[...] E a vida parece ser mesmo este imenso laboratório no qual, a todo instante, experimentamos e somos experimentados; num mundo em que cada dia é uma das infinitas possibilidade de construir e desconstruir paradigmas, certezas, emoções, fantasias...
Custou-me décadas para chegar a certas concepções libertadoras do destino, mas diferentemente do que ocorre no laboratório da física, da química, da biologia e, mesmo, da psicologia, no laboratório da existência não há leis determinando nossos estados, nossas percepções, nossos atos e entreatos. Não há observadores, ainda que haja multidões a lhe apontar o dedo e proferir palavras amargas. Não há registros, não há descrições minunciosas dos fenômenos da alma, da consciência e de suas reações, há algo de indescritível na experiência de cada um e nossa biografia não é autorizada a ser descrita por ninguém mais do que nós mesmos.
E o Universo, parece mesmo, que não joga dados, o que não significa, que não estamos à merce de um contexto de probabilidades infinitas, de corredores longínquos com fileiras intermináveis de portas a serem abertas. É, diria que os despertos estão mesmo na "toca do coelho" de Alice no País das Maravilhas e o nosso poder de escolha...ah, este rompe com todas as ilusões de que podemos ser estes fantoches manejados por outrem por cordas firmes e curtas.
Apaixonada pelo poder das ideias formalizadas em teorias e sistemas complexos, repletos de possibilidades, aprendi, também, a me apaixonar pela aplicabilidade destes conteúdos legítimos à minha alma. E, com isso, os resultados foram extraordinários. Teoria era ensaio, experimentação era como um êxtase profundo, um apaixonar-se desinteressado pela vida, pela perfeição do cosmos. Experimentação era o modo de trazer a minha vida, em toda a sua extensão e completude, as possibilidades que existiam apenas na esfera onírica; frágil, inocente, efêmera. Tão efêmera...porque se é verdade que livros, filmes, narrativas, insights nos permite criar um mundo só nosso com os personagens que elegemos, nos contextos que construímos, na intensidade das emoções e dos desejos que alimentamos, por outro lado, também é verdade que, tal como nos contos de fada, no badalar da meia-noite, tudo isso seria consumado na madrugada afora. E, assim, todos os dias, era necessário começar do zero ou, com muito esforço, dar continuidade à nossa linha de imaginação acreditando em algo que, de fato, nunca foi nosso.
Todavia, houve um momento de pavorosa lucidez em que eu precisei deixar tudo...havia outros territórios a se explorar. Nunca fechei a porta deste mundo fabuloso de fantasias porque não é sobre se desfazer desse talento que nos fora dado pela imaginação, habilidade esta tão poderosa, quanto perigosa, às vezes. Eu apenas precisei alçar...precisei lançar-me no vazio do real, precisei materializar-me nas terras que sempre me foram estrangeiras. Ficaram para trás os personagens, as fadas, o colorido, as criaturas fantásticas, os bailes, a felicidade clandestina...
Na trilha do real, eu nunca deixei de caminhar portando tudo aquilo que aprendi no fascinante mundo da episteme. E eu creio que a intelectualidade não se afirma sem um pouco de sabedoria fantástica. E foi essa ânsia de querer poder mais...este impulso que se propaga pelas minhas veias desejando Ser, desejando estar, com os pés no chão, ainda que a imaginação continue a fervilhar em mil ideias e inspirações, eu parti, de fato, para a experimentação. Arrisquei. Arrisquei e me deixei levar. Senti o queimor e o tremor, o gélido e o chama, o arrepio, a transpiração.
É-me uma jornada extraordinária e ao final de cada dia, a síntese era-me gratificante e redentora. Pendurava o casaco pesado, depositava as mochilas no chão para, mais tarde, folhear um livro, ver um personagem, estar numa valsa encantada, ver as criaturas fantásticas e dizer 'Oi'.
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