segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Lições de Dramaturgia Laboral: Ato I.: A escolha dos personagens



Notas preambulares ao (con)texto:

¹Anti-herói: é o termo literário que designa o personagem caracterizado por atitudes referentes ao contexto do conto contemporâneo, mas que não possuem vocação heroica ou que realizam a justiça por motivos egoístas, pessoais, vingança, por vaidade ou por quaisquer gêneros que não sejam altruístas, ou seja, é o antônimo da ideia que se tem de herói. A maioria dos anti-heróis da ficção são mais populares que os heróis clássico [talvez porque revelam as dimensões mais genuínas da condição humana].

Burrhus Frederic Skinner² (1904-1990): cientista e psicólogo americano que acreditou na possibilidade de controlar e moldar o comportamento humano. Foi um dos mais célebres pensadores da área do Behaviorismo, uma corrente dominante na psicologia até 1950. Em seus últimos anos de vida, ele construiu, no porão de sua casa, sua própria “caixa de Skinner” – um ambiente controlado que propiciava reforço positivo. Sua obra é a expressão mais célebre do behaviorismo, corrente que dominou o pensamento e a prática da psicologia, em escolas e consultórios, até os anos 1950. 


Segunda-feira...

O relógio marca 07:00hs, mas as cortinas do palco abrem a partir das 09:00hs. Cartazes e letreiros digitais extravagantes informariam, de pronto, a programação do dia.

Estou a referir-me, metaforicamente, ao local de trabalho, este lugar cujos acontecimentos alternam, incessantemente, entre o cômico e o trágico. E notem que, 'programação' tem seu evidente duplo sentido neste contexto. Trata-se da nossa auto-programação no esforço de sermos ótimos intérpretes. É a programação que também nos estipularam e que, de muito mal grado, fizeram de nós, uma programação de entretenimento e, também, de doutrinação a outros tantos. Programação de massa.

A cada novo dia de trabalho há um espetáculo a ser apresentado, peças a serem ensaiadas, coreografias e performances a serem discutidas em detalhes, esperando que as melhores acrobacias atinjam, por fim, os objetivos organizacionais propostos.
De segunda a sextas-feiras somos chamados para o estrelato, ninguém foge à dramaturgia laboral, afinal, este processo é inerente ao sucesso de...de quem?! Não nos disseram. Tudo se resumira a aceitar ou não os papeis. A isso se denomina processo admissional. Admitir-se-ia vestir diariamente um personagem, uma desconhecida entidade que, em pouco tempo tomaria-lhe o corpo, os olhos, os ouvidos e a boca? Ao menos, há quem defenda a arte da interpretação. Há quem julgue a importância de lutarmos pelo personagem que devemos ser, afinal, quando subimos ao palco, inexperientes e constrangidos, nada somos. Foi o que disseram. Fizeram-nos acreditar que aquele ser que jaz encantado sob a luz dos holofotes não é, senão, um mero aprendiz, servo, servidor e provedor. Contudo, sabe-se que a dramaturgia não foge ao clássico maniqueísmo e que, portanto, a performance de cada um sempre tenderá para as conquistas do herói ou para as desgraças e infortúnios do vilão. Ser herói e/ou mártir é o toque final dado a cada ator. Esse era o objetivo final, o desfecho principal.

O anti-herói¹ sempre é descartado do contexto cênico das corporações, fato que leva o seu obscurecimento nesta narrativa. Contudo, dou-lhe um crédito e, assim, falo um pouco desta figura tão detestável à engenharia humana do trabalho. O anti-herói sempre é, no mínimo, desinteressante à Cia, pois sua postura é sempre imprevisível, suas falas costumam ser estranhas ao conteúdo original dos roteiros, seus pensamentos quase sempre falam mais alto do que as palavras que lhes foram autorizadas a proferir quando em público. Havia o que alguns consideravam como excesso de criticidade e isso quase sempre soava ameaçador e evitava-se, sempre que possível, o tormento da expulsão de rebeldes. Não seria uma atitude louvável e, muito menos, encorajadora aos demais, por isso evitava-se também as algazarras.

Diferentemente dos papeis caricaturais e dos clichês claramente identificáveis na figura do herói ou do vilão [o que os tornam absolutamente previsíveis e repetitivos] o anti-herói, por outro lado, é incapaz de definir-se a partir de um destes dois polos. Até certo ponto,  ele vive a liberdade de ser, e isso significa, do ponto de vista cênico, que ele pode modificar, sem maiores delongas, todo o curso da estória [ou da história]. Ele pode, por exemplo, questionar, discutir e até mesmo inverter certos preceitos e valores que, tendencialmente, se repetem nas peças teatrais clássicas. Eis o perigo: estar defronte a revelações indesejáveis. 

Além disso, de maneira geral, torna-se praticamente impossível apreendê-lo durante sua exposição.; registrar seus traços, antecipar seus passos, prever seus atos. Compreendê-lo passa pelo fato de aceitarmos suas atemporalidades e seu talento peculiar de fazer-se, sempre, absolutamente incompreensível. Ele não dita ou segue regras, abruptamente as esmaga corrompendo todos os códigos social e moralmente aceitos. Ele não é ditado, é sempre improviso. Não é igual a tantos outros, é sempre singularidade. Seu talento reside em sua perspicácia, criatividade e boas doses de humor sarcástico. Mesmo sarcástico não é mau. Ri da tragédia de fora e, mesmo assim, é aquele que salva, aquele cura, aquele que liberta. Não tem poderes divinos, mas a partir dele faz-se milagres. Durante uma interpretação, quase sempre o espectador se depara com a dificuldade em descrevê-lo ou de decifrá-lo. De fato, não há um fio condutor seguro nas narrativas quando na presença do inusitado anti-herói. Tudo jaz absolutamente solto, suspenso nas entrelinhas. É justamente por isso que ele não é, assim como os personagens 'comuns', suscetíveis à modelagem e a adaptabilidade requerida de todos os atores contratados. Na verdade não haveria, sequer, possibilidade de contrato. Não vendera a alma.

Mas, os sujeitos 'comuns,' ao adentrar os corredores estreitos e acinzentados daquela imensa confraria, saberia que haveria uma pilha de folhas escritas a serem estrategicamente entregues a cada ator-mirim. Quando ingressamos em nosso ofício, não  escolhemos papeis, enredos ou cenários, estes já estão postos a priori e, ao chegarmos pela primeira vez à nosso posto de trabalho, já sabemos quem somos ou, melhor, quem iremos ser. A ideia ainda não nos é suficientemente clara, mas ela vai adquirindo uma progressiva solidez quando lançados ao jogo da (sobre)vivência. 

Em cada um dos dias, somos conduzidos a um labirinto. Lá ficamos, experimentamos e somos experimentados a todo momento. Tal como uma imensa caixa de Skinner², somos pequenos ratinhos em desespero até acharmos, finalmente, a barra que nos proverá com o alimento mais que esperado.
Quando tomamos posse de nosso papel, no exercício de nossa função, somos despossados de certas características humanas para absorvermos aquelas que constam em nosso roteiro. Assim, descobrimo-nos em processo de construção. Assim que fomos hipotecados, assim nos alienamos. Empreender esforços gigantescos na luta pelo herói que disseram estar dentro de nós passa a ser a nossa profecia. Prometeram-nos, motivação, realização, fama e até felicidade...

Dizem que é o trabalho que dignifica o homem... desconfio de tal provérbio, pois dignidade nunca existiu à posteriori e nunca foi exógena ao homem, ela é inerente ao humano! Nosso erro foi o de subtraí-la de nossa própria condição e, lamentavelmente, lançá-la à roda da fortuna da existência terrestre deixando os homens à eterna procura de sua integralidade e realização naquilo que jaz fora. Pobre mortais! Passariam a vida toda a procura de um fio de dignidade [um fio!] e, assim, prosseguiram fadados a nunca mais encontrá-la. Perder-se-iam numa saga mortal e viver-se-ia no incomensurável vazio. 

Voltemos à dramaturgia liberal. Nela, o ator é improviso, mas seus papeis, suas vestimentas, posições, gestos e comportamentos já foram devidamente escritos e catalogados em documento confidencial. Este é sempre o parâmetro para se mensurar as habilidades e talentos do ator antes, durante e após um ato performático. E é, principalmente, o paradigma de que se valem os diretores do espetáculo para avaliar as características e os atos que devem ser modificados para melhor se adequarem aos fins propostos. Compatibilidade e adaptação fazem parte da companhia corporativa de Artes Cênicas.

Um curioso enredo é o primeiro de nossos instrumentos de trabalho: nele constam longas narrativas a respeito de quem devemos ser e até que ponto poderemos ser. Há um exaustivo manual de recomendações ao bom ator e o resultado de sua performance fará a sua sorte ou o seu infortúnio. Todos os trabalhadores tem o dever de absorver cada recomendação e de deixar o manual sempre por perto. Na hipótese de esquecer-se em demasia, lá naquelas páginas previamente escritas, estaria o script, as advertências, os aconselhamentos. Era, pois, um guia de consultas. [Não, não era a consciência mais este guia]. Mas haveriam ainda o cortejo de 'boas-vindas', o 'aquecimento', os alongamentos e os treinamentos. Tudo estava incluso nos pacotes e cada dia de trabalho fluía a partir de seu conteúdo modular.

Os primeiros dias de trabalho, na verdade, se constituem em pequenos workshops destinados aos iniciantes, vulgarmente chamados de amadores. Aqueles que ainda não são, propriamente, para a empresa, são sujeitos que estão nos degraus do 'vir-a-ser'. Ainda haveria um longo script a ser internalizado.

O desafio era despojar-nos dos personagens interpretados por horas afinco, ao final do expediente. Todos costumavam voltar para a casa com a forte impressão de seus personagens e, em muitas ocasiões, ocorriam-lhes que estavam a proferir a entoar as mesmas palavras e a repetir os mesmos gestos. Haveria desafio maior do que sermos quem somos em meio a um filtro de impedimentos e nulidades impostos pelos grilhões laborais. O desafio de ser si mesmo em meio a tantos personagens... quais estratégias empregarias  para não cair em perdição nos entreatos da vida profissional que jaz impiedosamente?!

Deixemos o crepúsculo desta tragédia para o próximo ato...


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