domingo, 8 de março de 2015

Na Caverna das Angústias - Reflexões de uma poética manhã de domingo à luz dos aforismos platônicos.

Analisar as concepções filosóficas de Platão, em suas vastas obras a despeito do mundo das Ideias, da possibilidade ou da pretensão à Episteme (conhecimento), sem dúvidas, nos leva a enveredar por reflexões acerca das angústia do homem, da miséria psicológica e social que tem arrastado inúmeros homens, grandes parcelas da população, em diferentes contextos nacionais, históricos e culturais aos mais lamentáveis martírios e formas de sofrimento, degradação e decadência. Com isso, não apenas os homens, mas sistemas inteiros de ideias, patrimônios e conquistas diversas também são levadas à ruína. Penso que, talvez, o princípio deste processo, da ruína material, emocional e espiritual dos homens seja ideia - e as paixões a elas atreladas -  de que somos marionetes de um Universo obscuro, misterioso e sobrenatural e prisioneiros de relações sociais complexas que fragmentam as sociedades entre senhores e escravos, algozes e vítimas. Falo, portanto, do homem subterrâneo, dos homens prisioneiros tal como na Alegoria (ou Mito) da Caverna de Platão, no qual, desde a infância, estes homens são aprisionados no interior desta caverna, onde, com auxílio de uma chama de fogo incessante, estes são capazes de visualizar, tão somente, as formas e as sombras de tudo que jaz do lado de fora da caverna. Ademais, fugir deste aprisionamento era, pois arriscado. Os olhos talvez não suportariam a luz do Sol que jazia imponente do lado de fora da caverna. 

Por muito tempo acreditamos que somos prisioneiros de uma espécie de matéria imutável. Há um traço, ainda que sutil, de fatalidade no pensamento daqueles que acreditam suficientemente na injustiça como uma causalidade factual. Isso implicaria em acreditarmos que algo ou alguém joga os dados e que somos, pois, peças de um tabuleiro no qual nos resta avançar ou recuar segundo critérios estabelecidos a priori. E, com isso, nos aferreamos a essas ideias. De fato, nos apaixonamos pelas nossas crenças de tal modo que poderemos passar uma existência inteira acreditando que a visão das formas e sombras que os homens viam quando acorrentados na caverna seja mais real do que as imagens nítidas do que acontecia do lado de fora. Até aqui, sem dúvidas, um bom contestador já alertaria sobre o óbvio: Mas, então, o que é real? Se não existem verdades eternas, realidade imutáveis, se tudo é temporário, passível de transformação, relativo às nossas percepções e crenças, como poderia-se afirmar que algo é ou não real? Quem estaria certo? Os homens subterrâneos ou aqueles que, libertos, descreveria em detalhes como é o mundo olhado pelo lado de fora da caverna?
Creio que cheguei a um dos impasses da Filosofia mais marcantes quando estamos a estudar cada uma das grandes abordagens ou correntes filosóficas. Chegar a essência das coisas mesmas pode ser um dos objetivos de alguns projetos filosóficos contemporâneos, como é o caso da Fenomenologia, mas uma verdadeira reflexão filosófica deve partir, obviamente, de uma contestação dessas verdades absolutas e imutáveis, talvez a causa primeira dos tantos transtornos psicológicos que tem conduzido os homens a dimensão mais subterrânea dos sofrimentos. Talvez falte um pouco de 'aporia' (=impasse) na forma como olhamos o mundo.

Cada vez estou mais convicta (e estou ciente de que convicções podem ser profundamente perigosas!) de que cavernas existem em função da maneira como nos posicionamos no mundo e, nem sempre, é tarefa simples mudarmos esses posicionamentos, provocarmos rupturas em nós mesmos, pois no Universo, nos sistemas humanos mesmo, muitas vezes, somos suficientemente barrados para operarmos qualquer mudança, pois talvez este não seja o caminho mais adequado, plausível ou sensato. A questão reside em mudar a nós mesmos, pois essa mudança, refletirá, inevitavelmente, no mundo concreto, aquele que apreendemos através de nossos sentidos. Isso não significa, em nenhuma instância, que não haja situações potencialmente provocadoras de perdas e danos à humanidade ou à natureza. Entretanto, nossa postura diante dessa infinidade de fenômenos humanos e naturais nos leva a pensar na opção que escolhemos. Se desejamos ser guiados pelo curso natural da história como vítimas ou algozes, ou se desejamos, de fato, uma ruptura com as nossas certezas e pensarmos para além da dimensão miserável que nos colocamos ou como enxergamos a totalidade de todas as coisas.

A vida é sim, este imenso rio que flui incessantemente e que, portanto, as águas jamais serão as mesmas. Já dizia o filósofo grego anterior à Platão que não é possível banharmos duas vezes num mesmo rio, uma vez que o movimento incessante das águas garante a sua renovação ininterrupta. Da mesma forma como não é possível se obter a mesma sensação de se banhar nestas águas em relação a outrem. As experiências com o mundo concreto também são suficientemente particulares para não admitirem um princípio universal que classifique, catalogue ou disponha os homens de acordo com uma base una, que não admita distinções e particularidades. Por esse ponto de vista é possível inferir que viver dentro e fora da Caverna é apenas uma questão relacional, da maneira como me relaciono com o mundo. A tirania, as guerras, as mazelas humanas existem sob a ilusão de que controlamos o mundo e aos outros. O comunismo sobrevive, ainda que por diversas fraturas e controvérsias, a partir desta ideia de que há uma experiência universal correta, justa e acessível a todos os homens. Que todos devem responder a este ideal ilusório e tirânico de uma 'obediência' natural a uma falsa solidariedade e cooperação entre os homens. 

Os homens que angustiam nas Cavernas, possivelmente não se deram conta de que não há ninguém jogando os dados por nós. O Universo não joga dados e a realidade não fazem os homens, não determina os seus destinos e não oferecem qualquer estabilidade. Heráclito ainda nos oferece esta importante contribuição em relação aos aspectos incessantemente mutáveis do Universo. Mas quantas ilusões alimentamos por esse desejo voraz das certezas de estabilidade e do domínio da realidade! Como agonizamos diante da ideia de que somos frágeis e determinados por forças que definem os nossos ânimos e o nosso futuro! 

Nesses momentos admiro a sabedoria da natureza de, justamente, cravar a espada da dúvida nas mais diversas dimensões da realidade. Quão sábia é a natureza que após calorosas discussões e embates filosóficos de diversos sábios, pensadores, intelectuais, nos leva a crer que a dúvida é o princípio e o o fim de todas as coisas. De que a dúvida é este "apesar de..." que nos move, que a dúvida é sempre este privilégio de poder recomeçar, de nos levar a abandonar o peso de tantas peles, de tantas máscaras que nos aprisiona. A dúvida é, pois, a certeza de que podemos ser melhores do que ontem, de que a falha é sempre a oportunidade de aperfeiçoamento, de que podemos, sempre, assumirmos novas perspectivas e de transformar angústias em aprendizados eficientes e renovadores.

Todas as experiências, das mais elementares às mais complexas, nos revelam como é possível que a nossa perspectiva pessoal nos leve a caminhos totalmente distintos daqueles traçados pelas nossas ilusões. Há confortos que nos aprisionam, estabilidades que nos alienam, verdades que cegam, discursos fatalistas que nos sufocam. Por esse motivo, crenças, convicções  e estabilidades  devem ser postas em xeque quando falamos da forma como cada um experimenta a angústia. Assim como alguns filósofos que remontam a Antiguidade já afirmaram que não é possível dar respostas, mas tão somente, apontar caminhos ou, mesmo fazer as pessoas a enxergar um caminho, penso que na clínica psicológica deve-se ter sempre em mente o dever de devolvermos essa responsabilidade a cada paciente ou cliente. É tempo de recolhermos essas responsabilidades que nos são caras, porém libertadoras.


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