Tantas colônias que erguemos sobre o rochedo do
improvável que todo desejo de conquista para se resumir a uma corrida constante
em direção a salvação de nós mesmos diante da inconstância da vida e do medo
arrebatador de nos perdemos, de termos a nossa própria identidade estilhaçada.
Assim, as guerras que travamos, os conflitos mundiais que assistimos, a busca
pelo poder, pelo controle e pelo domínio dá-nos apenas a tórrida dimensão de um
‘Eu’ que desesperadamente busca a sua imortalidade. Busca, ainda, sua afirmação,
a voz, a palavra, deseja propagar-se no espaço e na história e, para isso, não
bastam os confortos materiais, é necessário ver-se refletido em tantos outros.
Essa talvez seja a fórmula do domínio de uma nação sobre a outra, de povos, de
culturas, de estruturas sociais e políticas. No fundo, precisamos ver a nós
mesmos nas terras estrangeiras...
E parece-me que os limites para o domínio transcendem as conquistas materiais e
territoriais. Toda guerra é, sobretudo,
antropológica, pois não se guerreia, simplesmente,
para o confisco, o domínio, para se revestir de bandeiras a terra conquista.
Para além disso, deseja-se a sedução dos
corpos, mentes e corações dos nativos. A
sedução ideológica está, pois, a favor de uma tentativa expansionista da nossa
própria subjetividade na qual o que se intenciona verdadeiramente é a imposição de nossas
próprias paixões, ilusões, práticas e hábitos culturais. Toda conquista está,
portanto, impregnada de nossos sentidos e impressões e é por isso que cada nova
conquista carrega a marca do que somos. São conquistas egoicas, são formas de domínio que parecem imitar a
semente da vida: inventou-se a sedução
amorosa para que haja a união de dois corpos a serviço da vida e parece, mesmo,
que Schopenhauer tinha razão ao apreender a lógica do amor que sutilmente se
oculta nas entranhas dos encontros e nos faz lembrar de Darwin quando vemos
que, somos esta espécie que evoluiu de formas mais simples de vida cujo legado
está nas nossas próprias paixoes e desejos.
O pavor da aniquilação do próprio “Eu” reside
em fazer de nosso projeto existencial a nossa marca, como se cada uma de nossas
conquistas assegurasse a prevalência de nossa própria consciência, de nossas
ideias, desejos e visões, em suma, do Eu, da instância constantemente ameaçada
pela supressão diária de nossas mais profundas paixões.
Todo espanto inicia-se a partir do espelho
porque dele temos dois tipos de reflexos perturbadores: a ideia de que biologicamente
mudamos, nos transformamos e que continuaremos caminhando em escala ascendente por
territórios desconhecidos, sempre a
mudar. Por outro lado, há uma imagem nele refletida que não é nada além da impertinente
interrogação sobre o que fizemos de nós mesmos, as cobranças temporais, as
pulsações que nos impelem. E o espelho jaz lá, de fronte, a nos lembrar que
cada minuto é um espaço de tempo para mudar tudo e que nele está contido a vida
que escorre a cada segundo e que jamais será novamente reiterada.
O desenvolvimento biológico do homem nos lembra
da perenidade, da linearidade inevitável. O que seria de nós sem as nossas
fantasias, as quais nos permite burlar em certos aspectos essa sensação de que
somos empurrados a seguir sempre em frente, sem tempo hábil para enveredar-nos
pelos caminhos outrora traçados e, por isso, nada temos além de nossas memórias
que outrora desejaríamos ter feito retratos a serem emoldurados nas paredes de
nosso edifício. Mas nada escapa à violência do tempo e por isso construímos
templos, condomínios, edifícios. Por isso desejamos tanto que nosso nome e as
nossas paixões ecoem em terras longínquas.
Colonizar - mecanismo de defesa não claramente catalogado entre
as convenções psicanalíticas - talvez seja essa tentativa desesperada de
fazer-se no outro, de imortalizar-se. Construímos templos de nós mesmos porque
nem sempre temos segurança de nossa própria visibilidade.
As tantas colônias do Eu, são as milhares
representações simbólicas do “Eu” que deseja expandir-se, reproduzir-se,
afirmar-se diante da transitoriedade de todas as coisas, diante do perder-se no
infinito, e no pavor ante o próprio aniquilamento. Justamente por isso, temos a
tendência de nos apaixonarmos por nossas ideias. Assim como o encontro dos
corpos enseja a manutenção da vida e, mais precisamente, dos nossos genes, as
guerras asseguram que sejam impressas as nossas paixões, desejos, ideias e
ideologias no outro. Desejamos ardentemente materializá-las e, assim,
projetamo-as nas relações objetais que tecemos em nosso cotidiano.
No final de tudo, construímos ilhas que
refletem quem somos, quem desejamos ser e, acima de tudo, são exemplos do que
podem os nossos afetos; alguns a favor da vida e outros empenhados na destruição.
Nas grandes guerras presenciadas pela humanidade o jogo dos afetos certamente
estava presente e exatamente por isso que elas imortalizavam nomes e ideias.
Toda busca pelo outro, na verdade, é tão
somente uma busca por nós mesmos. Todas essas cobranças e insatisfações em
relacionamentos de quaisquer natureza é diante do conflito insuperável entre os
nossos desejos e fantasias de um “Eu” voraz versus a realidade nua e crua do
outro que, em geral, não nos contém, ou seja, devolve-nos o reflexo de nossas
próprias fraquezas e da nossa condição mortal.
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