Hoje optei pelo novo, pelo excêntrico, pelo extraordinário e desconhecido
esvaziando-me de excessos inúteis que calavam-me a boca, antesiavam os músculos e cerravam-me os sentidos.
Optei por libertar-me, em vida, das contradições, confusões e desconexões que pairavam sobre o cotidiano sempre igual de dias longos.
Fazer poeira da inércia e sacudi-la em direção às marés, pois há muito não sentia a força das ondas a arrebatar-me e os oceanos a tirar-me o fôlego, pois já era hora de expirar o ar já velho e cansado de dias enfadonhos e dar um basta neste tabuleiro de peças mecânicas, vulgarmente chamado de vida.
Ser livre é sempre opção, é condenação natural do ser, mas é necessário algumas doses de lucidez para quebrar as correntes que mantinham a alma atada as ruínas de uma embarcação estancada à beira mar. Encontrar o porto e as luzes do farol era meta. E o corpo gritava e estremecia por este momento, pois cambaleava pelas páginas tão absurdamente iguais dos livros da vida.
Não quero mais ser escrita, mas quero a posse da pena e do tinteiro para escrever aventuras pessoais deixando minha marca, para depois, reencontrar-me em letras por diversos caminhos que hei de cruzar.
Para soltar as cordas desta embarcação precisarei desfazer-me de bagagens envelhecidas, de roupas desbotadas, mas também de vícios, desordens, distorções e das tantas chagas que fizeram-me prisioneira de estruturas imóveis da existência.
Esvaziar-me-ia das emoções doentias, dos gostos amargos, das experiências torturantes, das ações ingênuas e impensadas. Arrancar-me das vicissitudes há muito arraigadas em meu ser não é tarefa fácil, mas me é redentora. É necessário sangrar para expulsar a vida cristalizada, as células inflamadas e infladas por todo acúmulo de não-pertencimentos retidos na inconstância da vida.
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