terça-feira, 9 de dezembro de 2014

O Esclarecimento em Kant - A auto-responsabilização como norte, a interiorização como a mais potente das virtudes

Ler os tratados de Kant a despeito do esclarecimento faz suscitar-nos alguma reflexões pertinentes ao homem contemporâneo no que tange à questão da auto-responsabilização e dos processos de interiorização, por conseguinte.
Em seu discurso sobre o Esclarecimento, Kant revela como a consciência e lucidez do homem para com ele mesmo talvez seja os últimos dos recursos de auto-libertação, de emancipação através da mudança de posturas e perspectivas.
Aqui partimos da ideia de que o mundo e seus processos não existem a priori do significante, ou seja, do ente que dará sentido e fundamentará a sua existência no mundo. Sendo assim, a necessidade natural de tranformação e de liberdade, pressupõe que sejamos os legítimos arquitetos deste projeto de mundo, de ser e de vir-a-ser.
Implica, nesse aspecto, numa auto-responsabilização como norte para as mudanças que queremos ser. Ser deve ser a priori da ação. Querer mudar o mundo ou as condições do mundo sem operarmos uma transformação em nós mesmos, é fazer de nós soldados cegos numa guerra sem propósitos. Nesse sentido, Kant assevera que se o indivíduo for incapaz de estabelecer um compromisso para com ele mesmo, na perspectiva de sair da posição de menoridade, da existência tutelada, jamais chegará ao esclarecimento e, consequentemente, ao próprio progresso. 
Se não for no e pelo sujeito a emancipação, a história não se encarregará de mudar. Ora, acreditar que somos frutos de um projeto societário injusto, que somos opressores na medida que nos elevamos e oprimidos na medida em que nos submetemos é, por fim, negarmos nossa singularidade, nosso poder pessoal, nossa diversidade, nossos infinitos mecanismos e recursos psicológicos de que nos valemos para enfrentar o sofrimento, onde triunfamos e fracassamos de acordo com nossos erros e acertos. No final, estamos todos experimentando o vir-a-ser, para, enfim sermos.
A vida seria um erro na inútil batalha pela uniformização de todas as coisas. Atribuir nossas desgraças, dramas e sofrimentos a um fantasma, a um gigante, a um bloco, a uma ordem social, não passam de mecanismos de defesa que provém de nossos medos e da nossa ignorância frente a nós mesmos.
Na atualidade, a tendência de criticarmos ferozmente o mundo concreto tem-nos desvirtuado para as tantas perdas de nós mesmos em meio às superficialidades da vida mundana. A interiorização deixou de ser hábito filosófico. A contemplação deu lugar ao pragmatismo e a velocidade. A ideia de que somos uma espécie que mais sobrevive do que vive, de fato, tem-nos lançado à um profundo descontentamento da vida e a consequente perda da nossa conexão interior. A densidade do esclarecimento kantiano foi corrompido pelos gritos de guerra marxistas, no qual toda a nossa capacidade de construção e todos os nossos potenciais de transformação interna são reduzidos à "consciência de classe", o que [a grosso modo falando], significa é que somos vítimas de estruturas injustas e que nossa tarefa consiste em desmantelar as ordens assentadas na riqueza, a luta pela uniformização de todas as posses, a aniquilação do erudito pelo popular. Uma proposta de revolta, porém sem soluções que englobem a condição humana, como se nós fossemos meros produtos de um ambiente social. 
Eis uma proposta que nos leva sempre a tutela exercida pelo Estado, Família e Sociedade. As determinações sociais do indivíduo não são mais do que explicações que reforçam a própria incompetencia e menoridade do ser, tirando-lhes a dignidade da responsabilidade. E sem assumirmos a responsabilidade pelos nossos atos e posturas que, em grande parte, desenham a nossa realidade interna e externa, a humanidade estará fadada à escassez dos discursos materialistas disseminadoras de ideias limitantes, propagadora das vicissitudes modernas que a isenção do sujeito dos males que ele mesmo cria, pois o que é a sociedade senão a reunião de homens circunscritos num espaço que ele mesmo criou?
O materialismo histórico e dialético em Marx nunca promoveu a liberdade do ser, apenas buscou formas de justificar a miséria humana, cristalizando-a e tomando-a, ainda, como fato imutável ou apontando a transformação como negação do progresso. Afirmando um homem através da derrota de outro. Elogiando a miséria e difamando a prosperidade. 
Cada desresponsabilização do ser para com o mundo é um grilhão a que se rendemos por acreditar que nada nos pertence, de que nada está contido em nossa natureza. De que somos ausentes de essências e de substâncias que nos movimentam neste mundo. Um convite à uma crise epilética, onde marchamos politicamente, mas somos complemente esvaziados de nossa própria subjetividade.
Que ideia terrível imaginar que somos e existimos no mundo a partir das condições definidas por outrem. Que alucinação imaginamos na impossibilidade da escolha, de que nossos pensamentos e destinos estão nas mãos de outrem e que nos resta apenas sangrar na tentativa de um dia podermos ser todos iguais. A ditadura do igualitarismo tia mais do que a nossa autenticidade, rouba-nos a identidade e a dignidade.
Se o materialismo histórico tivesse domínio sobre os grandes exemplos de progresso e esclarecimento, seriamos sociedades tribais pautadas num igualitarismo totalitário.
Instituir uma igualdade apenas como utopia, como ideal sem que se coloque a responsabilidade, a iniciativa e o comprometimento do sujeito com mudanças que devem ser aquelas dirigidas a ele mesmo ou que tenha efeito social é hipotecar a liberdade humana aos líderes tiranos [que não tem nada de igualitário em relação aos liderados] e conceber privilégios aos que não possui comprometimento algum e, que mais do que isso, promovem a regressão de outrem. 
Aposto, pois na auto-responsabilização enquanto horizonte para o nosso projeto de existência e na interiorização como a mais potente das virtudes. Responsabilização como ação e Interiorização como libertação. Eis os recursos tão inerentes à condição humana e tão frequentemente hipotecados pela inconsciência de nós mesmos. Pelos espelhos e janelas vemos o mundo e, dentre tantos seres viventes, somos míopes na tarefa de buscarmos e recorrermos ao nosso "Eu" Maior.
Recusar as fórmulas prontas, resistirmos à tendência de nos vermos como vítimas do caos talvez seja a proposta de maturidade que um dia Kant  brilhantemente versou.
Salvaras, tú?! 

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