domingo, 7 de dezembro de 2014

Os afetos que nos afetam



Fazer do conhecimento o mais potente dos afetos...

Esta era a meta filosófica e empírica de dois grandes filósofos da humanidade: Espinosa e Nietzsche.
Tradicionalmente, entendemos os afetos por uma perspectiva romântica, associando-os as relações de amor, de amizade, entre familiares, etc. No entanto, para estes grandes pensadores que mudaram o curso da filosofia e, por conseguinte, alteraram o próprio movimento da história [além de anteciparem décadas de subjetivações e acontecimentos histórico-culturais].
Conhecer é uma inclinação natural dos nossos sentidos. Somos, a todo instante, impelidos a conhecer e quando somos seduzidos pela inércia ou pelas proteções e muletas as quais nos agarramos na tentativa de ampliar a durabilidade dos bons momentos, somos violentamente lançados nos espaços do vazio; aqueles nos quais nos roubam todas as respostas, aniquilam todas as certezas, vaporizam todas as crenças e convicções mais íntimas. 
A complexidade do problema filosófico de conhecer é a da exposição ao nada. Por que só se conhece a partir de um grande vazio, de um despojar-se constante daquilo que fomos, das bagagens que arrastamos por décadas, mais do que isso: é um desprender-se de todas as forças que nos mantem alinhados às superfícies. Custa-nos caro, também, aceitar a ideia de que talvez a vida em si, seja uma causa perdida. Sim, porque chegar-se-ia o tempo em que reconheceríamos os labirintos nos quais percorremos apressadamente sem saber, ao certo, para onde, com as chagas e feridas como única certeza de nossa tendência filogenética de buscar a sobrevivência. Estaríamos nós preparados para encarar o deserto do real? A reconhecer que nada, absolutamente nada, nos fora dado? Que somos os artesãos de cada centelha de nossos dias? De que somos, por excelência, o arquiteto de nosso destino?
Se há algo que pode, verdadeiramente, influenciar neste eterno girar do mundo, sem dúvida é a arte do conhecimento, pois ele nos afeta e nós o afetamos, pois trata-se da mutualidade existencial de todas as coisas, da interdependência dos entes. 
A importância da arte de conhecer também reside na nossa articulação destemida com os próprios afetos. A grosso modo, vale dizer que os males do mundo e as grandes perturbações humanas e sociais decorrem da distorção dos afetos. Nada somos se obscurecermos essa dimensão donde a vida dança. Independentemente das visões e abordagens para os problemas humanos, como as grandes psicopatologias, há uma base em comum na qual devemos reconhecer: a existência dos afetos e o lugar que eles ocupam no ser para si, ou seja, do ente aqui e agora. Os afetos nos movem, nos traduzem, ascende e incendeia...mas os afetos também podem, contrariamente, serem os demônios do meio dia. O que é a depressão, a ansiedade e as fobias, senão, uma ópera desconcertada dos afetos??!? Afetos que implodem no peito, mas que também explodem em gritos que ecoam por cada fibra de nosso ser. 
Amar é, indubitavelmente, render-se a um desvario; é uma forma de nos afetarmos...todavia, qual sentido teria a existência se não fossemos afetados pelos afetos que nos consomem? Expurgando o peso das palavras não ditas, a lágrima ressentida fossilizada nos campos de concentração da alma... os afetos são processos inerentes à própria condição humana. Por vezes, colocam em dúvida nossa racionalidade e dissolvem as utopias cartesianas. São vestígios da volúpia, das pulsações, das energias instintivas e não são passíveis de apreensão, senão, pela transcendência...Afetos que se deslocam entre a física e a metafísica, entre o significante e o significado, nos escapa sempre...projeta-se sobre nós, sem que ao menos possamos olhar para as suas sombras. Somos, pois prisioneiros das paixões da alma quando não compreendemos tais afetos.
Neste cenário, ainda que conhecer seja uma das faces destes afetos, é, sem dúvidas, a ferramenta que resta a nós, mortais, para transcendermos sem que sejamos devorados pela insanidade ou pelas excitações que nos desequilibram, que nos perturbam, que nos agonizam...
Doravante, não há mais ausência de luz no caminhar desconhecido pelas veredas da existência...não somos prisioneiros de nossos próprios monstros internos, pois é possível morrermos de afetos sem, contudo, sermos aniquilados...um golpe mortalmente doce...que nos contorce, que nos arrepia, que nos convulsiona num estranha lucidez...luz, lucidez...uma força que vibra, rasteja, trovejante n'alma e o conhecimento...este como lanterna a iluminar os ritos secretos e sombrios dos afetos vertiginosos... 

Para Nietzsche, o devir que converte o conhecimento no mais potente dos afetos é explicado pelo conceito por ele chamado de "vontade de potência", a inclinação natural do homem para o conhecimento, para o transcender além do bem e do mal, para o construir-se para além das barreiras e movimentos cíclicos temporais. Trata-se de uma expensão que não se dá por um conjunto de procedimentos observáveis, mas pela implacável imanência de todas as coisas.

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