domingo, 22 de novembro de 2015

A magia da simplicidade: um espetáculo cujas cortinas jamais se fecham.

E naquele dia aprendi a mais bela e significativa das lições: de que toda a magia do mundo residia na simplicidade, este truque da natureza no qual sentimos extremamente ricos e prósperos na dimensão do  vazio. É justamente desse despojar-se de tudo e de nossos próprios excessos que ponho-me a discursar. Porque teve um dia que acordei querendo pássaros a soar seus cânticos poéticos no meu quintal, houve dias em que eu desejava rajadas de ventos tateando fortemente  vidraças. Nutria o desejo pela força e pela calmaria que se despendia do suspiro Em outros dias acordei desejando neve, sentindo os flocos a avolumar-se no meu casaco, a desenhar-me as linhas da face . Sonhei em sentir as forças da natureza a me carregar no colo para depois repousar no solo e despertar com o cheiro da terra molhada e a argila a hidratar-me a pele, a penetrar em meus poros e a relaxar os músculos já fraquejantes. Intencionava observar o orvalho da manhã e caminhar em direção às brumas para nelas me perder. Desejava a simplicidade de um sorriso sem motivo, daqueles que ficam impregnados por instantes diante do maravilhar-se. Maravilhar-se com o que? Com os desenhos nas nuvens do céu, com a possibilidade de descer as montanhas como tobogã, de ralar joelhos e cotovelos de ver os arlequins passarem todos maquiados  nas ruas, causando risos na cidadela ao longe, desejava os gracejos boêmios, a gargalhada espontânea, o desimportar-se deliberado das convenções, dos rituais. Queria me despojar das regras, anulá-las, estar de fronte a um imenso precipício para arremessar as pedras da rigidez, das mágoas, das angústias, de todas as dores. Quisera eu estar assim, com o olhar seduzido pelas mais ternas expressões das dimensões naturais, a abrir a janela de um casebre apenas para contemplar os sons, aromas e galhos dos arvoredos frutíferos, a deitar seus galhos elegantemente, oferecendo teus frutos silvestres. Desejava estar a  emocionar-me com o casal de pássaros amando-se num ninho destinando, aquele amor pueril, doce, singelo, com gosto de eternidade. Queria correr e girar em meio as correntezas dos ventos que sopram, fazer esconderijos atrás das árvores, das simplicidades de gestos, de atos, de olhares, de presenças. Queria o deleite das risadas boêmias, da magia dos sorrisos sinceros mas madrugadas afora. Queria olhar ao alto absorvendo a energia do etéreo, vivenciar a gratuidade da vida.

Falo da simplicidade que se expressa no céu estrelado, onde tudo que desejamos é pousar nosso olhar sobre a serenidade do céu salpicado de pequeninos pontos brilhantes, momentos em que a brisa converte-se em carícias ternas a tocar a face. 

Momentos de intensa magia acontecem após uma longa jornada sem destino, perdendo-se em meio a imensidão das estradas, em meio ao desfile de arvoredos, com suor na face e os músculos a fraquejar. Sem espaços, sem limites, perdendo-se em velocidades improváveis. Era o eclipse do êxtase total da experiência em meio à liberdade é presenciar o nascer do sol, em seus primeiros e tímidos raios a banhar a pele de um dourado reluzente.
Há momentos que não se deseja o conforto do travesseiro para repousar, tampouco de um lar para regressar. Há vezes que a alma quer ir mais longe e, frequentemente, longe do mal estar civilizatório em meio aos seus valores volúveis, a hipocrisia dos ritos sociais, ao acinzentado mundo das mercadorias e dos artigos de luxo. 
Hoje não queria escadas, elevadores, asfaltos, queria terra, montanhas, florestas, nuvens mais próximas do alcance dos meus braços. Queria bailar na chuva em meio ruas desertas, sentindo a chuva a banhar-me insistentemente.
Noutros, desejava estar aonde o reflexo do luar guia nossos passos incertos em direção ao santuário da alma, o lugar improvável, em meio a ruínas onde se é possível respirar a atmosfera silenciosa de territórios longínquos. 
Supliquei pelo retorno às essências em meio a paisagens bucólicas. A sinfonia da Mãe Natureza és tão bela que está diariamente a deitar seus ramos por entre os dias insanos que se passam no artificial mundo das metrópoles, onde vive-se  absurdez da vida em meio aos perímetros demarcados pelas pequeninas janelas dos arranha-céus. Todos envolvidos com seus afazeres enquanto a vida escorre por um conta-gotas apressado. E a ampulheta dos dias, a derramar apressadamente as areias em seu invólucro, nos recorda que é tempo de se desfazer de muitas camadas que nos retira deste contato sagrado com nós mesmos, que polui sonoramente o silêncio tão venerado pela alma e tão desrespeitado por tantas conversas sem conteúdo, tantos ditos, sem nada dizer. 


domingo, 23 de agosto de 2015

Tributo aos gênios anônimos da literatura ficcional: romper paradigmas é preciso!

Escrever é deixar um legado memorável, não apenas ao mundo, mas a nós mesmos, e por isso, escrever também é imortalizar a alma, de modo que, ao escrevermos, podemos atingir diretamente tantas almas aflitas e com sede...Sede de quê? Sede do encontro, do maravilhar-se na experiência de se fundir ao texto, de nele mergulhar, se envolver, se encantar e ter aquela sensação da existência pura, sem chão, sem muletas e sem máscaras. Tive grandes momentos de revelação, de despertar ao me deparar com textos cotidianos, sobre os mais divertidos percalços da vida, mas que neles residiam doses poéticas, alto teor filosófico e estas eram, fundamentalmente, os ingredientes secretos para uma verdadeira sedução literária. Não havia rótulos, paradigmas, não havia necessidade de se identificar, a rigor, o estilo, a métrica, os ritmos, pois estes se revelavam por si mesmos, na mais pura expressão de autenticidade. E a literatura, enquanto arte, necessita de certo desprendimento da ciência literária para nos atingir, nos afetar.

O domínio pela palavra, sem dúvidas, é um dos mais significativos recursos de que nos valemos para enfrentar os ruídos desordenados e incompreensíveis que nos deparamos a todo momento. A palavra reordena, resignifica, reedita, clarifica e, permanece, ecoa, resiste ao tempo.

As tecnologias da comunicação contemporâneas, por outro lado, tem atuado na redução semântica e poética do discurso. Diálogos curtos, estórias previsíveis, sempre regadas ao sono alienante das expectativas fugazes; dos finais felizes, do destino agonizante dos vilões.  A eterna paixão por heróis e ódio aos vilões, além de um abandono lamentável da Filosofia, da poesia e dos grandes clássicos que imortalizaram-se durante séculos, não porque diziam o que se esperava encontrar nas páginas de um livro, mas porque diziam sempre o "não dito" e os "entreditos", porque incomodavam, perturbavam, desafiavam a ordem vigente, traziam à luz revelações sobre temas que nem todos tinham suficiente nível de consciência e de percepção para apreendê-los, tampouco, coragem para escutá-los. Shakespeare, Dante de Aligheiri, Goethe, Nietzsche, Dostoiévski, foram alguns destes grandes nomes que ousaram empreender uma aventura nas águas violentas das paixões humanas e fez da ficção uma crítica, uma denúncia, um periscópio em meio às turbulências dos afetos. Não tinham qualquer pretensão de fazer-se compreendidos, porque, fundamentalmente, a incompreensão era parte daquele momento do "nirvana", do despertar, da sensação de uma iluminação profunda, a clarear os escombros da existência suprimida nos moldes ficcionais do cotidiano.

A literatura ficcional contemporânea, [com poucas ou muitas exceções] é uma reprodução das velhas formas maniqueístas de se produzir uma estória. Com poucas exceções, vemos as fórmulas hollywoodianas e as técnicas dos best sellers presentes para tornar as estórias compatíveis com as expectativas do leitor contemporâneo, amplamente influenciado pelos espetáculos da mídia e das tecnologias cinematográficas, porém pouco habituado aos nuances de textos de maior densidade, que demandam um perscrutamento mais amplo, uma leitura analítica e, ao mesmo tempo, uma imaginação que lhe permita alçar voo...  Não falo de "semideuses", integrantes dos círculos intelectuais, nem dos meticulosos em sua rigidez formal. Falo de gente que fala sobre gente, mas fala na mais profunda expressão de autenticidade. Dos que fazem poesia do cotidiano, dos que resgatam gênios no absurdo da vida fugaz. Falo de autores anônimos que criam ficções que, além de tocar uma alma, deixa-nos naquele estado de perplexidade, momento em que as peças do quebra cabeça se encaixam, momentos em que, em fragmentos, encontramos o fio condutor que nos permite "juntar os pedaços". 
Desejo, pois, que todos os autores anônimos, que viveram no silêncio da alma, as mais fantásticas revelações, que enxergando além das margens do concreto, puderam fazer de suas inquietações, paixões e desatinos, obras capazes de reverberar os ares de tempos em que poesias eram um arsenal de aforismos e discursos sobre os mistérios e temores da alma. Tempos que a prosa falava para além dos imediatismos, época em que não havia qualquer cuidado em flertar com o surreal, o insano, o inverso...

Aqui, vale ressaltar, não me refiro apenas aos intérpretes contemporâneos do pensamento magistral da nobreza literária de grandes gênios do pensamento, mas refiro a estes tantos "anônimos" que caminham para além das superfícies rasas, daqueles que não tem qualquer receio em parecer insanos ou excêntricos em meio às suas divagações literofilosóficas. Ademais, preciso, mesmo, expressar meu encanto por quem é capaz de fazer amplos resgates de temas profundos na banalidade do cotidiano. Uma ousadia que é-me, profundamente inspiradora. São respostas  aos grandes dilemas da atualidade, mas respostas que trazem o elixir de grandes magos, literatura que não se encerra na última página, na última linha, mas que nos proporciona ao seu término, aquela insustentável leveza do ser, um incômodo leve, um sentimento de congruência e de compreensão...

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Entre Sartre e Heidegger: espanto, fascinação e elogio ao Ser em meio ao tédio e a angústia

O tédio e a angustia - conceitos em que inúmeros filósofos se debruçaram ao longo de suas reflexões, análises e dissertações -  talvez marque toda a trajetória da humanidade, dado o sentimento de que falta-nos algo, aquela sensação nauseante que nos impele a questionamentos, vale dizer, perigosos, tendo em vista que em determinados estágios da consciência, podemos não estar preparados para buscarmos e aceitarmos as respostas [ainda que frágeis, temporárias e contingentes].

No entanto, se o tédio e a angústia são alvos do manual de soluções para as crises da subjetividade do homem, é certo que sem estas sensações, jamais iriamos de encontro ao Ser, permanecendo nas superfícies rasas do mundo tecnocrático e utilitarista onde, no final de tudo, acabaríamos sendo consumidos, devorados pelas próprias formas de proteção que criamos, pelas próprias utopias e soluções de bem-estar e conforto que a vida moderna oferece em larga escala. Contudo, resta-nos avaliar se estas "soluções"são capazes de, verdadeiramente, devolver-nos certas doses de bem-estar, harmonia e alegria, mesmo temporárias. Ao que parece, as respostas que nos confortam, não passam de anestésicos para a nossa consciência e para a urgência e os excessos de nossas emoções e sentimentos que conclamam, a todo momento, ações, escolhas, decisões, as quais muitas vezes nos sentimos demasiadamente impotentes para administrá-los

Tempos contemporâneos marcados por sintomas  fruto, em grande medida, da nossa cega submissão às formas padronizadas do bem saber viver e do nosso pavor frente à melancolia. Em geral,  as profundidades nos assustam e, no fundo, tememos ser consumados pelo oceano de ditos, entreditos e  não ditos que revelam a nossa fragilidade e finitude diante de tudo e de todos. São, pois, em vão cada um de nossos esforços diários para parecermos fortes e insubstituíveis. Aprendemos muito sobre o mundo na velocidade da informatização, porém, muito pouco sabemos de nós mesmos. Vivemos nas superfícies o conforto das ilusões paradisíacas que tentam preencher o vazio, as lacunas da nossa incompreensão. É-nos, pois, terrível a ideia da finitude e da contingência e, temos disfarçado esse grande temor com uma infinidade de ocupações destituídas de significado,

O surgimento da náusea [sartreana - vale abrir o parênteses], ou seja, da angústia perante à constatação de que nada jaz, de que nada se apresenta concretamente e definitivamente, estando tudo fadado ao acaso, à finidade - não apenas cronológica, mas existencial - nos leva a crer que nada nos resta nem no início de todas as coisas, ou seja, nas essências, tampouco, na finalidade de todas as coisas, ou seja, em sua utilidade. Eis, então, que surge o Ser inexorável, o ser que é na medida em que se apresenta [para utilizar a conceituação heideggeriana], ou seja, nada é digno de elogio, espanto, encantamento, senão, o Ser em suas múltiplas expressões. Não é, pois, a essência ou a natureza humana dignas de celebração, afinal, seríamos nós capazes de definir esta 'substância'? Em grande medida, essa essência tomada como objeto privilegiado das teologias, das ciências humanas e, mesmo, pelas correntes filosóficas idealistas nada diz a respeito do ser, não o define na medida em que criam-se modelos idealizados do humano, como se fosse possível prever a manifestação do ser, moldá-lo e predizer o seu destino. 

Na leitura sartreana, o Ser precede a essência...o que vale dizer, em outras palavras, que o elogio à virtude humana recaí sobre a realização do Ser enquanto ser, não de um suspeito "vir a ser", ou melhor, não de uma receita pronta das potencialidades do ser, embora todos nós estejamos certos de que o que somos é, absolutamente, transitório. Apenas devemos lembrar que, a priori, nada nos define, nada há anteriormente para nos apoiar, para dizer quem somos. É, talvez sejamos aquele que caminha sem tocar o solo, absorvido em profundidades abstratas, sem roteiros prévios e, por isso, é-nós responsabilidade primordial construirmos a nós mesmos sabendo que há os temporais a nos desmoronar e, assim, a todo momento somos obrigados a nos confrontarmos. Esqueçamos pois, as origens, os fundamentos ou princípios primeiros, pois o que existe antes do ato é o nada, a medida mais justa para a experiência humana de ser, pois nada, de fato, seríamos em nossa autenticidade mais pura, se fossemos o desabrochar de uma mera utopia.

Por mais que nossa espécie tenha lutado por provar sua superioridade e uma essência divina moldada às semelhanças do que jaz de mais nobre, a verdade é que somos perceptíveis apenas através do que projetamos. Não temos um início ou fim, pois começos e fins se colidem a todo momento e, estamos cá, nos equilibrando sobre uma fina corda entre risos e temores, vivenciando a náusea da inconcretude de todas as coisas, pois nada nos foi dado e confirmado a priori, o que explica as forças acionadas pelo poder da nossa mente e das nossas percepções. De nada vale o discurso poético dos românticos sobre a alma, os sentimentos, as emoções e os afetos sem a expressão concretizada pelo Ser que cria, age e transforma. Alma é a própria expressão do humano, demasiado humano. 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O problema da felicidade e do sucesso na contemporaneidade

Em tempos de "patologização" da vida, das personalidades, dos relacionamentos humanos, a questão da felicidade e do sucesso que outrora compunha a motivação natural e nossas inclinações saudáveis para nutrirmos de alegrias, esperanças e bom humor, hoje compõe o repertório de nossas angústias. Ser feliz e ser próspero são duas dimensões que nos atormentam com uma sutil e intensa força que já nem buscamos mais o sentido e o significado dos eventos que sucedem os nossos dias.    

Estamos sempre ocupados demais para performar em alto nível, como máquinas que trabalham incessantemente para produzirem o resultado para o qual estas foram devidamente programadas, não restando muito espaço e tempo para processarmos adequadamente o conteúdo destes eventos. Ocupados demais em entregarmos uma imagem satisfatória de nós mesmos aos outros, deixamos em segundo plano nossos sentimentos, emoções, valores e propósitos mais profundos. Nossa cultura nos impele a este padrão de comportamento altamente tóxico, nocivo e, de fato, tornamo-nos obcecados pelo sucesso inexorável ainda que isso custe a nossa própria insatisfação interior.

Entristecer-se, envolver-se em certo estado melancólico, sofrer uma queda emocional, permitir-se estar parado por algum tempo, quietinhos num canto nos auto-observando ou analisando o que se passa ao nosso redor, é assimilado como sinal de adoecimento psicológico. Até a prática meditativa se tornou um utilitário a serviço da busca por respostas funcionais à lógica cultural e social do sucesso. Precisamos descobrir dentro de nós 'fórmulas mágicas' para lutar. Contra o quê? Lamentavelmente, contra a nossa própria natureza, contra o 'humano, demasiado humano'. 

Não podemos falhar, cair ou parar por algum tempo. Os estímulos externos, muitas vezes são tão intensos, que se nos permitirmos sair dessa  dinâmica produtiva e performática, temos a sensação de que podemos estar a um passo da insanidade. Paradoxalmente, sentimo-nos como se arremessados em um imenso vazio, na tenebrosa escuridão quando, por alguma razão, saímos dos palcos nos quais desfilam nossas máscaras. Há situações em que somos tão controlados emocional e cognitivamente, que uma simples ruptura dessa rotina de sucessos artificiais é o suficiente para sentirmos fragmentados. Tornamo-nos estranhos de nós mesmos e completamente desajeitados ante as desilusões, as tristezas e as angústias existenciais. Narcisistas, porém, ao mesmo tempo, estrangeiros da imagem que vemos refletida em nosso espelho.

Nos mais diversos cenários da vida social, profissional e, mesmo afetiva, viver em estado de profunda felicidade e com mostras significativas de prosperidade e realização já é um imperativo. E assim, grandes afetos se convertem apenas em grandes empreendimentos. 

Para o suposto "fracasso", em qualquer uma destas áreas, há uma resposta conclusivas nos DSMs e nos mais variados consultórios, afinal, fizeram de nossas dores motivos para o constrangimento. E, assim, riem de forma escancarada os tolos iludidos pela falsa alegria supostamente trazidas por nada mais do que euforias artificiais e ideias arbitrárias de sucesso. Quanto esforço e quanta luta precisamos empreender para evitarmos as decepções, a melancolia, a perda do jogo...

A cada ano, avolumam-se mais do que as categorias dos DSMs; amplia-se os tratados e os discursos psiquiátricos e os [equivocadamente] filosóficos e psicológicos combatentes das fraquezas humanas, criando a falsa ideia de que estão trabalhando pelo bem-estar e por uma melhor adaptação dos indivíduos em seu meio ambiente. Uma homeostase ás avessas.  E, assim, tornamo-nos cada vez mais incapazes de lidarmos com nossos medos, perdas e frustrações. 

O problema parece se resumir a uma única incógnita: o que realmente estamos fazendo daquilo que fizeram de nós? O filósofo francês Jean-Paul Sartre nos alertara para a responsabilidade que temos para com o nosso projeto existencial e, assim, se dispendemos grandes quantidades de energia nos responsabilizando, acumulando tarefas que não nos dão mais do que mera aprovação social, por qual motivo não assumimos a responsabilidade pela atenção aos nossos temores e tremores?!

Escrevo para preencher folhas em branco...

[...] Porque és verdadeiramente viciante e visceral a maneira como preenche os meus dias e que todos os meus "nãos" continham chamas vivas do que foi...foste? 

Neste manancial de tormentas,  perturba-me a alma estes suspiros teus sufocados na languidez da tua fala sempre de incompreensíveis palavras. És, assim como uma presença fantasmagórica, um retrato que ocupas cada um de meus cômodos, aprisiona-se nas janelas, nas paredes, na velha escrivaninha cujas torres de papel um dia falaram sobre ti. 

Romanceei um dia tua existência doce e fugaz e tu converteste neste conto [de dentro], pois tua fala mistura-se as minhas palavras e, constantemente, dizes através de mim. Que insanos estes momentos em que tu parece ter assumido o controle de absolutamente tudo, a ponto de meu todo estar revestido, ainda, de ti.

Se ao menos eu tivesse a certeza de que tu não estivesses na memória de minhas células, que este pulsar não fosse dos lampejos da tua presença. Por que insistes em esvaziar os meus dias com ilusões tórridas? Porque vens querer-me nos momentos de maior fragilidade? Com que  coragens assiste-me a despir-me de peles que nunca me pertenceram?

Que justificativa plausível tens para continuar aqui, ao lado, a tecer suas meio-verdades? Por que insiste em fiar-me em ti, quando jaz há muitas milhas deste sendeiro extraordinário, em que agora me encontro?

Estou a principiar o prelúdio da insanidade, essa febre que me consome, trazendo-me mais incoerências, pois se estou há anos a caminhar solitariamente as veredas da existência, como posso eu sentir uma presença envolvente a soprar-me estas palavras que aqui escrevo??! Logo, concluo que tudo não passa dessa minha tendência sonhadora em projetar emoções nunca sentidas, porém tão  esperadas... 

Oras! É atributo e função fundamental do escritor ensaiar passos nunca dados antes, custe o que custar! São ossos do ofício da tradução literal e não-literal da vida, de uma dimensão sentimental não compreendida, não vivida, não escrita. Escreve-se, terapeuticamente, para termos coragem de encarar nossos próprios abismos e, aqui ao relento, escrevo tantas vezes para preencher folhas em branco...



quarta-feira, 8 de julho de 2015

Silêncio de uma só alma


Era inverno... e eu podia sentir o queimor da neve a ruborizar-me a face em meio as montanhas. Não havia mais nada a não ser eu e o teu perturbador silêncio. Em verdade, nunca conheci tua  face, pois quando me vens, meus poros estão a respirar nada mais do que o aroma de tua voz ecoando há muitas milhas do horizonte. E, então, eu poderia ver apenas as linhas tênues de um desconhecido semblante .

Eu aqui, a deriva de montanhas gélidas experimentando um tipo de liberdade que - eu sei bem -  me custará a própria vida, pois estou em queda livre, dissipando-me no ar em meio à melodia dos teus passos firmes, tão certos...Sucumbi aos limites físicos e estou deslizando na aspereza dos rochedos de tua ilha, este santuário de tantos acordes, onde vivia apenas eu e o  teu silêncio. Estou, pois, sentindo os limites  entre o céu e a terra, entre a insustentável leveza do etéreo e a dilacerante aspereza do rochedo. E enquanto estava a deslizar nas chamas gélidas do teu desejo, entorpecia-me a alma este recrudescente aproximar-te. 

Arrancava-me o  ar... era a alucinógena sensação de ver-te como uma energia que brilhava, pulsava, presente, insistente, porém que me escapas... Nunca alcançar-te-ei porque, em verdade, projetei-te em meus delírios, pois é-me poético teu silêncio e dele fiz versos de um incessante querer-te. Tú és aquele que jaz entoando cânticos e eu, como se de olhos vendados, jamais fosse capaz de ver-te assim, tão perto... eras quase aquele fantasma de tantas óperas, disposto na mais alta das torres, para além do pico mais alto das montanhas. Eras, pois, distante, mas eu era capaz de decodificar os teus ritmos...

Era o movimento, a emoção, a música que me incitava a querer-te tanto que estou, agora, há 
poucos metros da superfície da razão, a respirar com certa dificuldade e impaciência... sabendo o quanto doerão meus ossos quando sentir o impacto  do eterno retorno ao mundo de ruídos insuportáveis. Era o badalar da meia noite que me consumiria, que me atiraria nas profundezas do teu vazio. 

Persiste em meu âmago, este excêntrico gosto pelo deserto, pelo gélido, pelos limites intransponíveis. Contudo, bastaria rejeitar todas as sirenes, as cores, as conversas boemias, a insanidade das cidades, quando estaria a embriagar-me em teus soturnos monólogos? Certamente, não!
Dividida entre a normalidade patológica do caos, no cotidiano revelador de nossos mais primitivos instintos e a natureza poética de amores improváveis emoldurados por seres angelicais, não era possível escolher entre o sonho e o delírio.

Lutava em vão contra as sombras do teu silêncio, pois era inevitável que tu adentraste meu mundo, sem ao menos pedir licença, tirando-me das superfícies de tantas certezas, para lançar-me no vazio 
de uma liberdade que faria dos meus dias tempestades a arrebatar-me das seguranças e deste 
último fio de lucidez que dá-me a dimensão [assustadora] desta queda livre. 

Já nem respirando, mas suspirando estou perdendo a consciência em meio a densidade do ar rarefeito de tuas palavras... 
Era-me nobre ofício estar aqui a  interpretar o teu silêncio, as inteligíveis palavras do sax  que ainda está, ao longe, a produzir esta melodia soturna. Era forte, era perturbador, como o som de um velho estribilho a reproduzir incessantemente o desespero invernal, a fúria dos ventos, o queimor da neve a sangrar a pele...

E ardia igualmente este silêncio que nunca fora apenas teu, porque enquanto performava-te nos cenários da minha existência, eu estava também longe, dissertando sobre delírios e desejos meus. 
Destarte, já com os ossos em chamas, eu sei que este ensurdecedor silêncio não é mais do que a própria expressão da minha alma e este silêncio, bem, é um composição de tantos dizeres não ditos...


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Nossas incertas certezas



Estamos, indubitavelmente, lançados em um mundo de filiações ideológicas-existenciais, diante de um  catálogo milenar de ideias, visões, posturas regras e rituais, repleto de receitas para uma vida equilibrada. 

Há um esforço  e uma sensibilidade da própria humanidade em resolver-se em meio às angústias e ansiedades que o mistério da vida comporta.
Receitas, soluções, revelações...parece-me que quanto mais fervorosos são os discursos focados na promoção do bem-estar humano, mais sedutor é o silêncio. Talvez porque este seja um dos poucos elementos que não se contamina pelo desespero humano, pelas convulsões sociais, em meio a todos os seus jogos de poder e de domínio. A epopeia da história da humanidade nos mostra que as épocas de maior fragilização foram aquelas mais propícias à dominação, à submissão, à escravidão. Não foi diferente a história da construção da subjetividade. 

Quando a concepção do "eu" sofreu um declínio diante das revoluções que se contrapunham ao espírito medieval, as angustiantes incertezas provocadas por esse rompimento  abrupto da vida prevista, da vida controlada, da vida ditada a priori, inúmeras instituições empenharam-se em  domesticar o, então, "bom selvagem", dominando suas paixões, refreando a sua capacidade criativa, colocando em dúvida a própria opção pela liberdade. Séculos se passaram e, embora a liberdade finalmente tenha superado algumas das principais muletas da humanidade, ela fez-nos, novamente, prisioneiros. Sem um norte, parece que tendemos a ajoelhar-mos às soluções pré-fabricadas de vida humana.

O homem desbussolado do século XXI, em meio a um despejo de pacotes prontos de felicidade e de salvação, vive a angústia do excesso de informação em paralelo a impossibilidade da compreensão, ao menos da compreensão ampla, aquela que que dá-nos o sentimento indescritível do significado, daquilo que se revela a nós de uma forma muito particular.

E, em geral, somos levados a nos contentar com meias-verdades, meio-significados, meio-sentidos e, assim, muitas vezes sentimos que vivemos pela metade. O silêncio e a meditação talvez seja aquilo de mais legítimo que restara a um mundo de milhares de vozes insanas em busca de uma verdade universal. É o momento sagrado da experiência de totalidade do Ser. É o solitário [porém, libertador] momento em que nos desapegamos de todos os excessos e nos pomos a ver a nós mesmos libertos de tantas peles....são momentos de lampejos anímicos, do despertar de um sono milenar...

No entanto, por mais que desejemos o êxtase da compreensão, achar a última peça do quebra-cabeças, atingir a lucidez, estamos indiscutivelmente condenados à dúvida. A insustentável leveza do ser passa pelo crivo do peso da dúvida. E mais: qualquer sensação de estarmos próximo de uma 'revelação' verdadeiramente libertadora não foge do fato de nossas verdades serem contaminadas pelos nossos sentidos e, em última instância, contaminados pela internalização social e cultural que sofremos deste o nascimento. 

A crise da metafísica talvez seja uma constatação significativa de que não existem verdades primeiras ou últimas, de que cada alívio de verdade é procedido de um suspiro de desconfiança. Restaria, pois, o silêncio, a meditação, o sentimento genuíno? Havia, então, 'intercessores' desse momento de comunhão de nós conosco mesmo e com a esfera do universal??!

Se há alguma lei a explicar o mistério da vida, esta nunca nos foi dita. Existe, é claro, os ecos ensurdecedores dos discursos sociais, religiosos e metafísicos, mas tais afirmações parecem não ser tão convincentes às verdades d'alma. Ás vezes precisamos "constatar por nós mesmos", o que significa abandonarmos o conforto teórico e demagógico dos recitais socioculturais para  analisarmos, averiguarmos, compararmos e, acima de tudo, sentirmos! 

Verdades nunca serão palpáveis e, em geral, serão sempre transitórias e as paisagens naturais da vida em seu ciclo incessante de transformação dá-nos essa perturbadora desconfiança. Se é-nos impossível banhar-nos duas vezes nas mesmas águas de um rio, por qual razão haveria de termos verdades conclusivas eternas? Se somos esse eterno vir-a-ser, não seria, pois, as verdades ditas, aceitas, internalizadas a impossibilidade de nos transformarmos?!

A vida e suas leis comportam uma sabedoria que [ainda]  nos é cara. Estamos, assim, arremessados a um deserto de incertas certezas, de definições e respostas frágeis, um mundo de gestalts em aberto.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

As tantas colônias do Eu: poder, domínio e sedução ideológica


Tantas colônias que erguemos sobre o rochedo do improvável que todo desejo de conquista para se resumir a uma corrida constante em direção a salvação de nós mesmos diante da inconstância da vida e do medo arrebatador de nos perdemos, de termos a nossa própria identidade estilhaçada. Assim, as guerras que travamos, os conflitos mundiais que assistimos, a busca pelo poder, pelo controle e pelo domínio dá-nos apenas a tórrida dimensão de um ‘Eu’ que desesperadamente busca a sua imortalidade. Busca, ainda, sua afirmação, a voz, a palavra, deseja propagar-se no espaço e na história e, para isso, não bastam os confortos materiais, é necessário ver-se refletido em tantos outros. Essa talvez seja a fórmula do domínio de uma nação sobre a outra, de povos, de culturas, de estruturas sociais e políticas. No fundo, precisamos ver a nós mesmos nas terras estrangeiras...

E parece-me que os limites para o domínio transcendem as  conquistas materiais e territoriais. Toda guerra é,  sobretudo, antropológica, pois não se guerreia,  simplesmente, para o confisco, o domínio, para se revestir de bandeiras a terra conquista. Para além  disso, deseja-se a sedução dos corpos, mentes e corações  dos nativos. A sedução ideológica está, pois, a favor de uma tentativa expansionista da nossa própria subjetividade na qual o que se intenciona  verdadeiramente é a imposição de nossas próprias paixões, ilusões, práticas e hábitos culturais. Toda conquista está, portanto, impregnada de nossos sentidos e impressões e é por isso que cada nova conquista carrega a marca do que somos. São conquistas egoicas,  são formas de domínio que parecem imitar a semente da  vida: inventou-se a sedução amorosa para que haja a união de dois corpos a serviço da vida e parece, mesmo, que Schopenhauer tinha razão ao apreender a lógica do amor que sutilmente se oculta nas entranhas dos encontros e nos faz lembrar de Darwin quando vemos que, somos esta espécie que evoluiu de formas mais simples de vida cujo legado está nas nossas próprias paixoes e desejos.
O pavor da aniquilação do próprio “Eu” reside em fazer de nosso projeto existencial a nossa marca, como se cada uma de nossas conquistas assegurasse a prevalência de nossa própria consciência, de nossas ideias, desejos e visões, em suma, do Eu, da instância constantemente ameaçada pela supressão diária de nossas mais profundas paixões.

Todo espanto inicia-se a partir do espelho porque dele temos dois tipos de reflexos perturbadores: a ideia de que biologicamente mudamos, nos transformamos e que continuaremos caminhando em escala ascendente por territórios desconhecidos,  sempre a mudar. Por outro lado, há uma imagem nele refletida que não é nada além da impertinente interrogação sobre o que fizemos de nós mesmos, as cobranças temporais, as pulsações que nos impelem. E o espelho jaz lá, de fronte, a nos lembrar que cada minuto é um espaço de tempo para mudar tudo e que nele está contido a vida que escorre a cada segundo e que jamais será novamente reiterada.

O desenvolvimento biológico do homem nos lembra da perenidade, da linearidade inevitável. O que seria de nós sem as nossas fantasias, as quais nos permite burlar em certos aspectos essa sensação de que somos empurrados a seguir sempre em frente, sem tempo hábil para enveredar-nos pelos caminhos outrora traçados e, por isso, nada temos além de nossas memórias que outrora desejaríamos ter feito retratos a serem emoldurados nas paredes de nosso edifício. Mas nada escapa à violência do tempo e por isso construímos templos, condomínios, edifícios. Por isso desejamos tanto que nosso nome e as nossas paixões ecoem em terras longínquas.

Colonizar -  mecanismo de defesa não claramente catalogado entre as convenções psicanalíticas - talvez seja essa tentativa desesperada de fazer-se no outro, de imortalizar-se. Construímos templos de nós mesmos porque nem sempre temos segurança de nossa própria visibilidade.
As tantas colônias do Eu, são as milhares representações simbólicas do “Eu” que deseja expandir-se, reproduzir-se, afirmar-se diante da transitoriedade de todas as coisas, diante do perder-se no infinito, e no pavor ante o próprio aniquilamento. Justamente por isso, temos a tendência de nos apaixonarmos por nossas ideias. Assim como o encontro dos corpos enseja a manutenção da vida e, mais precisamente, dos nossos genes, as guerras asseguram que sejam impressas as nossas paixões, desejos, ideias e ideologias no outro. Desejamos ardentemente materializá-las e, assim, projetamo-as nas relações objetais que tecemos em nosso cotidiano.

No final de tudo, construímos ilhas que refletem quem somos, quem desejamos ser e, acima de tudo, são exemplos do que podem os nossos afetos; alguns a favor da vida e outros empenhados na destruição. Nas grandes guerras presenciadas pela humanidade o jogo dos afetos certamente estava presente e exatamente por isso que elas imortalizavam nomes e ideias.

Toda busca pelo outro, na verdade, é tão somente uma busca por nós mesmos. Todas essas cobranças e insatisfações em relacionamentos de quaisquer natureza é diante do conflito insuperável entre os nossos desejos e fantasias de um “Eu” voraz versus a realidade nua e crua do outro que, em geral, não nos contém, ou seja, devolve-nos o reflexo de nossas próprias fraquezas e da nossa condição mortal. 


domingo, 24 de maio de 2015

O Self no Divã e da Impossibilidade do "Outro"

Se há algo absolutamente recorrente na prática de clínicos e não-clínicos, de intelectuais, artistas ou de pessoas comuns, este reside no fato de sermos sempre pacientes de nós mesmos. Significa que aonde quer que desejamos chegar para curar as feridas do outro, para transformá-lo ou, simplesmente, para clarear a trilha, acenar o caminho, toda essa busca representa simbolicamente o esforço inconsciente para buscar o elixir para a nossa própria existência, repleto de mistérios, fantasias, segredos e controvérsias. Decifrar enigmas, quebrar códigos secretos de nosso projeto existencial nos leva a uma imersão por tantos outros projetos existenciais e assim esbarramo-nos sobre as alegrias e as tristezas que atravessam o cotidiano de pessoas, sociedades, nações. Da melancolia ao gozo soberano das possibilidades de autorealização há diversas marés que precisamos driblar e o furioso impulso que nos leva a querer entender o mundo é a força que nos impele a querer encontrar o nosso próprio lugar no mundo, o que implica em afirmar que nosso encontro com o outro é sempre intencional, parcial e contaminado por nossas impressões, nossos sentidos. Interpretar o outro, entregar-se ou distanciar-se do outro tendencialmente é um momento no qual estamos, simultaneamente, resolvendo questões internas. Não dizem respeito, propriamente ao outro, mas, essencialmente ao que desejamos expressar; é o expressar-se e o compreender-se que nos leva a construir relações. E parece, mesmo, que tais relações não existem, pois será que já não nos é suficientemente plausível a ideia de que jamais atingiremos o cerne do outro? De que  há um sutil filamento de individualidade que nos permite perder-nos em relação ao outro? Há uma unidade essencial dos seres que faz com que, ao final, tenhamos somente, e tão somente, a nós mesmos. Há o encontro, mas jamais um enlance indissolúvel. Parece estranho e me perdoe os românticos, mas nossas paixões dizem respeito a nossa alma, a ela respondem, a ela são, de alguma forma, subordinadas e o resto é apenas um conjunto de forças que se esbarram a todo momento, ofertando-nos a lição diária, o entendimento, ou o fragmento deste para que possamos unir as peças como num "quebra cabeças" e, mais uma vez, voltar-mos para nós mesmos.
Ao final, a nossa ânsia em compreender o outro não é mais do que a soma de nossos anseios na solidificação de uma identidade para a nossa alma. 
Somos um, mas ao mesmo tempo, somos muitos, não porque absorvemos o outro, não por alienação de si, mas porque cada ligação que tecemos com o outro revela-nos personagens de nós mesmos, alguns dos quais nos orgulhamos profundamente pelo talento, pela maestria, pela delicadeza...e outros que abominamos por trazer a tona os  monstros que nos habita, que nos corrompem, que desperta-nos a ira, o constrangimento e/ou a impotência. E, assim, mediante a fantasia acerca do "outro", em meio as frageis relações com o outro, tentamos decifrar os enigmas que se controem violentamente no peito.
Em geral, sofremos, agonizamos e adoecemos em função de um "outro" que aparece-nos sobre a forma de nossos próprios sonhos e pesadelos, jamais o atingimos, jamais o modificamos pois o "outro" quando é pessoa, jamais "é" em aquilo que nossos sentidos acreditam "ser". A crise da física e da metafísica. Se admitirmos a hipótese cartesiana que nossos sentidos podem não ser confiáveis no que se refere ao externo e reconhecermos os limites da metafísica no processo de "conhecer", na perspectiva kantiana, parece não ter-nos restado nada, além de nós mesmos. E todo o Universo que permanece girando e todas as pessoas que vem e que se vão de nossas vidas talvez sejam apenas os reflexos perdidos de nossas ilusões, traumas e lições que devemos vivenciar e repetir.
Estamos, pois, no Divã para através de um "Outro" frágil e temporário e através dele reconhecermos o "Si-mesmo", o humano "demasiado humano"....Quando na impossibilidade do "Outro" como gostaríamos que assim fosse, somos, de súbito, lançados nesta ilha deserta para que possamos reconhecer os oásis de nossas demandas ingênuas, imaturas e absolutamente dependentes, como se o encontro com os "outros" devolvesse-nos a parte perdida, corrompida, anulada ou faltante de nós mesmos.
Da impossibilidade do "outro", estamos certos de que nos consultórios, nos bares, nas praças, nas escolas ou nas ruas estaremos sempre e constantemente sendo lançados num imenso tabuleiro onde o que está em epígrafe é apenas a busca por nós mesmos. 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Desconhecido objeto de desejo: das ausências e da ficção de tantos outros

Se durante anos pus-me a trazer à lucidez da alma a verdade por detrás das tantas paixões da alma humana, das minhas paixões anímicas, dos meus [nem sempre] ordenados afetos e desafetos, do meus "quereres" incessantes, da cólera e do silêncio, delineando a anatomia de sensações indescritíveis e de emoções intensas, ainda é-me desafiante a tarefa de dizer, de simplesmente dizer, em palavras, fotografias ou gestos este estranho e desconhecido objeto de desejo que, não sendo materializado na figura de outrem, existe e persiste no fluxo de pensamentos abstratos, no tremor da brisa que atravessa as janelas do meu quarto, no arrepio da pele que transpira quando tú (?) me vens a assoprar sorrateiramente palavras,  ideias e aforismos que se transformam em sucessivos e diversificados cenários poéticos onde posso deleitar-me em melodias celtas de terras longínquas.
Se toda aquela energia primordial que sutilmente percorre as minhas veias e faz-me queimar em absoluto êxtase, num enamorar silencioso entre as folhas que escrevo acá na solidão de dias e dias a tentar investigar ao mundo e a mim na intuição filosófica de particulares lições; se todo esse confronto de forças antagônicas que beiram da delicadeza à barbárie, se toda essa ânsia de querer envolver-me sem comprometer-me, de querer estar, sem jamais permanecer, é-me tão obscuro este objeto de desejo que faz meu coração pulsar num ritmo frenético, porém sublime...
Jamais fui capaz, mesmo com total zelo, de atingir a neutralidade quando estou a tecer personagens para fazer de conta que a solidão é só uma canção melancólica que passará...Porque nunca passará e eu poderia projetar-te sempre, a qualquer tempo. E eu poderia me espantar com a saudade que tú(?) deixaste ao depositar o caderno, o livro, o fragmento de papel na prateleira ao lado. 
Sim, há algo de absurdo, há um flerte de insanidade no que estou prestes a admitir, contudo, não é-me fácil equacionar estas variáveis de sentimentos desconhecidos, forjados, criados a partir da poeira dos meus sonhos. Por isso nunca bastou imagens estáticas de alguém com quem eu poderia flertar em versos, em infindáveis lições que tú me ensinavas. Nunca bastou e nunca bastará e, por isso, ainda carregava a cruz da minha vergonha frente a esta situação promíscua de querer encontrar-te em tantos outros. Porque não foste apenas um? Porque tú se multiplicava em tantas personalidades?!  

Será que ainda resta-me algum grau de sanidade? Pois nem mesmo sei quem és tú! Quando brinquei de te desenhar-te em pensamentos soltos não pude imaginar o quanto nossos pensamentos podem ser poderosos a ponto de tornar este objeto de um incessante querer.
Há, sim, uma presença forte nas ausências que meus olhos e a minha pele me lembram quando em transe neste momento em que estou entre o fantástico e o real. 

A ficção nem sempre é a arte de contar uma estória alheia. Por vezes, é recurso literário íntimo, particular e, por isso, pode ser tão autobiográfico que temo ter perdido o controle sobre o papel e a tinta desta caneta já viciada em pôr-te nas entrelinhas e entreatos de estórias que não são minhas, mas que são atingidas pelo incontrolável envolvimento meu. Incapaz de ter fechado todas as portas, tú(?) atravessaste o limiar do meu mundo. Todavia, não me vens...não me vens...Perturba-me quando me desconcentra das atividades intelectuais que me são habituais porque eu era aquela que me deleitava em meio a livros, filmes, ideias, paisagens e, hoje, sinto-te tanto aqui, numa presença fantasmagórica, porém intimidante, forte, intensa, marcante. 
A relação com meus livros já não é mais a mesma e eu nem mesmo sei se existes ou se algum dia existirás...

domingo, 15 de março de 2015

No laboratório da existência - a extraordinária jornada da experimentação e das possibilidades

[...] E a vida parece ser mesmo este imenso laboratório no qual, a todo instante, experimentamos e somos experimentados; num mundo em que cada dia é uma das infinitas possibilidade de construir e desconstruir paradigmas, certezas, emoções, fantasias...

Custou-me décadas para chegar a certas concepções libertadoras do destino, mas diferentemente do que ocorre no laboratório da física, da química, da biologia e, mesmo, da psicologia, no laboratório da existência não há leis determinando nossos estados, nossas percepções, nossos atos e entreatos. Não há observadores, ainda que haja multidões a lhe apontar o dedo e proferir palavras amargas. Não há registros, não há descrições minunciosas dos fenômenos da alma, da consciência e de suas reações, há algo de indescritível na experiência de cada um e nossa biografia não é autorizada a ser descrita por ninguém mais do que nós mesmos.

E o Universo, parece mesmo, que não joga dados, o que não significa, que não estamos à merce de um contexto de probabilidades infinitas, de corredores longínquos com  fileiras intermináveis de portas a serem abertas. É, diria que os despertos estão mesmo na "toca do coelho" de Alice no País das Maravilhas e o nosso poder de escolha...ah, este rompe com todas as ilusões de que podemos ser estes fantoches manejados por outrem por cordas firmes e curtas.

Apaixonada pelo poder das ideias formalizadas em teorias e sistemas complexos, repletos de possibilidades, aprendi, também, a me apaixonar pela aplicabilidade destes conteúdos legítimos à minha alma. E, com isso, os resultados foram extraordinários. Teoria era ensaio, experimentação era como um êxtase profundo, um apaixonar-se desinteressado pela vida, pela perfeição do cosmos. Experimentação era o modo de trazer a minha vida, em toda a sua extensão e completude, as possibilidades que existiam apenas na esfera onírica; frágil, inocente, efêmera. Tão efêmera...porque se é verdade que livros, filmes, narrativas, insights  nos permite criar um mundo só nosso com os personagens que elegemos, nos contextos que construímos, na intensidade das emoções e dos desejos que alimentamos, por outro lado, também é verdade que, tal como nos contos de fada, no badalar da meia-noite, tudo isso seria consumado na madrugada afora. E, assim, todos os dias, era necessário começar do zero ou, com muito esforço, dar continuidade à nossa linha de imaginação acreditando em algo que, de fato, nunca foi nosso.

Todavia, houve um momento de pavorosa lucidez em que eu precisei deixar tudo...havia outros territórios a se explorar. Nunca fechei a porta deste mundo fabuloso de fantasias porque não é sobre se desfazer desse talento que nos fora dado pela imaginação, habilidade esta tão poderosa, quanto perigosa, às vezes. Eu apenas precisei alçar...precisei lançar-me no vazio do real, precisei materializar-me nas terras que sempre me foram estrangeiras. Ficaram para trás os personagens, as fadas, o colorido, as criaturas fantásticas, os bailes, a felicidade clandestina...

Na trilha do real, eu nunca deixei de caminhar portando tudo aquilo que aprendi no fascinante mundo da episteme. E eu creio que a intelectualidade não se afirma sem um pouco de sabedoria fantástica. E foi essa ânsia de querer poder mais...este impulso que se propaga pelas minhas veias desejando Ser, desejando estar, com os pés no chão, ainda que a imaginação continue a fervilhar em mil ideias e inspirações, eu parti, de fato, para a experimentação. Arrisquei. Arrisquei e me deixei levar. Senti o queimor e o tremor, o gélido e o chama, o arrepio, a transpiração. 

É-me uma jornada extraordinária e ao final de cada dia, a síntese era-me gratificante e redentora. Pendurava o casaco pesado, depositava as mochilas no chão para, mais tarde, folhear um livro, ver um personagem, estar numa valsa encantada, ver as criaturas fantásticas e dizer 'Oi'.  

domingo, 8 de março de 2015

Na Caverna das Angústias - Reflexões de uma poética manhã de domingo à luz dos aforismos platônicos.

Analisar as concepções filosóficas de Platão, em suas vastas obras a despeito do mundo das Ideias, da possibilidade ou da pretensão à Episteme (conhecimento), sem dúvidas, nos leva a enveredar por reflexões acerca das angústia do homem, da miséria psicológica e social que tem arrastado inúmeros homens, grandes parcelas da população, em diferentes contextos nacionais, históricos e culturais aos mais lamentáveis martírios e formas de sofrimento, degradação e decadência. Com isso, não apenas os homens, mas sistemas inteiros de ideias, patrimônios e conquistas diversas também são levadas à ruína. Penso que, talvez, o princípio deste processo, da ruína material, emocional e espiritual dos homens seja ideia - e as paixões a elas atreladas -  de que somos marionetes de um Universo obscuro, misterioso e sobrenatural e prisioneiros de relações sociais complexas que fragmentam as sociedades entre senhores e escravos, algozes e vítimas. Falo, portanto, do homem subterrâneo, dos homens prisioneiros tal como na Alegoria (ou Mito) da Caverna de Platão, no qual, desde a infância, estes homens são aprisionados no interior desta caverna, onde, com auxílio de uma chama de fogo incessante, estes são capazes de visualizar, tão somente, as formas e as sombras de tudo que jaz do lado de fora da caverna. Ademais, fugir deste aprisionamento era, pois arriscado. Os olhos talvez não suportariam a luz do Sol que jazia imponente do lado de fora da caverna. 

Por muito tempo acreditamos que somos prisioneiros de uma espécie de matéria imutável. Há um traço, ainda que sutil, de fatalidade no pensamento daqueles que acreditam suficientemente na injustiça como uma causalidade factual. Isso implicaria em acreditarmos que algo ou alguém joga os dados e que somos, pois, peças de um tabuleiro no qual nos resta avançar ou recuar segundo critérios estabelecidos a priori. E, com isso, nos aferreamos a essas ideias. De fato, nos apaixonamos pelas nossas crenças de tal modo que poderemos passar uma existência inteira acreditando que a visão das formas e sombras que os homens viam quando acorrentados na caverna seja mais real do que as imagens nítidas do que acontecia do lado de fora. Até aqui, sem dúvidas, um bom contestador já alertaria sobre o óbvio: Mas, então, o que é real? Se não existem verdades eternas, realidade imutáveis, se tudo é temporário, passível de transformação, relativo às nossas percepções e crenças, como poderia-se afirmar que algo é ou não real? Quem estaria certo? Os homens subterrâneos ou aqueles que, libertos, descreveria em detalhes como é o mundo olhado pelo lado de fora da caverna?
Creio que cheguei a um dos impasses da Filosofia mais marcantes quando estamos a estudar cada uma das grandes abordagens ou correntes filosóficas. Chegar a essência das coisas mesmas pode ser um dos objetivos de alguns projetos filosóficos contemporâneos, como é o caso da Fenomenologia, mas uma verdadeira reflexão filosófica deve partir, obviamente, de uma contestação dessas verdades absolutas e imutáveis, talvez a causa primeira dos tantos transtornos psicológicos que tem conduzido os homens a dimensão mais subterrânea dos sofrimentos. Talvez falte um pouco de 'aporia' (=impasse) na forma como olhamos o mundo.

Cada vez estou mais convicta (e estou ciente de que convicções podem ser profundamente perigosas!) de que cavernas existem em função da maneira como nos posicionamos no mundo e, nem sempre, é tarefa simples mudarmos esses posicionamentos, provocarmos rupturas em nós mesmos, pois no Universo, nos sistemas humanos mesmo, muitas vezes, somos suficientemente barrados para operarmos qualquer mudança, pois talvez este não seja o caminho mais adequado, plausível ou sensato. A questão reside em mudar a nós mesmos, pois essa mudança, refletirá, inevitavelmente, no mundo concreto, aquele que apreendemos através de nossos sentidos. Isso não significa, em nenhuma instância, que não haja situações potencialmente provocadoras de perdas e danos à humanidade ou à natureza. Entretanto, nossa postura diante dessa infinidade de fenômenos humanos e naturais nos leva a pensar na opção que escolhemos. Se desejamos ser guiados pelo curso natural da história como vítimas ou algozes, ou se desejamos, de fato, uma ruptura com as nossas certezas e pensarmos para além da dimensão miserável que nos colocamos ou como enxergamos a totalidade de todas as coisas.

A vida é sim, este imenso rio que flui incessantemente e que, portanto, as águas jamais serão as mesmas. Já dizia o filósofo grego anterior à Platão que não é possível banharmos duas vezes num mesmo rio, uma vez que o movimento incessante das águas garante a sua renovação ininterrupta. Da mesma forma como não é possível se obter a mesma sensação de se banhar nestas águas em relação a outrem. As experiências com o mundo concreto também são suficientemente particulares para não admitirem um princípio universal que classifique, catalogue ou disponha os homens de acordo com uma base una, que não admita distinções e particularidades. Por esse ponto de vista é possível inferir que viver dentro e fora da Caverna é apenas uma questão relacional, da maneira como me relaciono com o mundo. A tirania, as guerras, as mazelas humanas existem sob a ilusão de que controlamos o mundo e aos outros. O comunismo sobrevive, ainda que por diversas fraturas e controvérsias, a partir desta ideia de que há uma experiência universal correta, justa e acessível a todos os homens. Que todos devem responder a este ideal ilusório e tirânico de uma 'obediência' natural a uma falsa solidariedade e cooperação entre os homens. 

Os homens que angustiam nas Cavernas, possivelmente não se deram conta de que não há ninguém jogando os dados por nós. O Universo não joga dados e a realidade não fazem os homens, não determina os seus destinos e não oferecem qualquer estabilidade. Heráclito ainda nos oferece esta importante contribuição em relação aos aspectos incessantemente mutáveis do Universo. Mas quantas ilusões alimentamos por esse desejo voraz das certezas de estabilidade e do domínio da realidade! Como agonizamos diante da ideia de que somos frágeis e determinados por forças que definem os nossos ânimos e o nosso futuro! 

Nesses momentos admiro a sabedoria da natureza de, justamente, cravar a espada da dúvida nas mais diversas dimensões da realidade. Quão sábia é a natureza que após calorosas discussões e embates filosóficos de diversos sábios, pensadores, intelectuais, nos leva a crer que a dúvida é o princípio e o o fim de todas as coisas. De que a dúvida é este "apesar de..." que nos move, que a dúvida é sempre este privilégio de poder recomeçar, de nos levar a abandonar o peso de tantas peles, de tantas máscaras que nos aprisiona. A dúvida é, pois, a certeza de que podemos ser melhores do que ontem, de que a falha é sempre a oportunidade de aperfeiçoamento, de que podemos, sempre, assumirmos novas perspectivas e de transformar angústias em aprendizados eficientes e renovadores.

Todas as experiências, das mais elementares às mais complexas, nos revelam como é possível que a nossa perspectiva pessoal nos leve a caminhos totalmente distintos daqueles traçados pelas nossas ilusões. Há confortos que nos aprisionam, estabilidades que nos alienam, verdades que cegam, discursos fatalistas que nos sufocam. Por esse motivo, crenças, convicções  e estabilidades  devem ser postas em xeque quando falamos da forma como cada um experimenta a angústia. Assim como alguns filósofos que remontam a Antiguidade já afirmaram que não é possível dar respostas, mas tão somente, apontar caminhos ou, mesmo fazer as pessoas a enxergar um caminho, penso que na clínica psicológica deve-se ter sempre em mente o dever de devolvermos essa responsabilidade a cada paciente ou cliente. É tempo de recolhermos essas responsabilidades que nos são caras, porém libertadoras.


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Livros e mais livros: Da sublimação à transcendência


Talvez fosse absurdamente banal e entediante imaginar a vida apenas pela lente caótica e superficial da realidade concreta, aquela a que nos deparamos diariamente em meio as demandas nossas. Não seria possível extrair a natureza poética de todas as coisas se não fosse nossa infinita capacidade imaginativa e, para mim, nenhum verso poético existiria se não fosse esse mergulho em águas profundas que permitisse chegar à toca do coelho, algumas vezes. Pois não sei o que seria do meu percurso existencial sem aqueles momentos íntimos em que apago as luzes do insano mundo cotidiano para aventurar-me em mares nunca dante navegados, momentos estes em que me detenho a selecionar cenários surreais, a dialogar por horas afinco com personagens que muito desejei conhecer, lugares que outrora sonhei estar, enredos cujas entrelinhas mantinham suspensas as chamas abafadas em minha alma, 
Não me recordo, ao certo, quando isso tudo começou, este fascínio incomensurável pela leitura, este encantamento pela ficção e esta devoção pelas obras não ficcionais, mas se um dia eu me dispusesse a escrever minha própria biografia, certamente ela seria traçada a partir dos livros a que adentrei diante do enorme fascínio que me despertaram. Nunca aprendi a escrever sobre mim a partir do deserto do real. Não sei, mas as sementes nunca vingaram na aspereza deste solo hostil. Para escrever sobre mim, era necessário valsar em salões suspensos entre nuvens e arco-íris. Minha história seria, pois, composta a partir de inúmeros fragmentos, retalhos de muitos contos, de muitas memórias, de atos e entreatos dos quais um dia participei, ainda que em silêncio, pois eram as histórias que me teciam, que me desvelavam a mim mesma. Elas davam-me as palavras, o estilo, a dança, os gestos. Me entender - ou não - era sempre uma questão literária e todas as respostas para as questões mais complexas estavam nesse mundo que existia escondido por detrás de um porão duma mansão abandonada. Era um jardim secreto, uma espécie de esconderijo daqueles que forjamos na infância. No desalento, é lá que buscamos consolo ou respostas.
Dessa forma, a vida real não passava de uma sombra, de um véu de cetim, delicado, frágil, prestes a se desfazer... Há muito sentia que nada era suficientemente sólido em minha vida pacata e sem brilho. Se havia algum momento de iluminação, este era quando eu estava a flertar com as palavras, as emoções e as ideias que se agitavam quando perdida em pensamentos infinitos. A vida pensada, ensaiada, ritmada é que me justificava. Nunca foi de tarefas, de atos executáveis. Desejava adormecer num sono profundo que me conduzisse apenas ao universo do pensamento. Penso não existir nada mais real do que o pensamento...ainda que ele nos engane as vezes, pregue peças e faça nosso mundo virar de cabeça para baixo. Contudo, é ele que nos salva das armadilhas do destino, é ele que, tendencialmente, nos reconecta à essência de nós mesmos. Uma vida que não passa pelo crivo do pensamento é uma vida que não merece ser vivida, afinal, se não fosse a nobre arte do pensamento, não passaríamos de criaturas mecânicas a executar gestos repetitivos.
Olhar para este imenso horizonte de tantas paixões literárias, é que me dou conta de como meus esforços tem sido canalizados para transformar intensos anseios e emoções em versos, cânticos e monólogos cuja compreensão era codificada em símbolos que somente minha alma poderia decifrar. Assim é que todos os talentos e habilidades eram canalizados para este doce ofício no mundo das palavras. Viver em meio signos era-me destino em meio ao desatino de caminhar sobre pontes opostas: numa delas jazia a vida boêmia e do outro lado havia o paraíso das possibilidades infinitas.
A experiência da leitura sempre fora a possibilidade de deslocamento do lugar-comum, da mesmice, da hostil realidade concreta. É a experiência de transcender-se...para além de sublimar, o extraordinário era estar para além das superfícies, era caminhar no etéreo na certeza de que não havia mais motivos para voltar...era a emoção de olhar para trás e não mais ver os próprios passos a sinalizar o caminho de volta. Sem estes marcos, não era preciso, pois, abandonar estes mares com ondas que arrebatavam-me para os cenários em que desejei estar...

Não deseja voltar...não mais. 

domingo, 25 de janeiro de 2015

Travessias em tempos de incertezas

E naquele dia aparentemente sereno, estava eu a me confrontar com as minhas próprias incertezas, fitando a ponte que definiria o meu destino ou que, ao menos, me arrancaria das raízes profundas duma jornada habituada a sentir a firmeza e a seguranças que se pode ter quando nutrimos as raízes profundas de todas as coisas. Muito mais do que o esforço para manter os passos seguros na rigidez das superfícies era. A examinar, cuidadosamente os desvarios provocados por um simples "sim"  e a sentença de reclusão procedida de um "não" é que estava a meditar no silêncio de pensamentos meus. No horizonte que se perdia entre as montanhas e o arvoredo que cobria planícies improváveis havia uma ponte estreita porém longa que se estendia de uma extremidade a outra de uma paisagem que mais se assemelhava a uma tela pintada a óleo. Os horizontes longínquos eram como brumas salpicadas de um azul ciano a desbotar artisticamente as silhuetas das árvores e dos rochedos. Em pouco, nada restara para a visibilidade matutina de um dia que nascera tímido em meio às geadas do mês de Junho. Restara imponente apenas a velha ponte que atravessara o rio que jamais deixara de percorrer torrencialmente em suas margens. Rios que nunca dormem, rios que  desaguam incessantemente em destinos incertos. Dois mundos se dividiam por este montante de pedra e de madeira, dois mundos tão próximos e tão distantes. A travessia implicava em riscos eminentes. Era um caminho sem volta, pois quem arriscasse uma travessia jamais retornaria com as mesmas percepções e sensações. Corria-se o risco, ainda, de nunca mais voltar...havia a hipótese assustadora de não mais existirem pontes, pois cada segundo de pensamento, cada desvario interno e cada insensatez da imaginação poderia simplesmente desmanchar qualquer sinal de solidez. Era este estado líquido o motivo do temor. De ir, ir-se, partir-se e não poder mais voltar para a casa. Era o temor de que aquele som entoado pelo piano envelhecido pudesse cessar e, sem a música, o caminho poderia ser um erro...porque minha vida sempre valsara aos sons ritmados de um concerto clássico. Nunca fui de muitas conversas, evitara sempre os ruídos indesejáveis, o diálogo esvaziado, as palavras fúteis. Em verdade, era nos solilóquios que as palavras profundas, as palavras carregadas de sentidos e anseios despontavam na mais harmoniosa das sinfonias. Contudo, não mais bastava os acordes sinfônicos metodicamente entoados nem os recitais poéticos metricamente articulados, havia uma incômoda inquietação fervilhando em meu peito, havia algo de perturbador ao fitar aquela ponte infinita que jazia todos os dias em imperativa presença entre paisagens que se alteravam no girar incessante de ponteiros que cobravam-se a resolução do aparente espanto e das urgências nauseantes que me consumavam dia após dia.
Eram tempos de travessias, tempos em que o tudo e o nada se interpunham como num eclipse total de forças opostas. E, por isso, me dei conta de que, talvez, era preciso atravessar noites obscuras com a fé inabalável na claridade que procederia após o rompimento da junção irresistível de tais forças. Não sabia se do outro lado era dia ou era noite. Se era tempestade ou calmaria. Não estava certa nem mesmo se haveria superfícies....mas eu era como a ponte que se curvava entre estes dois mundos. Tal como esta estrutura imponente que reúne grandes esforços para manter seu domínio entre extremidades longínquas, eu precisava partir na certeza de que eu só desistiria após testar todos os passos possíveis, após percorrer ardentemente os propósitos que me lançaram neste labirinto de incertezas. 
Estava pronta, não havia mais motivos para ressalvas quando a alma, já em chamas, lhe arrasta para o desconhecido na certeza de que, entre o delírio e a lucidez, ainda havia mundos a serem desenhados, realidades a serem escritas, caminhos a perscrutar e uma vida inteira a ser salva da perdição diante do tédio, da desesperança e da perda de pedaços nossos em meio a textos e contextos que nunca nos servirão, nunca nos bastarão e nunca suportarão estes sonhos que convulsionam minha memória em noites que nunca adormecem.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Transformar(-se) como imperativo, maravilhar-se como possibilidade

Eis-me aqui a meditar num santuário de dizeres sobre mim, daquela que um dia foi e do que um dia se tornou. É-me profundamente intrigante observar as tantas  metamorfoses pelas quais passei e os aforismos existenciais que delas derivam, revelando, gradativamente, o sabor e o dissabor de um repertório de experiências que nos transformam incessantemente. É assim que, numa fração de segundos, deixamos de ser quem um dia fomos. Como um ator representante de tantos papeis, que deve mudar constantemente de figurino, de script, de contexto, estamos aqui a nos despedir dos tantos personagens ensaiados. Estamos, pois, a nos despir de nós mesmos, em nossa jornada de tantas urgências de sentidos e significados. 
O que é a vida, senão, este eterno redemoinho de verdades frágeis, de palavras temporárias e passos incertos? Se tudo acontece na imprevisibilidade de todas as coisas, se tudo é improviso, não há como se pensar em sentir as raízes quando somos condenados um jogo apaixonante de mudanças profundas. Somente quem um dia pôde maravilhar-se com as tantas faces de si mesmo é que poderá entender este sentimento extasiante de gratidão e fascínio pelos saltos qualitativos que fizeram-nos mais do que meros sobreviventes desta vasta epopeia.
É intrigante olhar para trás e ver tudo o que um dia fomos e perceber o que nos tornamos, ver as peles que deixamos para trás para assumir um outro revestimento para os nossos tecidos frágeis...ver as tantas partidas e as incontáveis chegadas, o vazio do adeus e a presença tão certa nos horizontes que outrora eram apenas anseios futurísticos. Ver-nos morrer de tantas mortes e ainda manter a chama da vida tão intensa... De certo, nossa vida se move a partir de contradições, de contrastes, de antagonismos. O que somos hoje é resultado do que negamos outrora. Nenhum progresso se dá antes de rompermos com certas estruturas e é por isso que ás vezes é preciso sangrar para que as feridas se dissolvam, é preciso quebrar-se para fazer-se inteiro, é preciso despir-se para surgir sobre novas roupagens. Esse estado de alinhamento interno pressupõe sermos os legítimos condutores desta locomotiva, sempre a abraçar o inusitado, a ser inovação e renovação por que quem continua a dançar incessantemente a mesma música, a valsar sempre nos mesmos passos e gestos está, pois, a condenar-se, fatalmente, ao tédio e a desesperança.
Tendencialmente, os grandes saltos se dão à sombra de nossos processos conscienciais, ocorrendo sem que nos déssemos contas de seu impacto.
Escolhas repentinas que mudaram todo o curso de nossa própria história, decisões que nos lançaram em espaços novos, em contextos estrangeiros e, que ao final de uma saga, conduziu-nos ao paraíso prometido. Da menina que se tornou mulher, da semente que fez-se arbusto. somos este eterno vir-a-ser.
Sonhos que projetaram-se na superfície do real, emoções que vigoraram as fibras antes fraquejantes, atmosferas que alteraram o conteúdo do ar que fluía em nossos pulmões, paixões que nos arrebataram, amores que rendeu-nos à ternura, das coragens que venceram os medos, dos riachos que atravessaram as marés, cá estamos nós entre o pretérito nostálgico, o sabor incerto da veracidade do agora, e do ensaio para um futuro que teima em roubar-nos, este grande presente do agora.

sábado, 10 de janeiro de 2015

A gramática literária de um incessante querer(-te)

Quisera eu poder fazer de ti, o protagonista dos cenários que de tanto desejar-te, fez de mim prisioneira de eternas reticencias, consumada pelas exclamações de tua magistral presença em meio ao desvario de interrogações infinitas. És minha sina estar aqui no desafio de decifrar-te, de mergulhar nos teus mares, a arrancar-lhe teus mistérios pois tu sempre foste incógnita para minha ignóbil compreensão. Como vencer o abrupto desvario que me me atinges quando toda estrofe converte-se em linhas suspensas no ar?  

Tua linguagem és sempre uma harmoniosa sequência de versos ritmados, de expressões poéticas que se desnudam na atmosfera de um incessante querer(te). Quando exclamas tuas vontades, é inevitável curvar-me ao enlevo de teus aforismos, àqueles que soam-me como clássicos cânticos de exuberante nobreza.

Flui em mim este incessante desejo que rompe com o silêncio de pontos finais que demarcam os limites do adentrar-te ao teu mundo. Mas tu deste a liberdade de uma crônica para que eu fosse capaz de percorrê-lo e, assim, tu se transformaste em conto escrito sublimemente dentro de mim. 

Preencho-me de teus adjetivos sublimes, sucumbindo quase que involuntariamente ao prenominal possessivo dos desejos teus.  Encontrei-te, um dia no pretérito mais que perfeito mas fiz de ti o futuro do meu presente, porque mesmo no aparente silêncio das ausências, sei que o badalar dos sinos na manhã seguinte anunciará a aurora do teu retorno. Na certeza de que estás sempre entre as lembranças do meu pretérito e os anseios do meu futuro, tudo que me resta é fiar-te aqui nestes instantes me restam de um presente que nos escapa a cada segundo. 


Dias e Noites: Insights numa noite chuvosa

Em meio ao aparente silêncio urbano, de ruas que adormecem na madrugada fria, ausente dos passos apressados e do som ensurdecedor da movimentação humana diurna, vê-se a chuva a pratear calçadas e os semáforos que nunca dormem a deixar-se refletir em tons neon nas ruas desertas.
Chuvas improváveis de dia, mas que acedem ao espetáculo nas noites melancólicas. Chuvas que ascendem os rumores noturnos, chuvas que entoam notas de um piano distante. Faz-se o torrencial, porque é chuva também na alma e nela faz-se enchente, manancial de tantos desejos. Chuvas que lavam a ferida ainda em aberto, indolor ao seu contato, não há de sangrar mais. É tempo de fecundidade no solo que um dia fora condenado à aridez e a chuva a penetrar em meus poros revigora os meus pulmões que transbordavam em anseios perturbadores.
Chuvas que, constrangidas de dia, revelam segredos nas noites serenas, porque enquanto os dias ocupam-nos com um gigantesco arsenal de demandas, nas noites tudo desanda. Há um convite para o inusitado, o exultante das paixões d'alma. Dias são fotografias e noites pinturas à óleo sobre tela. Dias de oásis, noites de cascata.  Dias se dão entre textos em contextos num emaranhado de linhas e formas complexas que se entrecruzam, noites são páginas abertas e não lineares de uma grande epopeia. Proseia-se de dia, para poetizar-se à noite. Noites que preenchem os dias entendiantes, noites que incita-nos ao novo, ao improvável, ao condenável. Noites em que tudo silencia, mas onde as vozes ecoam cânticos jamais audíveis  na dinâmica sufocante e ensurdecedoras dos dias metropolitanos. Noites em que suspiros tiram o direito das palavras, noites que entoam sinfonias distantes em acordes melancólicos.
Noites que embalam fantasias exuberantes, que nos faz adormecer em meio às brumas prateadas de uma noite que não dorme, mas que silencia harmoniosamente os excessos da vida diurna. Enquanto os dias são novelas carregadas de dramaticidade, as noites trazem a atmosfera serena e vibrante de um concerto clássico. Anoitece para sonharmos as auroras de possibilidades inspiradoras, amanhece para reiniciar a nossa jornada em busca das tantas auroras que a justificam.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Teu domínio de mim - Sincronias, olhares e poderes



Há dias em que, subitamente, somos tomados por pressentimentos que nos intrigam como se diante de uma contingencia de fatos misteriosos  Estranhas sensações antecipavam o que estava por vir e, mesmo na aparente calmaria havia uma inquietação incessante. Em mim já sentira o fervor do inesperado, a imponência de uma presença que se aproximara a passos firmes e elegantes, de gestos ritmados, ostentando um olhar também firme, solene, ainda que perturbador. Na penumbra de um típico entardecer surgia-te ávido, impaciente, resoluto a romper o aparente silêncio daquele aposento. Não bastava ignorar-te. Em poucos segundos afigurava tua solene presença. Aproximava-se tomado por uma segurança e uma discrição que rompia abruptamente com quaisquer fonteiras. Por mais concentração que firmava na tentativa de preservar a privacidade que já se reduzira a um diminuto perímetro, tu já estabelecera o domínio sobre cada centímetro daquele lugar. De maneira impetuosa, porém escandalosamente sublime, deixava no ar o perfume que emanava de tua pele, notas amadeiradas em sândalo a atingir-me os sentidos. Tomara posse sem proferir uma única palavra. Em pouco, todo o cenário a ti pertencia. Colonizara os espaços, tomara para si os instantes. Havia uma determinação nobre em cada gesto de avidez, um sábio compasso dos teus movimentos apressados. Não pedira licença para qualquer ato, pois havia conquistado também todos os consentimentos. 

Já pressentira de imediato, aquele não seria um dia comum, havia uma sutil inquietação que pairava no ar. Uma agitação silenciosa, porém concreta, certa, persistente. Tua nobre e tempestiva presença agitara os mares e tuas ondas arrebatavam-me com uma força poderosa que adentrava cada fibra do meu ser. E não havia tempo hábil para resistir à sincronia que, de pronto, se estabelecera, nem lutar contra forças sobre-humanas que já desmantelavam qualquer lampejo meu de sanidade. Rendi-me à tempestade e ao desejo que despertara de fiar-me ao desconhecido. Tomada pela sede de liberdade, pela emoção de sentir-te intensamente, eu me vi desprovida de toda a sensatez.

Num dia comum, em lugar cotidiano eu presenciei o inexplicável e vi cada uma de minhas defesas derreter-se diante de mim. Eis que uma imagem é retida nos recônditos do meu ser, emerge sempre tu emoldurado em incompreensíveis pensamentos meus. Tu, que nunca fora dado ao decoro,  persistia na tua voluptuosa ambição.  Sempre insurge em intimidadora presença e quando vens,  não só surges discretamente, mas me vens em intensa exaltação. Involuntariamente, percorre-me sem dar-me o sentido. Simplesmente me vens na tenacidade de dias comuns. 

Engano meu pressupor que na órbita terrestre, a noite consumiria o dia e nada mais poderia restar daquele dia. Não, o mundo girava rodopiando sempre as mesmas linhas que sutilmente se desenhavam no ar. E por mais que o mundo gire, gire, em velocidades improváveis, os fios tênues de sua presença permaneciam ali, intactos, mesmo em tua aparente ausência. Tu incidira em mim, adentraste o meu mundo sem maiores preâmbulos e de tanto nele persistir, em mim fizera-se uma indestrutível fortaleza. 

Nada poderia ser indiferente à tua poderosa presença. Os lugares por onde sempre percorriam pareciam ter muito a dizer-me sobre ti e, algumas vezes, era-me possível prever alguns de seus passos, pois havia tua marca flamejante em cada recinto por onde passaras e por cada objeto que dedilhavas. Era forte e intenso demais.

A memória de um dia tolo e isolado reaparece, resplandece, toma corpo, toma espaço,  passa a conter algo de vital. Algo que existe apesar e independente de... Simplesmente se faz e se refaz incessantemente e, assim, perdurava ti em mim. Quando te aproximas surge a inquietação e num desvario meu, já estava lá, tú, no horizonte do meu olhar, depois de ter atravessado, sem sobreaviso, as cercanias do meu mundo, jazias tu de fronte às pontes pelas quais percorri. Eu era capaz de escutar tua respiração apressada e acompanhar a impaciência de tuas mãos a cobrar-me as palavras que me escapavam.  

Era uma estranha sensação que ocorria-me nestes instantes, como se procedesse uma sucessão de delírios no qual eu atravessara para depois retomar a consciência, sem qualquer vestígio inteligível do que se passara, apenas tomada pela intensidade dos eventos. E bastavam tão somente palavras enigmáticas proferidas pelos teus lábios firmes e serenos. Havia defesa e resistência quando falavas com sua elegância em seus gestos nobres e contidos. A sensação do improvável e do inalcançável é que absorviam-me. E sorvia-me tu, sem qualquer retidão.

Qual o sentido das palavras tatuadas a fogo sobre a pele senão a estratégia para fazê-lo vivo nas ausências?! Não faria sentido o queimor de ti em mim se estas sensações fossem mais do que castelos frágeis suspensos no ar. Mas o que ficaste daqueles momentos tão cotidianos eram as formas invisíveis que você desenhava no ar e que os olhos da alma acompanhavam. Uma linguagem  que se desdobravam em símbolos. Mas havia uma identificação no timbre do seu olhar, nos nuances de sua voz. Seu caminhar, seu expressar, seu silenciar...era tão fantástico sentir-me por detrás de uma imensa vidraça apenas contemplando este oásis. Por ternos segundos, talvez milésimos de segundo. 

E, de repente, quando te aproximas atravessando esta imensa vidraça tudo há de voltar ao normal. Com a mesma elegância com que caminhavas, minha alma voltaria a ser a mesma, desfazendo-me dolorosamente das chamas que tu abriste sobre mim. Tudo que até pouco segundos estava na mais intensa desordem agora jaz, calmamente em seu lugar, mas não sem sentir a colateralidade destes efeitos. Porque as fibras e as pupilas dilataram-se e os sentidos ainda estavam docemente entorpecidos. O sangue aquecido que outrora percorria fervorosamente nas veias, agora percorria de forma lenta, o corpo dormente paralisava para absorver cada segundo das palavras que adentravam meu ser. Os sentidos fizeram-se lúcidos, visões, aromas e sons conduziam-te em meio devaneio. E eu permaneci desse modo, com os músculos anestesiados enquanto os sentidos observavam e descreviam sensações inexplicáveis. Era forte e intenso demais para interromper a processualidade dos instantes.  Como se os olhos, boca e ouvidos estivessem a poetizar-te em minha pele, guardando-te em memórias eternas. 

De certo, espantava-me a intrepidez daqueles cenários proibidos. Tremia diante do prelúdio de uma insanidade e tinha receio de imaginar o quanto iria me ferir quando em contato a firmeza do solo a despertar-me deste desvario meu. Não desejava, nunca, sentir a aspereza da superfície a ralhar-me a pele. Preferia as chamas de tua presença a inflamar-me. Talhar-te em mim justificava as chagas que tatuavam-me a pele.
Nunca desejei ser rendida a tamanho poder que exercias sobre mim, entretanto, era justamente a tua ousadia revestida deste manto de nobreza que incitava-me à transcendência do lugar-comum. Ter-te em mim era como sobrevoar para além das certezas entediantes, por isso fascinava-me teus passos altívolos, teus atos indômitos que arrancavam-me dos fastidiosos momentos de lentidão.  Tua força de domínio, contudo, era também de absoluta ternura. Após o domínio, havia uma temporária e envolvente calmaria que roubavam-lhe um semblante sereno, um olhar que desfrutara desinteressadamente daquilo que conquistara.  Ergueu-se um império ao meu redor e eu desejei, sem maiores resistências, a sabedoria, a nobreza e a determinação do teu governo. 

E bastava observar-te por segundos para que meus sentidos sorrissem em compasso semelhante aos teus. No caos, na desordem do mundo, no intricado labirinto da existência, eis tu a mirar para qualquer coisa em semblante absoluto sereno, com o esboço de um sorriso nos lábios. Tão verdadeiro, ainda com a expressão pueril nas curvas da face. Todos os objetos que tocara sorriam, como se devolvessem a generosidade de tuas mãos, a ternura do teu olhar. 

Eram tão somente instantes, devaneios, ilusões tolas e, simultaneamente, era a perdição do extraordinário.  Não, não foi por uma espécie de paixão, uma emoção voluptuosa a sequestrar-me a racionalidade, mas era o exercício nobre do sentir. Era tão somente um a sucessão de imagens poéticas que tirava-me a gravidade, deixando tudo suspenso no ar. E eu, como nunca, fui desejante deste poder, pois nele havia a chama da vida, a intensidade de momentos que libertavam-me das certezas, das convicções e dos princípios que mortificavam a vivacidade do espírito. 

Chegaste num tropel, adormecera após a agitação que iniciaste e retornaria para algum lugar . Em minha memória permaneceria cada movimento teu, cada cenário paradisíaco a que me conduzira.   Mas você precisava partir, era erro ali estar, tua graça residia no inesperado e inusitado. Mas agora que desafiaste minha liberdade, aquele grão pulsante que tu expandira sem solicitar qualquer permissão, ahh, este vibrará para sempre a chama que há poucos segundos incendiara-me. Tu, deves agora recolher cada fio que talhaste por onde estives. E eu, recolherei-me, sempre certa da calmaria mortal que viria.

Esvaziando-me dos teus encantos, despindo-me das insistências fatídicas,  e  dos sorrisos...ei-me aqui num suspiro de alívio, pois recuperaria a solidão que fizera-me forte, sempre.


Who are you?
Are you in touch with all your darkest fantasies?
Have you created a life for yourself where you're free to experience them?
I have! I am fucking crazy, but I am free!" (Ride - Lana del Rey's monologue)