[...] Porque és verdadeiramente viciante e visceral a maneira como preenche os meus dias e que todos os meus "nãos" continham chamas vivas do que foi...foste?
Neste manancial de tormentas, perturba-me a alma estes suspiros teus sufocados na languidez da tua fala sempre de incompreensíveis palavras. És, assim como uma presença fantasmagórica, um retrato que ocupas cada um de meus cômodos, aprisiona-se nas janelas, nas paredes, na velha escrivaninha cujas torres de papel um dia falaram sobre ti.
Romanceei um dia tua existência doce e fugaz e tu converteste neste conto [de dentro], pois tua fala mistura-se as minhas palavras e, constantemente, dizes através de mim. Que insanos estes momentos em que tu parece ter assumido o controle de absolutamente tudo, a ponto de meu todo estar revestido, ainda, de ti.
Se ao menos eu tivesse a certeza de que tu não estivesses na memória de minhas células, que este pulsar não fosse dos lampejos da tua presença. Por que insistes em esvaziar os meus dias com ilusões tórridas? Porque vens querer-me nos momentos de maior fragilidade? Com que coragens assiste-me a despir-me de peles que nunca me pertenceram?
Que justificativa plausível tens para continuar aqui, ao lado, a tecer suas meio-verdades? Por que insiste em fiar-me em ti, quando jaz há muitas milhas deste sendeiro extraordinário, em que agora me encontro?
Estou a principiar o prelúdio da insanidade, essa febre que me consome, trazendo-me mais incoerências, pois se estou há anos a caminhar solitariamente as veredas da existência, como posso eu sentir uma presença envolvente a soprar-me estas palavras que aqui escrevo??! Logo, concluo que tudo não passa dessa minha tendência sonhadora em projetar emoções nunca sentidas, porém tão esperadas...
Oras! É atributo e função fundamental do escritor ensaiar passos nunca dados antes, custe o que custar! São ossos do ofício da tradução literal e não-literal da vida, de uma dimensão sentimental não compreendida, não vivida, não escrita. Escreve-se, terapeuticamente, para termos coragem de encarar nossos próprios abismos e, aqui ao relento, escrevo tantas vezes para preencher folhas em branco...
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