sexta-feira, 26 de junho de 2015

Nossas incertas certezas



Estamos, indubitavelmente, lançados em um mundo de filiações ideológicas-existenciais, diante de um  catálogo milenar de ideias, visões, posturas regras e rituais, repleto de receitas para uma vida equilibrada. 

Há um esforço  e uma sensibilidade da própria humanidade em resolver-se em meio às angústias e ansiedades que o mistério da vida comporta.
Receitas, soluções, revelações...parece-me que quanto mais fervorosos são os discursos focados na promoção do bem-estar humano, mais sedutor é o silêncio. Talvez porque este seja um dos poucos elementos que não se contamina pelo desespero humano, pelas convulsões sociais, em meio a todos os seus jogos de poder e de domínio. A epopeia da história da humanidade nos mostra que as épocas de maior fragilização foram aquelas mais propícias à dominação, à submissão, à escravidão. Não foi diferente a história da construção da subjetividade. 

Quando a concepção do "eu" sofreu um declínio diante das revoluções que se contrapunham ao espírito medieval, as angustiantes incertezas provocadas por esse rompimento  abrupto da vida prevista, da vida controlada, da vida ditada a priori, inúmeras instituições empenharam-se em  domesticar o, então, "bom selvagem", dominando suas paixões, refreando a sua capacidade criativa, colocando em dúvida a própria opção pela liberdade. Séculos se passaram e, embora a liberdade finalmente tenha superado algumas das principais muletas da humanidade, ela fez-nos, novamente, prisioneiros. Sem um norte, parece que tendemos a ajoelhar-mos às soluções pré-fabricadas de vida humana.

O homem desbussolado do século XXI, em meio a um despejo de pacotes prontos de felicidade e de salvação, vive a angústia do excesso de informação em paralelo a impossibilidade da compreensão, ao menos da compreensão ampla, aquela que que dá-nos o sentimento indescritível do significado, daquilo que se revela a nós de uma forma muito particular.

E, em geral, somos levados a nos contentar com meias-verdades, meio-significados, meio-sentidos e, assim, muitas vezes sentimos que vivemos pela metade. O silêncio e a meditação talvez seja aquilo de mais legítimo que restara a um mundo de milhares de vozes insanas em busca de uma verdade universal. É o momento sagrado da experiência de totalidade do Ser. É o solitário [porém, libertador] momento em que nos desapegamos de todos os excessos e nos pomos a ver a nós mesmos libertos de tantas peles....são momentos de lampejos anímicos, do despertar de um sono milenar...

No entanto, por mais que desejemos o êxtase da compreensão, achar a última peça do quebra-cabeças, atingir a lucidez, estamos indiscutivelmente condenados à dúvida. A insustentável leveza do ser passa pelo crivo do peso da dúvida. E mais: qualquer sensação de estarmos próximo de uma 'revelação' verdadeiramente libertadora não foge do fato de nossas verdades serem contaminadas pelos nossos sentidos e, em última instância, contaminados pela internalização social e cultural que sofremos deste o nascimento. 

A crise da metafísica talvez seja uma constatação significativa de que não existem verdades primeiras ou últimas, de que cada alívio de verdade é procedido de um suspiro de desconfiança. Restaria, pois, o silêncio, a meditação, o sentimento genuíno? Havia, então, 'intercessores' desse momento de comunhão de nós conosco mesmo e com a esfera do universal??!

Se há alguma lei a explicar o mistério da vida, esta nunca nos foi dita. Existe, é claro, os ecos ensurdecedores dos discursos sociais, religiosos e metafísicos, mas tais afirmações parecem não ser tão convincentes às verdades d'alma. Ás vezes precisamos "constatar por nós mesmos", o que significa abandonarmos o conforto teórico e demagógico dos recitais socioculturais para  analisarmos, averiguarmos, compararmos e, acima de tudo, sentirmos! 

Verdades nunca serão palpáveis e, em geral, serão sempre transitórias e as paisagens naturais da vida em seu ciclo incessante de transformação dá-nos essa perturbadora desconfiança. Se é-nos impossível banhar-nos duas vezes nas mesmas águas de um rio, por qual razão haveria de termos verdades conclusivas eternas? Se somos esse eterno vir-a-ser, não seria, pois, as verdades ditas, aceitas, internalizadas a impossibilidade de nos transformarmos?!

A vida e suas leis comportam uma sabedoria que [ainda]  nos é cara. Estamos, assim, arremessados a um deserto de incertas certezas, de definições e respostas frágeis, um mundo de gestalts em aberto.

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