domingo, 25 de janeiro de 2015

Travessias em tempos de incertezas

E naquele dia aparentemente sereno, estava eu a me confrontar com as minhas próprias incertezas, fitando a ponte que definiria o meu destino ou que, ao menos, me arrancaria das raízes profundas duma jornada habituada a sentir a firmeza e a seguranças que se pode ter quando nutrimos as raízes profundas de todas as coisas. Muito mais do que o esforço para manter os passos seguros na rigidez das superfícies era. A examinar, cuidadosamente os desvarios provocados por um simples "sim"  e a sentença de reclusão procedida de um "não" é que estava a meditar no silêncio de pensamentos meus. No horizonte que se perdia entre as montanhas e o arvoredo que cobria planícies improváveis havia uma ponte estreita porém longa que se estendia de uma extremidade a outra de uma paisagem que mais se assemelhava a uma tela pintada a óleo. Os horizontes longínquos eram como brumas salpicadas de um azul ciano a desbotar artisticamente as silhuetas das árvores e dos rochedos. Em pouco, nada restara para a visibilidade matutina de um dia que nascera tímido em meio às geadas do mês de Junho. Restara imponente apenas a velha ponte que atravessara o rio que jamais deixara de percorrer torrencialmente em suas margens. Rios que nunca dormem, rios que  desaguam incessantemente em destinos incertos. Dois mundos se dividiam por este montante de pedra e de madeira, dois mundos tão próximos e tão distantes. A travessia implicava em riscos eminentes. Era um caminho sem volta, pois quem arriscasse uma travessia jamais retornaria com as mesmas percepções e sensações. Corria-se o risco, ainda, de nunca mais voltar...havia a hipótese assustadora de não mais existirem pontes, pois cada segundo de pensamento, cada desvario interno e cada insensatez da imaginação poderia simplesmente desmanchar qualquer sinal de solidez. Era este estado líquido o motivo do temor. De ir, ir-se, partir-se e não poder mais voltar para a casa. Era o temor de que aquele som entoado pelo piano envelhecido pudesse cessar e, sem a música, o caminho poderia ser um erro...porque minha vida sempre valsara aos sons ritmados de um concerto clássico. Nunca fui de muitas conversas, evitara sempre os ruídos indesejáveis, o diálogo esvaziado, as palavras fúteis. Em verdade, era nos solilóquios que as palavras profundas, as palavras carregadas de sentidos e anseios despontavam na mais harmoniosa das sinfonias. Contudo, não mais bastava os acordes sinfônicos metodicamente entoados nem os recitais poéticos metricamente articulados, havia uma incômoda inquietação fervilhando em meu peito, havia algo de perturbador ao fitar aquela ponte infinita que jazia todos os dias em imperativa presença entre paisagens que se alteravam no girar incessante de ponteiros que cobravam-se a resolução do aparente espanto e das urgências nauseantes que me consumavam dia após dia.
Eram tempos de travessias, tempos em que o tudo e o nada se interpunham como num eclipse total de forças opostas. E, por isso, me dei conta de que, talvez, era preciso atravessar noites obscuras com a fé inabalável na claridade que procederia após o rompimento da junção irresistível de tais forças. Não sabia se do outro lado era dia ou era noite. Se era tempestade ou calmaria. Não estava certa nem mesmo se haveria superfícies....mas eu era como a ponte que se curvava entre estes dois mundos. Tal como esta estrutura imponente que reúne grandes esforços para manter seu domínio entre extremidades longínquas, eu precisava partir na certeza de que eu só desistiria após testar todos os passos possíveis, após percorrer ardentemente os propósitos que me lançaram neste labirinto de incertezas. 
Estava pronta, não havia mais motivos para ressalvas quando a alma, já em chamas, lhe arrasta para o desconhecido na certeza de que, entre o delírio e a lucidez, ainda havia mundos a serem desenhados, realidades a serem escritas, caminhos a perscrutar e uma vida inteira a ser salva da perdição diante do tédio, da desesperança e da perda de pedaços nossos em meio a textos e contextos que nunca nos servirão, nunca nos bastarão e nunca suportarão estes sonhos que convulsionam minha memória em noites que nunca adormecem.

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