Houve tempos em que se sentira ameaçado pelos próprios sonhos e desejos mais profundos. Alçava voos para terras distantes, desejava escalar as mais altas e improváveis montanhas. Seu semblante calmo, sereno e sua radiante inocência era seu escudo, sua força interior, sua proteção contra as amarguras mundanas.
Não era um, era muitos e, sendo muitos, sua alma vibrava pela vivacidade e impulsividade de seus desejos. Nada bastava-lhe; alcançar era sempre um incitamento, um convite a outro algo a ser alcançado.
Mas o passar dos anos fizera-o menor. Não haviam mais montanhas, apresentaram-lhe os abismos. Não alçava mais, recolheram-lhe as asas. Tornara-se produtivo, dera-lhe uma profissão, um trabalho, diversas tarefas. Estava diante de muitos, mas seu espírito estava absolutamente só.
Estava sempre de prontidão para acolher àqueles que sofriam, mas era incapaz de acolher-se.
Estava sempre de prontidão para acolher àqueles que sofriam, mas era incapaz de acolher-se.
Assim, aprendera a primeira das amargas lições sociais: ser o que se pode ser, doar-se como obrigação. Viver em absoluta resignação. E assim escorriam os dias entediantes que envolviam a vida em sua tamanha pequenez.
Que mal terrível havia acometido-lhe? A quem vendera os sonhos? O que lhe sucedera?
São perguntas que devemos fazer diariamente quando diante das ameaças que, inevitavelmente, arrebatam o nosso mundo interno, chacoalhando e estremecendo impiedosamente cada peça do tabuleiro que havíamos organizado em absoluto esmero.
Diariamente somos confrontados com a tragicidade e o escárnio de outrem e não nos damos conta dos tantos sonhos roubados ou deformados pelo cortejo fúnebre das desgraças de outrem.
São momentos em que devemos tomar partido de uma ousadia que surge em revolta e protesto a uma condição imposta arbitrariamente à nossa vontade.
A boa notícia é que somos nós, não apenas os proprietários legítimos dos sonhos que acalentam a alma, mas, fundamentalmente, os únicos responsáveis por tudo aquilo que fizeram ou tentaram fazer de nós. Nas profundezas de nosso ser reside a capacidade infinita de renascermos das mortes nem sempre escolhidas, quase sempre inevitáveis.
De tanto queimar, damos luz aos impulsos adormecidos que antes vigoravam o relicário poético de nossos devaneios. Não há feridas que durem para sempre, cada dia é o desabrochar de uma nova possibilidade de ser. Ser é, pois, verbo imponente contra todas as mazelas que nos açoitam.
Nem sempre "somos", muitas vezes estamos apenas sendo, sendo produto de escolhas que não nos pertence, sendo estrangeiros de nós mesmos.
Despertar requer ousadia...requer a negação de todos os (pré) conceitos que constituíram todos os nossos alicerces até então.
A questão reside na seguinte inflexão: até que ponto estamos preparados para assistir a demolição de todo um edifício?
Nenhum comentário:
Postar um comentário