terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Preâmbulo à compreensão fenomenológica-existencial das psicopatologias.

Alguns pressupostos fenomenológicos a partir de Martin Heidegger


"O ser é algo indefinível, evidente por si só e de entendimento universal: todo  ser humano sabe o que é ser e sabe o que é o não-ser. Dentro do ser encontra-se  o nada e vice-versa: o ser tem em si a possibilidade de não-ser, uma vez que, ao mesmo tempo que é algo, também é o contrário deste algo. Cabe ainda ao ser a chance de tornar-se o seu não-ser, pois todo ser é, ao mesmo tempo, um vir-a- ser, fato que denota a presença da dialética hegeliana no pensamento heideggeriano, na qual a unidade dos contrários é o ponto fundante do ser. Falando de alteridade, e tomando-a como um exemplo do modo como se dá este processo, podemos dizer que ela está embutida na identidade. A alteridade é o  outro, aquilo que o ser não é, da mesma forma que a identidade é aquilo que ele  é. Ela surge da identidade, pois é a partir desta que sabemos o que somos e,  portanto, o que não somos, ou seja, nossa alteridade, o outro.
O ser é um ser de relação, o que quer dizer que ser e mundo só existem na relação ser-mundo, enquanto relacionados, pois cabe ao ser dar sentido ao mundo ou significá-lo, de modo que o mundo então possa existir. Por exemplo, o Eu  torna-se Eu, ou melhor, penas possui identidade, quando em relação com o Tu, que  é o mundo, a alteridade, o outro". 

FONTE: http://www.psicoloucos.com/Fenomenologia/fundamentos-e-conceitos-parte-2.html


A loucura como um modo de ser no mundo: o discurso subjetivo em questão

(Fragmento adaptado. Meus ensaios - Tomo I)


Pensar a questão do transtorno mental sob a ótica heideggeriana pressupõe uma  leitura cuidadosa do discurso elaborado pelo sujeito tal como ele ocorre. Isso implica em nos despojarmos de quaisquer conceitos e ferramentas que possam intervir no fluxo de  consciência do sujeito e nas narrativas que constituem o objeto de conhecimento do analista. Por que é tão difícil tomarmos partido dos conteúdos manifestos pelo próprio sujeito acometido por uma enfermidade mental? Porque as tantas abordagens psicológicas existentes ainda insistem e olhar o sujeito a partir de um conjunto de pressupostos pré-determinados? Qual o sentido e o espaço da linguagem expressa pela figura do louco na contemporaneidade? Essas questões nos incitam a repensar o problema filosófico da linguagem quando esta não mais pode ser identificada e controlada pelo sistema linguístico padrão, ou seja, pela maneira que  julgamos ser inteligível e cognoscente o modo pelo qual nos expressamos e interpretamos o mundo. Eis o início de um problema secular. Durante muito tempo a linguagem foi hierarquizada destinando apenas algumas pessoas aos privilégios da expressão oral e escrita haja vista que a linguagem não é, tão somente, portadoras de signos [unidades portadoras de sentido] mas de sistemas gigantescos de ideias, de posturas, de comportamentos, visões de mundo, etc. Em "As palavras e as coisas" o filósofo francês Michael Foucault mostra que  a linguagem é produto do saber e saber é constituído pelo seu complemento  poder; saber-poder.
Quando já não fazia mais sentido restringir a linguagem, pois o homem -  independentemente  de classe social ou de desempenho intelectual -  possui natureza essencialmente simbólica, capaz de expressar uma variabilidade incrível de ideias ainda que por meio de um  vocabulário limitado. Em muitos casos, os vocábulos estão complemente ausentes, como nos casos de alguns distúrbios neuromotores. Ainda assim, o sujeito é capaz de reinventar-se, reiventando, pois, a sua forma de comunicabilidade. Assim é a plasticidade do cérebro humano e dos processos cognitivos.
Mesmo pacientes acometidos por graves danos neurológicos,  o homem simboliza por gestos - ainda que desarticulados e excêntricos -  aquilo que não toma a forma de palavras. Poder-se-ia afirmar que o homem tem domínio de linguagens que lhes são próprias e que somente [e tão somente] a hierarquização social e institucional da linguagem é que leva o discurso do homem  comum para os repertórios da pobreza e ao homem louco para o calabouço do  silêncio. A incapacidade de faze-se compreendido, nada mais é do que uma consequência cultural do domínio e da hierarquização linguística.
Sendo assim, o que dizer do discurso da loucura??! Será que nós fomos adestrados para sermos incapazes de compreender as assimetrias e desorganizações do pensamento de outrem? Por que custamos a decodificar estas mensagens? Alguém já  as fez?
Certamente não teria existido tantas pesquisas qualitativas em instituições psiquiátricas para entender a dimensão do louco que sofre, mas que também cria, inventa, renasce, alegra-se, vive...
Não existiria pesquisa qualitativa se não crêssemos nos conteúdos que a fala do  sujeito traz para a compreensão, para o clarear de ideias que o ausente de transtornos não poderia supor.
A abordagem terapêutica da fenomenologia existencial na análise da loucura e na possibilidade de intervenção positiva no cotidiano do sujeito talvez seja uma resposta a hierarquização anteriormente mencionada. Mais do que hierarquização da linguagem, o que, em tese, se faz, é a hierarquização e o aprisionamento dos sentidos. 
Todavia, em fenomenologia, parte-se de um 'esquecimento' dos limites entre o normal e o patológico. A dimensão do sofrimento não é encarada como o desvirtuamento cognitivo e emocional, o sujeito não é visto como aquele que precisa ser salvo no sentido de fazê-lo migrar para o pólo da normalidade. A loucura, enquanto um modo de ser no mundo, deve ser apreendida a partir do sentido mesmo que ela tece na realidade observada [um retorno às coisas mesmas]. Isso não nega, obviamente, os conflitos, as desvantagens e as consequências negativas que o transtorno produz, mas permite ao observador a inédita tarefa de olhar o sujeito a partir do SEU mundo. Nesse ponto, devemos considerar, ainda, a questão do rompimento do sujeito com o mundo externo, tal como nós o conhecemos ou experimentamos. Perguntariam os céticos: mas se o ser é nada e só existe a partir da sua relação ser-mundo, o que dele sobra? O que resiste? O que resta dele nele mesmo?
Aqui vai uma leitura fenomenológica existencial deste dilema entre 'ente' e 'mundo':

Mundo é um conceito físico e metafísico. Dir-se-ia ser o mundo físico, o mundo 'real' aquele todo onde se constitui as relações concretas entre os entes, o mundo palpável somado aquilo que não se vê, mas se sente ou pelo menos faz ideia de que exista e que se possa sentir por meio de um determinado estado da matéria. Eu posso sentir o ar se uma brisa me vem, posso ser privado de brisas, mas tenho consciência da existência do ar sem que eu tenha empiricamente experimentado de forma intensa aos meus sentidos.  Em suma, o mundo físico é o nosso centro de referência, onde os corpos se situa e se relacionam num processo de interdependência.
Mas o mundo é, simultaneamente, metafísico, pois mundos existem e co-existem a partir de pensamentos projetados. O mundo só é mundo porque é objeto de uma consciência e toda consciência é consciência DE alguma coisa. Essa é a primeira das leis fenomenológicas. Mundos existem a partir de quem o vê. Isso pressupõe não mais uma relação física, mas transcendental com este mundo criado. Veja, aqui não é o mundo que situa o homem, mas é o homem que se situa NO mundo.

Essa noção da fenomenologia existencial rompe, pois, com ideias, a priori, do que seja o mundo, o sujeito e suas relações. Dissolve, por conseguinte, todos os discursos hierarquizantes que situam, arbitrariamente, o sujeito num mundo dado às condições, interesses e ideologias daquela que o projeta.
Nesse sentido, fazer valer o discurso do louco é fundamental para uma noção mais acurada não apenas de suas características, mas - essencialmente- daquilo que está sendo dito por meio da fala, dos gestos e do silêncio do portador de transtorno mental. Há um inter-dito, um entre atos na comunicação deste sujeito. Uma fala muitas vezes negligenciada por essa nossa hierarquia de sentidos.
Outra constatação que todo observante do comportamento humano deveria ter em mente é a ciência de que no mundo da loucura houve, num dado momento, um rompimento com esse mundo físico e social. Na linguagem heideggeriana, poderíamos entender esta ruptura como uma fratura entre o Ser e o Ente (1. Nota: diferenciação presente apenas na ontologia de Heidegger, na metafísica tradicional Ser e Ente são sinônimos) A relação ser-mundo foi abalada de modo que o ser na sua condição de nada representar, busca aplacar essa fratura na relação com as coisas de seu mundo. Há uma transvalorização de todos os sentidos e os discursos do louco respondem a uma forma singular de compreender e um esforço tremendo no sentido de se fazer compreendido. Essa subjetividade presente no discurso aponta para a constatação insofismável da fenomenologia, tantas vezes enfatizada por um outro filósofo expoente deste movimento, a saber, o francês Jean Paul Sartre. Para ele somos um ser condenado à liberdade. E, além disso, somos condicionados pelo Daisen  de sermos sempre um vir-a-ser num movimento dialético onde somos impelidos pelo desejo ou pela necessidade a adquirirmos novo estado de consciência e novo status de existência, assim escolhemos e nos tornamos diferentes de quem éramos anteriormente até sermos, novamente, impelidos a novas escolhas. Isso implica numa enorme responsabilidade de nós para com nós mesmos.
Voltemos ao caso do 'louco'. Talvez suas condições cognitivas e relativas à personalidade jamais se refaçam para chegar a de um sujeito 'comum', entretanto, a sua posição frente ao mundo é inevitavelmente mutável. Seu sofrimento talvez possa ser sublimado em ações positivas e produtivas a sujeito 'aprisionado' por um desvario. Mas isso implica na humildade e humanidade do terapeuta em aceitar que o sujeito constrói sua existência a partir de um mundo que não nos é familiar. Ele é vir a ser, sim, mas um vira ser dentro dos sentidos que ele mesmo constrói e, nesse ponto, termos a sensibilidade de conduzir um processo em que ele seja emancipado em seu próprio mundo é fundamental.
Vivemos as nossas verdades, buscamos o novo "Grande Talvez" onde cada um existe e escolhe dentro de seu mundo...porque na 'loucura' isso seria diferente?!?
Sempre seremos estrangeiros de outrem em nossa caminhada infinita do vir-a-ser e a subjetividade de nossos discursos não são mais ricos ou evoluídos do que aqueles que se comunicam na total des-linearidade dos eventos.
Admiro a fenomenologia enquanto abordagem existencial, por que nela somos incitados a percorrer estes outros mundos 'estrangeiros', de linguagens próprias e de tempos e sequências inexistentes ou incomuns ao nosso projeto existencial. Isto devolve humanidade aos 'entes' na sua  relação ser-mundo marcada por uma singularidade que nos define.
Defendo aqui, neste fragmento que escolhi para postar neste espaço estreito, a análise do discurso subjetivo do portador de transtorno mental em seu próprio fluxo de eventos e de consciência, sem parâmetros seguros que nos dê a reduzida medida dos sujeitos, que imponha a compreensão epistemológica e empírica das ciências para apontar direcionamentos conclusivos e paradigmáticos. Essa leitura também implica em concebermos a máxima fenomenológica da relação entre entes e mundo. Pois 'mundo' nunca é separado do ente (o ser), mundo é extensão do ser, não é algo separado, existente a priori ou a posteriori. Isso implica em conceber que nossas formas de olhar e de compreender se situam no mundo a partir de nossas próprias percepções. Não há como compreender o outro 'recortando-o' de seu mundo para colocarmos no nosso. 

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