sábado, 29 de novembro de 2014

A jornada pelo subsolo

Dir-se-ia ser um daqueles instantes em que era preciso tira o pó da mobília, das estantes e abrir algumas portas e janelas improváveis, descer ao subsolo de memórias congeladas no tempo, de lembranças cristalizadas, de olhares perdidos na imensidão silenciosa dos corredores, quase labirintos que desenham os invólucros da alma. Tudo, absolutamente tudo que um dia fui e vivi deixava  marcas profundas neste oceano biográfico. Os palcos estavam vazios, as poltronas empoeiradas, retratos, cheiros e anseios estavam espalhados pela superfície. Tal como o caos, tudo estava em absoluta desordem. Riscar um fósforo era arriscado quando tudo que jazia inerte ganha vida, cores, música e não é sempre que estamos preparados para valsar nos salões da existência onde restara apenas o vestígio de uma melodia triste.
Os corredores estreitos nos quais eu percorria em busca de "um grande talvez" emergia infinitas interrogações. Percorrê-lo era visualizar os soluços que encobriam as palavras não ditas, a violência de ter que silenciá-las. Havia ainda os sorrisos contidos, os gestos envergonhados, as lágrimas que um dia eram quentes de emoção, de redenção, de autoencontro estavam, pois cristalizadas em 
tempos de inverno. Era a vida entreatos. Houve dias em que não bastava mais ser e saber. Era necessário sentir...e do sentimento fazia a necessidade de percorrer cada veia, cada fibra, cada músculo  do corpo em busca daquilo que nos escapa.
A questão é: até que ponto somos capazes de nos permitir descer aos lugares inóspitos de nosso porão interior? Enfrentar fantasmas, velhas lembranças, aceitar um tipo de liberdade que nos impressiona...enfrentar a vaidade de sabermos, por fim, que somos absolutamente vulneráveis e que cambaleamos pelas avenidas incertas do destino. 
Por vezes, estamos a caminhar sem propósito por entre os perímetros da vida jorrada para abaixo da superfície. Inevitavelmente, somos absorvidos pela vida não vivida, a vida suprimida, a vida implodida, prestes a entrar em erupção.
Nos subsolos da existência é que, de fato, existimos. O lugar em que nos permitirmos sermos tolos e ridículos pois não há palcos ou holofotes. Há, pois o Ser e o Nada. Eis o convite fenomenológico da existência: um retorno as coisas-mesmas. 

domingo, 23 de novembro de 2014

O Brasil projetado na tela: entre o vermelho e o negro

O cortejo fúnebre
Negro
Corpos dilacerados
Vermelho vivo
A seca
A dança da morte
Tantos tons de vermelho
A arte obscurecida
Tons acinzentados e
Tons avermelhados
incompatíveis, mas vívidos
Nas telas os tiros
nos tiros o grito
no grito o desespero
desperante da discórdia.
A miséria em vermelho
O negro miseravelmente em vermelho
O mundo dos homens
fundou império entre o vermelho e o negro
Não há inspirações para a fuga
É a poesia assassinada
a Arte deslocada do belo e do sublime
para os abismos da tortura e da miséria
mares em vermelho-negro
encobrem a mata verdejante
mata que não é mais mata
por isso mata a natureza romântica
em serras cinzentas explodindo em vermelho
Na tela uma mostra de ausências
abandonos, há cheiro de morte
Aonde é que foram parar as cores do arco-iris?
Somos seduzidos pelas realidades
em cinza e vermelho
Nacionalistas e patriotas
conformados com
o vermelho e o negro
Artistas do absurdo humano
Escultores da tragicidade
Telas que reproduzem a caótica mesmisse
que apriosiona memórias doentias
em livros acinzentados
condecorados de dálias negras
Repentistas de tantas mortes
Projetistas de tantas mazelas
Proclamaram a morte das artes sublimes
por meio de um nacionalismo em vermelho
que faz da perdição a única condição
que nega a vida em poesia
que debocha da persistência do belo
Brasil em vermelho e negro
sorri doentemente para o infortúnio
Idiotalizado pelas tipologias nacionais
da deformação, da vulgaridade, da perfídia...



sábado, 8 de novembro de 2014

Em defesa da contemplação do Universo - Salvai a poética filosófica...

Caos e vazio. 
Duas pequenas palavras que traduzem o absurdo existencial de tempos em que somos convocados a reconstruir as experiências e as dimensões do sentido numa superfície incerta, instável e demasiadamente frágil de uma realidade que se desperta das ilusões modernas, das utopias e dos castelos de contos de fada que a Ciência prometera.
Sem referências, sem destinos, sem trilhas, lançado ao abismo do vazio. Um Niilismo travestido de 
Pobre homens da Pós-Modernidade que hoje se perguntam: o que sobrou dos séculos vindouros da Razão? Será que algo sobrou dos sonhos, das utopias, das promessas da Modernidade? Mais perturbador ainda seria indagar, o que fazem hoje, daquilo que foi feito com eles?
Lançados à própria sorte num mundo movido pela velocidade ilimitada e pela constante aceleração, lograr espaço para a construção da experiência simbólica do Self é um desafio a ser travado diariamente, pois a crise de identidade deflagrada com o arrebatador processo de homogenização iniciado a partir da segunda metade do século XX faz da espécie humana um gigantesco laboratório de sujeitos massificados, funcionais, 'eficientes' e responsivos à lógica de um sistema que diante desta ausência de referências, institui formas de representações simbólicas a partir da lógica da produtividade.
Nunca os valores de produtividade e eficiência foram tão introjetados e, quem diria, tão internalizados não apenas nos sujeitos bestializados pelas tendências culturais contemporâneas, mas também na própria episteme das Humanidades. Que me perdoe, os materialistas, porém o caos instalado no conhecimento e na experiência filosófica é, sobretudo, resultado da perda da conexão com a primeira das virtudes filosóficas que remetem à Antiguidade Grega: a contemplação. É o preço de um mundo explicado apenas pelas suas estruturas, no máximo por superestruturas desconexas e que proclamam a morte do romantismo filosófico. Transformar o mundo sem transformar o próprio homem é um equívoco terrível, o qual culminou nesta Era de Extremos e de intensificação das assimetrias humanas. Há homens sucumbindo aos discursos sociais limitantes e homens que agarram às suas próprias ruínas para (re)construir-se e repensar os horizontes que tomou para si. Já dizia o grande escritor inglês Oscar Wilde "Estamos todos na sarjeta, porém alguns estão olhando as estrelas"...
Atualmente, minha impressão é de que os processos de contemplação conheceram os seus limites históricos, sendo suprimidos na experiência pós-moderna visto que o homem não se reconhece a partir do contato sensível com o seu espírito, mas através de uma identidade moldada em torno do consumo material e, especialmente, simbólico, pois necessitamos do abastecimento diário de emoções artificiais. Consumimos a experiência do sentido, mas não paramos pra construí-la, modificá-la, edificá-la, pois estamos sempre muito ocupados a serviço da cultura  que nos pressiona a trabalhar em cima de uma performance definida exógenamente e a priori por sujeitos ou instituições anônimas á existência individual. 
Frequentemente confundida com preguiça e indolência tanto pelo senso comum quanto para instituições até então, sólidas, como a família e a Igreja, a contemplação em Filosofia encerra-se na eclosão intelectual de grandes Mestres da filosofia moderna como Schopenhauer, Nietzsche e Freud, os quais contribuíram enormemente para a evolução física e metafísica do mundo a partir de suas suspeitas. Como grandes investigadores dos fenômenos subjetivos do homem e da sociedade, estes grandes Mestres da Suspeita ousaram dar respostas arrebatadoras para um mundo estruturalmente rígido por verdades inquestionáveis. Estes gênios, muitas vezes injustamente incompreendidos [mesmo pelos intelectuais] são exemplos de uma vivência filosófica eminentemente contemplativa, pois ousaram interpenetrar no mais íntimo da Natureza do Self, extraindo dele mesmo as dores do mundo. Nietzsche fez da tragicidade da própria vida um sistema filosófico combativo porém, simultaneamente, ancorado na ideia de que cabia ao ser [e somente a ele] construir a sua própria existência e definir seus estados anímicos, afinal, a Terra, o Mundo, o Universo não pararia para que os homens recolhessem seus próprios fragmentos. Tudo continuaria, num eterno retorno...
No entanto, pensar este caráter contemplativo da Filosofia nos dias atuais é quase uma tarefa impossível de ser empreendida. Tendemos a nos constranger com uma experiência filosófica na qual edificamos nossos impérios através da ociosidade criativa, da peregrinação silenciosa, dos momentos de interiorização que requer uma total entrega de nós para nós mesmos. Somos programados para ser sujeitos laboriosos e nossos prazeres tem sido cooptados dentro dos rituais sociais que entorpecem nossos sentidos. Ora, o mundo contemporâneo é um conglomerado de vozes triunfantes que nos impele, a todo momento, a dialogar, discursar, opinar, encontrar soluções rápidas e eficazes, além de despejar sobre a nossa privacidade uma série de mensagens contraditórias e intimidadoras que nos leva, a todo momento, sermos atores [ou fantoches] da sociedade do espetáculo observada pelo escritor francês Guy Debord.
A poética filosófica está, pois, ameaçada pelo constrangimento frente a experiência romântica e a esta adrenalina pulsante que anula a experiência do sentido, convertendo-a em experiências de servidão voluntárias sem que nos déssemos conta de que, dia após dia, perdemos um pouco de nós mesmos, que aquela imagem de nos sacrificarmos para afirmarmo-nos perante ao mundo não passa de um invólucro prestes a se desmanchar com qualquer suspiro de vida.
Contudo, uma reflexão se faz necessária: diante da transitoridade, transitoriedade e efemeridade de todas as coisas e de todos os sentidos e valores do mundo pós moderno, diante de toda a obsolência, de todas as transformações e conversões, o que sobrará de nós, quando deslocados das relações materiais dentro de um contexto sólido? Com a 'liquefação' do mundo, em que bases nos apoiaremos nos 'pós guerra' da experiência concreta? 
A concretude se desvela tão frágil e não nos preocupamos com este contato sensível e transcendente que é o ponto crucial para a (re)construção de nós mesmos.