas violentas que buscavam assegurar uma posição de inferioridade e impotência do homem diante da vida e, porque não, diante de si mesmo. Muitas instituições existentes até hoje teriam sucumbido se não fosse o eco de certas vozes que intuitivamente associamos à nossa consciência para sermos o que devemos ser. Isso implica em sermos o que, um dia, fora definido como o soberanamente bom e justo. Em tese, sabemos que os procedimentos e códigos morais servem ao controle de nossas forças instintivas que, facilmente, poderia aniquilar a própria espécie humana. 

A ideia da proteção, de que se valem as diversas instituições para legitimarem seus preceitos morais, torna imperiosa a necessidade de superarmos nosso egoísmo 'natural' para que tenhamos condições de viver em sociedade, condição essencial à própria preservação e reprodução filogenética, ontológica e cultural da espécie humana. 

Diante deste cenário, o egoísmo passou a ser uma força a ser combatida e as grandes religiões, os Estados-Nação, a Família e a própria Sociedade vê-se diante deste ato heróico, acreditando ser o egoísmo o principal obstáculo à declaração da paz, da felicidade e da justiça humana na Terra.
Porém, a Natureza em sua infinita sabedoria nos traz reflexões pertinentes ao egoísmo enquanto fonte nutridora da vida humana, afinal, há dentro de nós outras vozes quase nunca ouvidas pela nossa racionalidade desmedida e pela nossa vaidade moral descabida. 

Quando de posse do nosso espírito, conectados com nosso Eu Superior, sabemos que não existe tal missão heróica e de que ao tentarmos salvar a todos, despossamos a nós mesmos de todas as virtudes e de todas as forças que nos sustentam. Assim, em nome de nossa vaidade moral, guerreamos., sacrificamo-nos, abandonamo-nos, silenciamos nossas vontades, abolimos nossos desejos, apagamos a chama que mantem a nossa própria lucidez. Apagados ficamos, assim como diante do espelho e incapazes de vermos o nosso próprio reflexo. Nossa vaidade moral, deixou-nos, por isso, cegos. Grande parte de nosso sofrimento e de nossas exaustivas lutas [quase sempre em vão] nos revela a medida de nosso abandono em prol de certas utopias que custam-nos a própria alma. Ora, salvar a nós mesmos é uma tarefa, uma missão por toda uma vida, diante dos obstáculos e das ilusões que precisamos diariamente driblar com a postura ereta e o brilho fumegante nos olhos. Sem isso, sentiremos na pele a  escassez da vida. 

A sedutora adesão aos procedimentos morais que nos alienam, fazendo-nos instrumentos do bem-estar alheio nada mais é do que a nossa progressiva perda de forças que norteavam a nossa jornada em busca de nossas realizações.
Egoísmo não significa, como o senso comum costuma asseverar, crueldade ou indiferença ao outro. Não significa, tampouco, a nossa afirmação em detrimento a anulação do outro. Não! Egoísmo entendido como força natural presente em todos os indivíduos é a motivação para que sejamos senhores de nós mesmos, aprendizes das lições da alma; sujeitos sincronizados com as nossas urgências internas. Por vezes, precisamos nos recolher e despojar-nos das vestimentas dos heróis que acreditávamos ser.

Quando somos autênticos à nossa personalidade, às nossas vontades e a tudo aquilo que nossa alma enseja, somos mais competentes do ponto de vista cognitivo e emocional para desenvolver projetos que possam beneficiar o outro e até mesmo ao mundo, pois essa força erroneamente classificada como 'egoísta' é o impulso interno que realiza-nos como pessoas, mas cujos frutos estendem-se inexoravelmente para o mundo exterior. Somente quando estamos suficientemente conectados à nossa própria essência e com respeito digno aos nossos impulsos internos é que somos verdadeiramente produtivos e (com)cientes.  Ao creditar importância demasiada à verdade ou a miséria do outro, negamos o nosso próprio poder pessoal criador e nos tornamos escravos e vítimas do incessante ciclo de perdas e danos que tornam-se mais intensas na medida em que nutrimos a falsa humildade de nossa pequenez diante do universo. Entretanto, não podemos confundir as diferenças de perspectivas: somos pequenos diante das imensas possibilidades cósmicas e da criação como um todo, pois cada um de nós somos parte delas com uma existência demasiadamente curta para experimentar a todas elas. Contudo, somos imensos quando tomamos posse de nossos poderes internos. Somos mais em nós mesmos e nosso vigor interno se reproduz em nossas ações e contribui para a melhoria da egrégora universal do Cosmos. Sem isso, nossas razões e emoções fundamentadas na ideia de mudar o mundo não passam de quimeras. 

Não seria tamanha pretensão e a mais cega das ilusões querer mudar o mundo quando somos incapazes de mudar a nós mesmos?! Que contribuições férteis proporcionaríamos ao mundo quando dentro de nós estamos completamente esvaziados? Nús, famintos e com sede...

Ser egoísta é, por vezes, ato de coragem e de autosuperação. É, também, uma das mais nobres lições do despertar das ilusões. Apenas quando sentirmos no mais recôndito de nossa alma que temos, nada mais e nada a menos, do que a nós mesmos é que aceitaremos esta importante lição. Somente diante desta aceitação redentora que poderemos obter êxito na epopeia existencial.

Por isso, ultimamente ando desfazendo-me de muitos excessos; de palavras, de gestos, de atos, de importâncias, de covardias, de mecanismos de defesa falhos.
Estou abandonando as influências e as invasões que causam-me mal-estares e angústias, estou selecionando e filtrando com mais exatidão os conteúdos que desejo para a minha vida, negando toda a parafernália que não me convém. Estou negando certas emoções e sentimentos opostos às minhas aspirações. Estou, pouco a pouco, me libertando do excesso de deveres inúteis e das considerações infames de outrem. Estou retendo o que ascende a minha alma e o brilho sincero no olhar ao passo que dissipo as sombras do passado, os pesares e as recordações amargas. Nutro o que jaz doce e renego o fel das vicissitudes agonizantes e dos hábitos nocivos. 

Desta vez, me rendi à emoções legítimas e a sentimentos mais nobres, àqueles que me traduzem, que me motivam, que fecundam a alegria genuína e os contentamentos no solo da alma.

Desiludir-se, sem dúvidas, é a mais potente das lições pois concebe-nos a leveza e refina as nossas percepções e intuições mais profundas. 

Assim, eu disse adeus às ilusões, partí para o campo meditativo do silêncio e contemplei a natureza íntima a florescer majestosamente em cada fibra do meu ser...



Nenhum comentário:

Postar um comentário