Há dias em que, subitamente, somos tomados por pressentimentos que nos intrigam como se diante de uma contingencia de fatos misteriosos Estranhas sensações antecipavam o que estava por vir e, mesmo na aparente calmaria havia uma inquietação incessante. Em mim já sentira o fervor do inesperado, a imponência de uma presença que se aproximara a passos firmes e elegantes, de gestos ritmados, ostentando um olhar também firme, solene, ainda que perturbador. Na penumbra de um típico entardecer surgia-te ávido, impaciente, resoluto a romper o aparente silêncio daquele aposento. Não bastava ignorar-te. Em poucos segundos afigurava tua solene presença. Aproximava-se tomado por uma segurança e uma discrição que rompia abruptamente com quaisquer fonteiras. Por mais concentração que firmava na tentativa de preservar a privacidade que já se reduzira a um diminuto perímetro, tu já estabelecera o domínio sobre cada centímetro daquele lugar. De maneira impetuosa, porém escandalosamente sublime, deixava no ar o perfume que emanava de tua pele, notas amadeiradas em sândalo a atingir-me os sentidos. Tomara posse sem proferir uma única palavra. Em pouco, todo o cenário a ti pertencia. Colonizara os espaços, tomara para si os instantes. Havia uma determinação nobre em cada gesto de avidez, um sábio compasso dos teus movimentos apressados. Não pedira licença para qualquer ato, pois havia conquistado também todos os consentimentos.
Já pressentira de imediato, aquele não seria um dia comum, havia uma sutil inquietação que pairava no ar. Uma agitação silenciosa, porém concreta, certa, persistente. Tua nobre e tempestiva presença agitara os mares e tuas ondas arrebatavam-me com uma força poderosa que adentrava cada fibra do meu ser. E não havia tempo hábil para resistir à sincronia que, de pronto, se estabelecera, nem lutar contra forças sobre-humanas que já desmantelavam qualquer lampejo meu de sanidade. Rendi-me à tempestade e ao desejo que despertara de fiar-me ao desconhecido. Tomada pela sede de liberdade, pela emoção de sentir-te intensamente, eu me vi desprovida de toda a sensatez.
Num dia comum, em lugar cotidiano eu presenciei o inexplicável e vi cada uma de minhas defesas derreter-se diante de mim. Eis que uma imagem é retida nos recônditos do meu ser, emerge sempre tu emoldurado em incompreensíveis pensamentos meus. Tu, que nunca fora dado ao decoro, persistia na tua voluptuosa ambição. Sempre insurge em intimidadora presença e quando vens, não só surges discretamente, mas me vens em intensa exaltação. Involuntariamente, percorre-me sem dar-me o sentido. Simplesmente me vens na tenacidade de dias comuns.
Engano meu pressupor que na órbita terrestre, a noite consumiria o dia e nada mais poderia restar daquele dia. Não, o mundo girava rodopiando sempre as mesmas linhas que sutilmente se desenhavam no ar. E por mais que o mundo gire, gire, em velocidades improváveis, os fios tênues de sua presença permaneciam ali, intactos, mesmo em tua aparente ausência. Tu incidira em mim, adentraste o meu mundo sem maiores preâmbulos e de tanto nele persistir, em mim fizera-se uma indestrutível fortaleza.
Engano meu pressupor que na órbita terrestre, a noite consumiria o dia e nada mais poderia restar daquele dia. Não, o mundo girava rodopiando sempre as mesmas linhas que sutilmente se desenhavam no ar. E por mais que o mundo gire, gire, em velocidades improváveis, os fios tênues de sua presença permaneciam ali, intactos, mesmo em tua aparente ausência. Tu incidira em mim, adentraste o meu mundo sem maiores preâmbulos e de tanto nele persistir, em mim fizera-se uma indestrutível fortaleza.
Nada poderia ser indiferente à tua poderosa presença. Os lugares por onde sempre percorriam pareciam ter muito a dizer-me sobre ti e, algumas vezes, era-me possível prever alguns de seus passos, pois havia tua marca flamejante em cada recinto por onde passaras e por cada objeto que dedilhavas. Era forte e intenso demais.
A memória de um dia tolo e isolado reaparece, resplandece, toma corpo, toma espaço, passa a conter algo de vital. Algo que existe apesar e independente de... Simplesmente se faz e se refaz incessantemente e, assim, perdurava ti em mim. Quando te aproximas surge a inquietação e num desvario meu, já estava lá, tú, no horizonte do meu olhar, depois de ter atravessado, sem sobreaviso, as cercanias do meu mundo, jazias tu de fronte às pontes pelas quais percorri. Eu era capaz de escutar tua respiração apressada e acompanhar a impaciência de tuas mãos a cobrar-me as palavras que me escapavam.
Era uma estranha sensação que ocorria-me nestes instantes, como se procedesse uma sucessão de delírios no qual eu atravessara para depois retomar a consciência, sem qualquer vestígio inteligível do que se passara, apenas tomada pela intensidade dos eventos. E bastavam tão somente palavras enigmáticas proferidas pelos teus lábios firmes e serenos. Havia defesa e resistência quando falavas com sua elegância em seus gestos nobres e contidos. A sensação do improvável e do inalcançável é que absorviam-me. E sorvia-me tu, sem qualquer retidão.
Qual o sentido das palavras tatuadas a fogo sobre a pele senão a estratégia para fazê-lo vivo nas ausências?! Não faria sentido o queimor de ti em mim se estas sensações fossem mais do que castelos frágeis suspensos no ar. Mas o que ficaste daqueles momentos tão cotidianos eram as formas invisíveis que você desenhava no ar e que os olhos da alma acompanhavam. Uma linguagem que se desdobravam em símbolos. Mas havia uma identificação no timbre do seu olhar, nos nuances de sua voz. Seu caminhar, seu expressar, seu silenciar...era tão fantástico sentir-me por detrás de uma imensa vidraça apenas contemplando este oásis. Por ternos segundos, talvez milésimos de segundo.
E, de repente, quando te aproximas atravessando esta imensa vidraça tudo há de voltar ao normal. Com a mesma elegância com que caminhavas, minha alma voltaria a ser a mesma, desfazendo-me dolorosamente das chamas que tu abriste sobre mim. Tudo que até pouco segundos estava na mais intensa desordem agora jaz, calmamente em seu lugar, mas não sem sentir a colateralidade destes efeitos. Porque as fibras e as pupilas dilataram-se e os sentidos ainda estavam docemente entorpecidos. O sangue aquecido que outrora percorria fervorosamente nas veias, agora percorria de forma lenta, o corpo dormente paralisava para absorver cada segundo das palavras que adentravam meu ser. Os sentidos fizeram-se lúcidos, visões, aromas e sons conduziam-te em meio devaneio. E eu permaneci desse modo, com os músculos anestesiados enquanto os sentidos observavam e descreviam sensações inexplicáveis. Era forte e intenso demais para interromper a processualidade dos instantes. Como se os olhos, boca e ouvidos estivessem a poetizar-te em minha pele, guardando-te em memórias eternas.
E, de repente, quando te aproximas atravessando esta imensa vidraça tudo há de voltar ao normal. Com a mesma elegância com que caminhavas, minha alma voltaria a ser a mesma, desfazendo-me dolorosamente das chamas que tu abriste sobre mim. Tudo que até pouco segundos estava na mais intensa desordem agora jaz, calmamente em seu lugar, mas não sem sentir a colateralidade destes efeitos. Porque as fibras e as pupilas dilataram-se e os sentidos ainda estavam docemente entorpecidos. O sangue aquecido que outrora percorria fervorosamente nas veias, agora percorria de forma lenta, o corpo dormente paralisava para absorver cada segundo das palavras que adentravam meu ser. Os sentidos fizeram-se lúcidos, visões, aromas e sons conduziam-te em meio devaneio. E eu permaneci desse modo, com os músculos anestesiados enquanto os sentidos observavam e descreviam sensações inexplicáveis. Era forte e intenso demais para interromper a processualidade dos instantes. Como se os olhos, boca e ouvidos estivessem a poetizar-te em minha pele, guardando-te em memórias eternas.
De certo, espantava-me a intrepidez daqueles cenários proibidos. Tremia diante do prelúdio de uma insanidade e tinha receio de imaginar o quanto iria me ferir quando em contato a firmeza do solo a despertar-me deste desvario meu. Não desejava, nunca, sentir a aspereza da superfície a ralhar-me a pele. Preferia as chamas de tua presença a inflamar-me. Talhar-te em mim justificava as chagas que tatuavam-me a pele.
Nunca desejei ser rendida a tamanho poder que exercias sobre mim, entretanto, era justamente a tua ousadia revestida deste manto de nobreza que incitava-me à transcendência do lugar-comum. Ter-te em mim era como sobrevoar para além das certezas entediantes, por isso fascinava-me teus passos altívolos, teus atos indômitos que arrancavam-me dos fastidiosos momentos de lentidão. Tua força de domínio, contudo, era também de absoluta ternura. Após o domínio, havia uma temporária e envolvente calmaria que roubavam-lhe um semblante sereno, um olhar que desfrutara desinteressadamente daquilo que conquistara. Ergueu-se um império ao meu redor e eu desejei, sem maiores resistências, a sabedoria, a nobreza e a determinação do teu governo.
E bastava observar-te por segundos para que meus sentidos sorrissem em compasso semelhante aos teus. No caos, na desordem do mundo, no intricado labirinto da existência, eis tu a mirar para qualquer coisa em semblante absoluto sereno, com o esboço de um sorriso nos lábios. Tão verdadeiro, ainda com a expressão pueril nas curvas da face. Todos os objetos que tocara sorriam, como se devolvessem a generosidade de tuas mãos, a ternura do teu olhar.
Eram tão somente instantes, devaneios, ilusões tolas e, simultaneamente, era a perdição do extraordinário. Não, não foi por uma espécie de paixão, uma emoção voluptuosa a sequestrar-me a racionalidade, mas era o exercício nobre do sentir. Era tão somente um a sucessão de imagens poéticas que tirava-me a gravidade, deixando tudo suspenso no ar. E eu, como nunca, fui desejante deste poder, pois nele havia a chama da vida, a intensidade de momentos que libertavam-me das certezas, das convicções e dos princípios que mortificavam a vivacidade do espírito.
Chegaste num tropel, adormecera após a agitação que iniciaste e retornaria para algum lugar . Em minha memória permaneceria cada movimento teu, cada cenário paradisíaco a que me conduzira. Mas você precisava partir, era erro ali estar, tua graça residia no inesperado e inusitado. Mas agora que desafiaste minha liberdade, aquele grão pulsante que tu expandira sem solicitar qualquer permissão, ahh, este vibrará para sempre a chama que há poucos segundos incendiara-me. Tu, deves agora recolher cada fio que talhaste por onde estives. E eu, recolherei-me, sempre certa da calmaria mortal que viria.
Esvaziando-me dos teus encantos, despindo-me das insistências fatídicas, e dos sorrisos...ei-me aqui num suspiro de alívio, pois recuperaria a solidão que fizera-me forte, sempre.
Who are you?
Are you in touch with all your darkest fantasies?
Have you created a life for yourself where you're free to experience them?
I have! I am fucking crazy, but I am free!" (Ride - Lana del Rey's monologue)
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