quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O "apesar de..." à posteriori das desilusões


"Apesar de"... Não existe advérbio seguido de uma preposição que mais se aproxime de uma descrição plausível da produção e reprodução da vida. É o estalido, o lampejo da alma, a epifania que, de súbito, desperta-nos para a ação. O "apesar de", é o consolo das desilusões que abalam nossas estruturas mais sólidas...Apesar de...é a vida que escorre, a emoção que nos escapa, os ponteiros do relógio que teimam em girar quando desejamos, em vão, sequestrar nossos momentos de singelo contentamento. É o motor que nos move, a mola propulsora para a vida que deseja ser vivida.
Num longo e inexato caminhar, estamos, pois, lançados à própria sorte. Não há heróis, não há mártires, não há "escolhidos". Tampouco há sorte, destino e coincidências. 
A vida é absurdamente humana e a existência desprovida de neutralidade é experiência igual e demasiada humana. A Terra é concreta demais para ser palcos dos deuses. Não os temos, embora lutamos para incorporar os seus traços mais veementes.
Não há certezas sobre o passado, tampouco, sobre o futuro. Existe apenas o poder do agora.
Somos todos escolhidos num imenso tabuleiro de xadrez vivendo ou sobrevivendo. Depende de seu ponto de vista. Colocando em xeque verdades até então aceitas como veracidade incontestável. Tudo é uma questão de perspectiva. Tudo depende dos sonhos lúcidos alimentados inconscientemente. Sonhos lúcidos e inconscientes? Questionava-me tamanha ousadia na contradição. Mas eis a resposta tão simples: não existe nada lá fora. O mundo é liquefeito, a arquitetura da Terra é erguida para além da física. Tudo é metafísico. O que observamos todos os dias só é a partir do que verdadeiramente creemos. Em essência, somos tão amplos, tão etéreos que a vida concreta é apenas um grão de areia soprado em meio aos torvelinhos de ventos. Pode-se mais e mais, dependendo de como nos posicionamos na escala da vida. A realidade é um véu de seda, a realidade é frágil, a realidade é nada...
Somos passageiros de uma imensa viagem sem destinos prévios, cada qual desenhando suas próprias paisagens. É bem verdade que algumas dessas paisagens se cruzam com tantas outras e podemos, sim, ser personagens na realidade de outrem. Mas nem mesmo esse encruzilhar de milhares de fios-vidas deixa-nos envoltos pela singular individualidade. 
Para quem sente em demasia os abalos sísmicos deste eterno bailar do mundo há sempre a vontade de fazer tudo paralisar para, enfim, tirarmos férias de nós mesmos ou, com mais intensidade, das realidades que nos sequestram a alma, pois quantas vezes já não fomos prisioneiros duma dimensão alheia? Forasteiros em terras estranhas, mantidos em cativeiro, encarcerados nas sarjetas, seduzidos por promessas no paraíso...A consciência de nós mesmos - que tanto se expande na medida em que nos tomemos por completo - leva-nos ao caminho de volta. O "apesar de" sempre nos mostra o caminho de volta e somos lançados, na lucidez, de volta em nosso lugar nessa locomotiva.
Apesar de... o histórico de nossos ganhos e perdas, espelho que reflete, não propriamente, a nossa genuína imagem, mas o retrato acurado do que fizemos de nossas possibilidades...

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