quarta-feira, 8 de julho de 2015

Silêncio de uma só alma


Era inverno... e eu podia sentir o queimor da neve a ruborizar-me a face em meio as montanhas. Não havia mais nada a não ser eu e o teu perturbador silêncio. Em verdade, nunca conheci tua  face, pois quando me vens, meus poros estão a respirar nada mais do que o aroma de tua voz ecoando há muitas milhas do horizonte. E, então, eu poderia ver apenas as linhas tênues de um desconhecido semblante .

Eu aqui, a deriva de montanhas gélidas experimentando um tipo de liberdade que - eu sei bem -  me custará a própria vida, pois estou em queda livre, dissipando-me no ar em meio à melodia dos teus passos firmes, tão certos...Sucumbi aos limites físicos e estou deslizando na aspereza dos rochedos de tua ilha, este santuário de tantos acordes, onde vivia apenas eu e o  teu silêncio. Estou, pois, sentindo os limites  entre o céu e a terra, entre a insustentável leveza do etéreo e a dilacerante aspereza do rochedo. E enquanto estava a deslizar nas chamas gélidas do teu desejo, entorpecia-me a alma este recrudescente aproximar-te. 

Arrancava-me o  ar... era a alucinógena sensação de ver-te como uma energia que brilhava, pulsava, presente, insistente, porém que me escapas... Nunca alcançar-te-ei porque, em verdade, projetei-te em meus delírios, pois é-me poético teu silêncio e dele fiz versos de um incessante querer-te. Tú és aquele que jaz entoando cânticos e eu, como se de olhos vendados, jamais fosse capaz de ver-te assim, tão perto... eras quase aquele fantasma de tantas óperas, disposto na mais alta das torres, para além do pico mais alto das montanhas. Eras, pois, distante, mas eu era capaz de decodificar os teus ritmos...

Era o movimento, a emoção, a música que me incitava a querer-te tanto que estou, agora, há 
poucos metros da superfície da razão, a respirar com certa dificuldade e impaciência... sabendo o quanto doerão meus ossos quando sentir o impacto  do eterno retorno ao mundo de ruídos insuportáveis. Era o badalar da meia noite que me consumiria, que me atiraria nas profundezas do teu vazio. 

Persiste em meu âmago, este excêntrico gosto pelo deserto, pelo gélido, pelos limites intransponíveis. Contudo, bastaria rejeitar todas as sirenes, as cores, as conversas boemias, a insanidade das cidades, quando estaria a embriagar-me em teus soturnos monólogos? Certamente, não!
Dividida entre a normalidade patológica do caos, no cotidiano revelador de nossos mais primitivos instintos e a natureza poética de amores improváveis emoldurados por seres angelicais, não era possível escolher entre o sonho e o delírio.

Lutava em vão contra as sombras do teu silêncio, pois era inevitável que tu adentraste meu mundo, sem ao menos pedir licença, tirando-me das superfícies de tantas certezas, para lançar-me no vazio 
de uma liberdade que faria dos meus dias tempestades a arrebatar-me das seguranças e deste 
último fio de lucidez que dá-me a dimensão [assustadora] desta queda livre. 

Já nem respirando, mas suspirando estou perdendo a consciência em meio a densidade do ar rarefeito de tuas palavras... 
Era-me nobre ofício estar aqui a  interpretar o teu silêncio, as inteligíveis palavras do sax  que ainda está, ao longe, a produzir esta melodia soturna. Era forte, era perturbador, como o som de um velho estribilho a reproduzir incessantemente o desespero invernal, a fúria dos ventos, o queimor da neve a sangrar a pele...

E ardia igualmente este silêncio que nunca fora apenas teu, porque enquanto performava-te nos cenários da minha existência, eu estava também longe, dissertando sobre delírios e desejos meus. 
Destarte, já com os ossos em chamas, eu sei que este ensurdecedor silêncio não é mais do que a própria expressão da minha alma e este silêncio, bem, é um composição de tantos dizeres não ditos...


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