Captar o inaudível
Decodificar os símbolos
Perseguir as entrelinhas
Comunicar-me em monólogos...
O mundo me vinha na exata medida do meu silêncio, momento em que palavras, frases e rimas se afloram. Tudo me é acessível quando envolta por textos e intertextos. Cada dia uma estória sobre a vida, e em cada dia de vida, toda uma estória. Papel e Tinta desenhavam o meu mundo, erguia os alicerces do meu singular contexto. Cada dia era uma oportunidade de preencher o livro da existência e dentro de mim havia tanto a ser dito, Por vezes, lançava-me em desatino pelos tantos excessos de dizeres que aguardam os ventos certos para serem proferidas, tal como as potencialidades latentes que se contraem na tentativa desesperante de fazer-se sólida. Diariamente as palavras travavam duras batalhas com o meu silêncio. Era necessário, pois externalizá-las de algum modo. Encontrei, pois, a minha própria forma de produção de sentidos. E, produzindo sentidos, estava eu produzindo presenças, deixando, sutilmente, a minha marca, os meus passos, os meus horizontes...
Minha comunicabilidade se dá na fluidez das tantas vozes que ecoam em minha mente, dos personagens que espiam o mundo sorrateiramente e, por fim, dão-me a dimensão do funcionamento de todas as coisas que são objeto de minha apreciação.
Tudo é vazio e as palavras, aquele redemoinho de vocábulos lançados em um imenso vácuo, construíram o meu império, permitira-me, por conseguinte, a instrumentalização dos meus saberes, o domínio sobre tudo que me escapa...
O domínio do meu mundo sempre fora, essencialmente, o domínio através da palavra. Palavras portadoras da vida interna, sementes do meu íntimo, palavras que dão vozes aos tantos "Eus", palavras que carregam a densidade das mais diversas experiências sensoriais frutos do irresistível desejo de observar cada centímetro dos processos de subjetivação dos seres vivos [e mesmo, os não vivos], de traduzir poeticamente o cotidiano meu, seu, nossos...
Por isso, rogo-te: não adentres ao meu ser sem que compreendas a singularidade do meu mundo, não me oriente na direção à saída deste labirinto de palavras, pois respiro-as e existo valsando sobre monólogos e solilóquios, os quais dizem muito sobre como eu vejo o mundo, sobre como vejo a mim mesma e, confesso, preciso tanto de mim...Nada basta-me, nenhuma explicação é capaz de me calar nesta infindável busca, pois ela é infinita ainda que na minha própria finitude.
Não é sobre solidão, pois nunca estive só. Quanto mais me afasto dos rumores, mais sinto-me preenchida, mais vida insurge em meu peito. Por isso, nesta noite desejo apenas o céu...sim, porque nele eu sinto a presença mais ardente do vazio, vazio este que é sempre um excitante convite ao buscar de entendimentos. Hoje quero apenas o silêncio a cintilar na atmosfera empoeirada deste palco. Não, não desejo ocupação das intermináveis fileiras de poltronas que jazem neste imenso salão, pois insisto: estou envolvida por uma jornada onde o silêncio e o vazio é-me redentor. Tenho o hábito peculiar de sentir o mundo e a existência das coisas que nele estão dispostas, pois destes contextos retiro minhas inspirações. Se deseja tornar-me cognoscível à sua realidade, limite-se a compreender minha obsessão pelo vazio, não invada-o, mas torne-se, também, este ressoar de palavras, seja os versos, o ritmo, o badalar e o estremecer que eu te encontrarei em meu santuário.
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