quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Tempo e Tédio: o manancial de tormentas





Night is coming and there's nothing left to stay
Nothing changes,everything has gone away
No eternity,no hope for me and you..

Não creio que haja no contexto da existência humana duas unidades metafísicas mais impactantes do que o Tempo e, por dissonância e derivação, o tédio.
Na verdade, a existência do homem não passa de um gigantesco esforço pela equilibração entre o tempo sufocado e o tempo esterilizado, isto é, entre a vida em perturbadora excitação pelo excesso de compromissos, deveres, afazeres e desejos infinitos, os quais torna-o exíguo, efêmero e, por outro lado, a vida que jaz escassa, depressiva, onde o tempo existe em demasia e não há impulsos, ações ou desejos que o preencha. Este, um monstro diante da vida reduzida, da existência em miniatura, da vida reproduzida, da retidão absoluta, provoca os mais violentos abalos à consciência, pois, de certa forma, acreditamos que o mal uso do tempo ou o seu desperdício é fruto de nossos próprios desequilíbrios e conflitos internos. 

Na primeira das instâncias, o tempo passa numa velocidade muito superior à nossa própria capacidade de processamento das informações que chegam constantemente aos nossos sentidos, não o sentimos em presença, mas sempre em ausência, e nos tornamos cativos de sua presença, tão feroz é o desejo do humano por ampliar o espaço do estar no mundo - desejando criar, desfrutar, construir, amar - por ser um ente dotado de urgências infinitas e, por acreditar, que nada fora suficiente e que, por isso, era preciso mais... 

Na vida contemporânea, este é o tempo mais característico de nosso cotidiano e, como se não bastassem as urgências, ainda há, nas profundidades de nosso espírito, o desejo por um "tempo" para nós mesmos...um tempo que nos liberassem, temporariamente, da esfera produtiva,  um tempo mais autêntico, um tempo servido às vontades da alma e por ela, escrito.

Em contrapartida, na segunda instância, temos o tempo em excesso e a advertência permanente de nossa própria dissolução progressiva ante a possibilidade do cessar de nossas forças, de nossos poderes, de nossa capacidade criativa. Nesse sentido, o tempo assume uma presença fantasmagórica assustadora, pois denuncia a  nossa estupidez frente ao excesso de átimos, todos desperdiçados pela inércia e pela patética reprodução da vida com os mesmos traços, as mesmas cores, as mesmas notas musicais, na persistência do velho estribilho de dias que passam na mais desinteressada incompletude. 

Quando do tempo faz-se o tédio, o ciclo de dores e de torturas se inicia, pois é neste estado dormente da alma que vozes trêmulas e coléricas ecoam em nossa mente, julgando-nos e condenando-os pela  nossa apatia e indiferença estampada na languidez da face e na sonolência da alma.
Ah, Tempo, este exíguo eremita sempre sufocado entre os deveres e o ócio dos homens, sempre a converter momentos em fragmentos passados, a fazer da intensidade dos acontecimentos, memórias póstumas e das emoções puras e inexoráveis, um retrato petrificado de sorrisos não mais úteis..

Apesar do tédio que aborrece não apenas a nós, como ao próprio tempo ao decretar o seu assassinato, frequentemente absorvemos a noção de tempo apenas em razão de sua breve passagem, mas dificilmente o sentimos como calorosa presença, como um caleidoscópio de possibilidades de ser e de estar no mundo.  Raramente o vemos em sua expressão jovial de permanente criação e renovação. Ele parece-nos sempre de passagem e parece ser averso à permanências, embora seja de uma concretude singular, de uma solidez provável pelo peso que assume em nossa existência.

Todavia, esta ideia é tão absolutamente abstrata do tempo que somos incapazes de assumi-lo como ente que, a todo momento, nos transpassa, nos inspira e nos move. Daí reside a dificuldade de muitos em entender o próprio espírito da Arte que alguns bons artistas souberam expressar na sua relação íntima com o tempo. Em geral, os artistas são os grandes arquitetos do tempo, pois a presença deste é tão marcante nas obras que não paramos para olhar a pulsação do tempo que vibra entre cores e traços.

Para nós, mortais que temem o passar agitado dos dias, o tempo é este senhor de vestimentas negras que nunca revelara a face, mas que passa batendo o seu cajado, demarcando o que era há pouco, mas que não jaz mais, anunciando ora vida e ora morte. O tempo é, pois, tudo aquilo que nos escapa, que não podemos reter. Nem mesmo as nossas memórias nos pertencem. Há acidentes e incidentes que podem furtá-las e isso aponta para a própria limitação de nosso aparato biológico e cognitivo. O tempo os altera temporária ou indefinidamente.

Na dinâmica da vida humana, o tempo é, frequentemente, tomado em seu sentido teleológico, ou seja, é o princípio pelo qual analisamos finalidades ou causas finais da existência. O tempo organiza cada unidade de nossas experiências e demarca grandes acontecimentos, sagas improváveis do espírito errante, bússola dos aventureiros, farol para o desembarque em terra firme.

O tempo é este eterno girar de ponteiros em profundo orgulho por sua exatidão; é esta incessante máquina universal que nos consome lentamente, que abre fissuras e cicatrizes na pele, que curva-nos no caminhar, que fraqueja os ossos e músculos, que anuncia o gradual declínio. Contudo, a civilização ocidental, ao associar a passagem do tempo unicamente à decadência, obscureceu outro fato fundamental sobre o tempo: de que ele é,  também, o responsável por nos tirar dos estados desertificados da consciência, quando o tédio nos entorpece e mortifica os nossos sentidos. O cajado deste senhor é tão certo que a leve vibração deste na superfície de nossas ilusões soníferas é capaz de nos levantar, fazendo de um singelo átimo, uma vida, toda uma vida. São episódios ímpares onde num insiste se faz ou refaz toda uma existência.

A nossa relação com o tempo pode ser-nos absolutamente favoráveis como, também, pode ser das mais conflitivas. Isso porque nem sempre estamos preparados para termos certezas dissolvidas e nosso histórico avolumado por fatos, situações e emoções cristalizadas que há pouco eram-nos tão vívidas. Não é toa que muitos de nós nos sentimos póstumos, às vezes. Não é a toa que em certas ocasiões precisamos da poeira e das ruínas para entender o real significado do que um dia fora inteiro, firme e imponente.

Somos facilmente seduzidos pela ideia de eternidade e a presença do tempo é, por vezes ameaça, crime e castigo. Desejamos violentamente aniquilar quaisquer finitudes que abreviem os nossos sonhos, as nossas criações, emoções e a própria vida, este instrumento nutrido pela nossa ânsia de desejos múltiplos e infinitos. 

Penso que mais do que os afetos e as paixões da alma, o que verdadeiramente nos afeta é a passagem devastadora do tempo  e nossa vulnerabilidade ante às suas consequências. Enquanto poder-se-ia gerenciar pensamentos e afetos, sublimando-os ou encarando-os, o mesmo não ocorre com o tempo. Sua externalidade é inacessível e, nesse sentido, torna-se imaterial.

Tempo é Juiz e Tédio, frequentemente, é a nossa penitência. Não passamos pela vida imunes às cobranças e advertências à despeito do que fizemos com o conjunto de átimos que nos são concebidos. E basta negligenciá-los para adoecermos, pois a vida é este movimentar-se incessante que nos lembra, a todo instante, de que estamos situados dentro de um espaço de tempo onde começamos a morrer quando nascemos e que precisamos correr para fazer de cada instante um legado significativo para a alma quando nada mais nos restar. A ideia da perenidade é, pois, funcional à logicidade do tempo. Todos os ecossistemas e ciclos da natureza são regidos pelo maior dos maestros, o tempo. Cada centelha de vida a ele responde, a ele se deita, a ele se funde e sucede, em alguns casos que ser e tempo se condicionam mutuamente. Este talvez seja o máximo que podemos nos aproximar do tempo.

Tédio talvez seja o mais trágico acidente do tempo, pois este pára de incitarmo-nos e, assim, ficamos prostrados num cenário de estúpidas reincidências e, assim, nossos instantes são tomados pelo insustentável peso da mesmice, da vida desfolhada em dias repetitivos, da história reeditada e reproduzida.

O tempo também é a ideia abstrata que regulamenta os códigos, preceitos e procedimentos na sociedade humana. É, por conseguinte, a unidade metafísica mais administrada e hierarquizada pelas suas instituições. Para a  Previdência há tempo de envelhecer e de cessar a produção, para as Igrejas há tempo de receber as bençãos divinas e tempo de esperar a Graça. Nas Escolas há tempo de aprender e de ensinar. Há tempo de exibir nossas ingenuidades e tempo de afirmar nossa malícia. Há tempo e circunstância exata para se dizer um 'sim' ou um 'não. Tudo fora tão metricamente e cronologicamente calculado que os atrevimentos atemporais e o rompimento de ciclos normalmente terminam em consequências dramáticas. 

Ora, que miséria habita o centro da existência em sua singularidade e autenticidade mais legítima quando fazemos de nosso percurso um fluxograma a  ser seguido! E  como somos marcado à ferro e fogo pela ideia de um tempo que nos define integralmente, que quer ditar-nos nossa posição no mundo.

Aniversário é qualquer coisa menos festividade do espírito, pois ele é o dado mais realçado em nossa cédula de identidade, após o nosso nome. É o registro de quem deveríamos ser e aquela velha foto atada a esta cédula é, por vezes, a ideia de que temos de nossa passagem. Todos os anos somos visitados pelo Tempo, este andarilho que vem averiguar os frutos de nossa caminhada e cobrar-nos os tributos e as promessas. 

Nossos planos, nossos objetivos e aspirações  se baseiam, em grande parte, pela ideia do tempo e pelo horror ao tédio, este, manancial de tormentas. Nossas falhas em relação ao tempo pode-nos ser das mais desagradáveis e cruéis, mas sua visita também nos devolve a capacidade de transcendermo-nos, rejeitando aquilo que nos anula ou que nos é absolutamente desnecessário. Destarte, há tempo, também, para reagirmos à tempo. Há tempo de decretarmos um novo tempo, há tantas auroras...

Há tempo de anunciar e de renunciar
Há tempo de nascer pelo amor e pelo amor se desvanecer
Há tempo de desatino e de redenção 
Há tempo de espera e de ação

Quando negamos o tempo, temos vidas secas e de sua escassez tem-se o tédio, a indisposição, a negação e nulidade para com os encantos da vida, as surpresas e as emoções do devir.

Sempre é tempo de espanto, de surpresa e de contemplação...

Sempre há tempo de se descobrir algo, de se desbravar uma floresta, de alcançar o ápice de uma montanha. 

Há tempo para nos re-descobrirmos, tempo de escutarmos os suspiros da alma, tempo de aflorarmos a sensibilidade dos nossos sentidos, tempo de buscar um novo sentido...

É-me tempo de reformar os jardins da alma, tempo de me retirar daquilo que não mais me pertence, ou que nunca me pertenceu. Tempo de dizer adeus, tempo de deixar certos aposentos, tempo de migrar, de ir a um outro extremo.


É tempo de quê em sua alma?!




Nenhum comentário:

Postar um comentário