domingo, 8 de fevereiro de 2015

Livros e mais livros: Da sublimação à transcendência


Talvez fosse absurdamente banal e entediante imaginar a vida apenas pela lente caótica e superficial da realidade concreta, aquela a que nos deparamos diariamente em meio as demandas nossas. Não seria possível extrair a natureza poética de todas as coisas se não fosse nossa infinita capacidade imaginativa e, para mim, nenhum verso poético existiria se não fosse esse mergulho em águas profundas que permitisse chegar à toca do coelho, algumas vezes. Pois não sei o que seria do meu percurso existencial sem aqueles momentos íntimos em que apago as luzes do insano mundo cotidiano para aventurar-me em mares nunca dante navegados, momentos estes em que me detenho a selecionar cenários surreais, a dialogar por horas afinco com personagens que muito desejei conhecer, lugares que outrora sonhei estar, enredos cujas entrelinhas mantinham suspensas as chamas abafadas em minha alma, 
Não me recordo, ao certo, quando isso tudo começou, este fascínio incomensurável pela leitura, este encantamento pela ficção e esta devoção pelas obras não ficcionais, mas se um dia eu me dispusesse a escrever minha própria biografia, certamente ela seria traçada a partir dos livros a que adentrei diante do enorme fascínio que me despertaram. Nunca aprendi a escrever sobre mim a partir do deserto do real. Não sei, mas as sementes nunca vingaram na aspereza deste solo hostil. Para escrever sobre mim, era necessário valsar em salões suspensos entre nuvens e arco-íris. Minha história seria, pois, composta a partir de inúmeros fragmentos, retalhos de muitos contos, de muitas memórias, de atos e entreatos dos quais um dia participei, ainda que em silêncio, pois eram as histórias que me teciam, que me desvelavam a mim mesma. Elas davam-me as palavras, o estilo, a dança, os gestos. Me entender - ou não - era sempre uma questão literária e todas as respostas para as questões mais complexas estavam nesse mundo que existia escondido por detrás de um porão duma mansão abandonada. Era um jardim secreto, uma espécie de esconderijo daqueles que forjamos na infância. No desalento, é lá que buscamos consolo ou respostas.
Dessa forma, a vida real não passava de uma sombra, de um véu de cetim, delicado, frágil, prestes a se desfazer... Há muito sentia que nada era suficientemente sólido em minha vida pacata e sem brilho. Se havia algum momento de iluminação, este era quando eu estava a flertar com as palavras, as emoções e as ideias que se agitavam quando perdida em pensamentos infinitos. A vida pensada, ensaiada, ritmada é que me justificava. Nunca foi de tarefas, de atos executáveis. Desejava adormecer num sono profundo que me conduzisse apenas ao universo do pensamento. Penso não existir nada mais real do que o pensamento...ainda que ele nos engane as vezes, pregue peças e faça nosso mundo virar de cabeça para baixo. Contudo, é ele que nos salva das armadilhas do destino, é ele que, tendencialmente, nos reconecta à essência de nós mesmos. Uma vida que não passa pelo crivo do pensamento é uma vida que não merece ser vivida, afinal, se não fosse a nobre arte do pensamento, não passaríamos de criaturas mecânicas a executar gestos repetitivos.
Olhar para este imenso horizonte de tantas paixões literárias, é que me dou conta de como meus esforços tem sido canalizados para transformar intensos anseios e emoções em versos, cânticos e monólogos cuja compreensão era codificada em símbolos que somente minha alma poderia decifrar. Assim é que todos os talentos e habilidades eram canalizados para este doce ofício no mundo das palavras. Viver em meio signos era-me destino em meio ao desatino de caminhar sobre pontes opostas: numa delas jazia a vida boêmia e do outro lado havia o paraíso das possibilidades infinitas.
A experiência da leitura sempre fora a possibilidade de deslocamento do lugar-comum, da mesmice, da hostil realidade concreta. É a experiência de transcender-se...para além de sublimar, o extraordinário era estar para além das superfícies, era caminhar no etéreo na certeza de que não havia mais motivos para voltar...era a emoção de olhar para trás e não mais ver os próprios passos a sinalizar o caminho de volta. Sem estes marcos, não era preciso, pois, abandonar estes mares com ondas que arrebatavam-me para os cenários em que desejei estar...

Não deseja voltar...não mais. 

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