terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Confidências à meia-noite (III. A vontade de potência)
"O mundo visto de dentro, o mundo determinado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais” – Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §36
(...) Fez-se luz...
Alcançara horizontes longínquos
Alguns desconhecidos
Todos perspícuos
A alma, enfim, governava livremente
E, por isso, tudo era vívido e insurgente
Renascia não mais o homem, o tolo, o flagelo
Era o super homem, o supra-humano
Transcender acarretava os seus riscos
As vontades eram infinitas
Os desejos eram urgentes
E os caminhos sempre desconhecidos
Havia, ainda, um confronto com a matéria
Havia o tenebroso badalar da meia-noite
E tudo voltaria a ser pequeno, frágil e miserável
As asas haveriam de ser recolhidas
Superar-se na pequenez do mundo humano
Sangrar e, mesmo assim, caminhar de rosto erguido
Fazer da sabedoria, sua potência
De sua autenticidade, a defesa feroz
Afirmar-se, efetivar-se, tomar-se nos braços
Viver seus próprios princípios e verdades
Lutar para ser e para estar onde se deseja
Eis o desafio, o drama, o duelo
Haveria espaço para as almas extensas
na mesquinhes do mundo dos homens?
Quanto se ganharia?
Quanto de si se perderia neste jogo?
O homem que tivera asas
agora sente a aspereza do solo
Homem que semeia sonhos em terra fértil
À meia-noite deve recolher-se em deserto estéril
Outrora era livre e solitário
Condição que lhe permitia ser mais...
Agora era subordinado às multidões
Em meio a tantos, era incapaz de ver-se.
Ver-se...
Não tinha vontade de somar-se a outros
Desejava transbordar-se em reclusão
Precisava de si e, sem asas,
o caminhar era árduo, a vida, exaustão
Desejava ser o todo, estar em tudo
Buscava sentidos para além do imanente
Não bastava em apropriar-se do existente
Desejava criar, criar-se, desenhar e desenhar-se
Não se contentava com a certeza das superfícies
Desejava o mistério das profundezas
A vontade de ser o tornara forte
A ventura da alma era seu único norte
Negara o lugar comum,
o mundano e o ridículo
Pois flertara com o excêntrico
E fora seduzido pelo extraordinário!
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