sábado, 10 de janeiro de 2015

Dias e Noites: Insights numa noite chuvosa

Em meio ao aparente silêncio urbano, de ruas que adormecem na madrugada fria, ausente dos passos apressados e do som ensurdecedor da movimentação humana diurna, vê-se a chuva a pratear calçadas e os semáforos que nunca dormem a deixar-se refletir em tons neon nas ruas desertas.
Chuvas improváveis de dia, mas que acedem ao espetáculo nas noites melancólicas. Chuvas que ascendem os rumores noturnos, chuvas que entoam notas de um piano distante. Faz-se o torrencial, porque é chuva também na alma e nela faz-se enchente, manancial de tantos desejos. Chuvas que lavam a ferida ainda em aberto, indolor ao seu contato, não há de sangrar mais. É tempo de fecundidade no solo que um dia fora condenado à aridez e a chuva a penetrar em meus poros revigora os meus pulmões que transbordavam em anseios perturbadores.
Chuvas que, constrangidas de dia, revelam segredos nas noites serenas, porque enquanto os dias ocupam-nos com um gigantesco arsenal de demandas, nas noites tudo desanda. Há um convite para o inusitado, o exultante das paixões d'alma. Dias são fotografias e noites pinturas à óleo sobre tela. Dias de oásis, noites de cascata.  Dias se dão entre textos em contextos num emaranhado de linhas e formas complexas que se entrecruzam, noites são páginas abertas e não lineares de uma grande epopeia. Proseia-se de dia, para poetizar-se à noite. Noites que preenchem os dias entendiantes, noites que incita-nos ao novo, ao improvável, ao condenável. Noites em que tudo silencia, mas onde as vozes ecoam cânticos jamais audíveis  na dinâmica sufocante e ensurdecedoras dos dias metropolitanos. Noites em que suspiros tiram o direito das palavras, noites que entoam sinfonias distantes em acordes melancólicos.
Noites que embalam fantasias exuberantes, que nos faz adormecer em meio às brumas prateadas de uma noite que não dorme, mas que silencia harmoniosamente os excessos da vida diurna. Enquanto os dias são novelas carregadas de dramaticidade, as noites trazem a atmosfera serena e vibrante de um concerto clássico. Anoitece para sonharmos as auroras de possibilidades inspiradoras, amanhece para reiniciar a nossa jornada em busca das tantas auroras que a justificam.

Nenhum comentário:

Postar um comentário