domingo, 22 de novembro de 2015

A magia da simplicidade: um espetáculo cujas cortinas jamais se fecham.

E naquele dia aprendi a mais bela e significativa das lições: de que toda a magia do mundo residia na simplicidade, este truque da natureza no qual sentimos extremamente ricos e prósperos na dimensão do  vazio. É justamente desse despojar-se de tudo e de nossos próprios excessos que ponho-me a discursar. Porque teve um dia que acordei querendo pássaros a soar seus cânticos poéticos no meu quintal, houve dias em que eu desejava rajadas de ventos tateando fortemente  vidraças. Nutria o desejo pela força e pela calmaria que se despendia do suspiro Em outros dias acordei desejando neve, sentindo os flocos a avolumar-se no meu casaco, a desenhar-me as linhas da face . Sonhei em sentir as forças da natureza a me carregar no colo para depois repousar no solo e despertar com o cheiro da terra molhada e a argila a hidratar-me a pele, a penetrar em meus poros e a relaxar os músculos já fraquejantes. Intencionava observar o orvalho da manhã e caminhar em direção às brumas para nelas me perder. Desejava a simplicidade de um sorriso sem motivo, daqueles que ficam impregnados por instantes diante do maravilhar-se. Maravilhar-se com o que? Com os desenhos nas nuvens do céu, com a possibilidade de descer as montanhas como tobogã, de ralar joelhos e cotovelos de ver os arlequins passarem todos maquiados  nas ruas, causando risos na cidadela ao longe, desejava os gracejos boêmios, a gargalhada espontânea, o desimportar-se deliberado das convenções, dos rituais. Queria me despojar das regras, anulá-las, estar de fronte a um imenso precipício para arremessar as pedras da rigidez, das mágoas, das angústias, de todas as dores. Quisera eu estar assim, com o olhar seduzido pelas mais ternas expressões das dimensões naturais, a abrir a janela de um casebre apenas para contemplar os sons, aromas e galhos dos arvoredos frutíferos, a deitar seus galhos elegantemente, oferecendo teus frutos silvestres. Desejava estar a  emocionar-me com o casal de pássaros amando-se num ninho destinando, aquele amor pueril, doce, singelo, com gosto de eternidade. Queria correr e girar em meio as correntezas dos ventos que sopram, fazer esconderijos atrás das árvores, das simplicidades de gestos, de atos, de olhares, de presenças. Queria o deleite das risadas boêmias, da magia dos sorrisos sinceros mas madrugadas afora. Queria olhar ao alto absorvendo a energia do etéreo, vivenciar a gratuidade da vida.

Falo da simplicidade que se expressa no céu estrelado, onde tudo que desejamos é pousar nosso olhar sobre a serenidade do céu salpicado de pequeninos pontos brilhantes, momentos em que a brisa converte-se em carícias ternas a tocar a face. 

Momentos de intensa magia acontecem após uma longa jornada sem destino, perdendo-se em meio a imensidão das estradas, em meio ao desfile de arvoredos, com suor na face e os músculos a fraquejar. Sem espaços, sem limites, perdendo-se em velocidades improváveis. Era o eclipse do êxtase total da experiência em meio à liberdade é presenciar o nascer do sol, em seus primeiros e tímidos raios a banhar a pele de um dourado reluzente.
Há momentos que não se deseja o conforto do travesseiro para repousar, tampouco de um lar para regressar. Há vezes que a alma quer ir mais longe e, frequentemente, longe do mal estar civilizatório em meio aos seus valores volúveis, a hipocrisia dos ritos sociais, ao acinzentado mundo das mercadorias e dos artigos de luxo. 
Hoje não queria escadas, elevadores, asfaltos, queria terra, montanhas, florestas, nuvens mais próximas do alcance dos meus braços. Queria bailar na chuva em meio ruas desertas, sentindo a chuva a banhar-me insistentemente.
Noutros, desejava estar aonde o reflexo do luar guia nossos passos incertos em direção ao santuário da alma, o lugar improvável, em meio a ruínas onde se é possível respirar a atmosfera silenciosa de territórios longínquos. 
Supliquei pelo retorno às essências em meio a paisagens bucólicas. A sinfonia da Mãe Natureza és tão bela que está diariamente a deitar seus ramos por entre os dias insanos que se passam no artificial mundo das metrópoles, onde vive-se  absurdez da vida em meio aos perímetros demarcados pelas pequeninas janelas dos arranha-céus. Todos envolvidos com seus afazeres enquanto a vida escorre por um conta-gotas apressado. E a ampulheta dos dias, a derramar apressadamente as areias em seu invólucro, nos recorda que é tempo de se desfazer de muitas camadas que nos retira deste contato sagrado com nós mesmos, que polui sonoramente o silêncio tão venerado pela alma e tão desrespeitado por tantas conversas sem conteúdo, tantos ditos, sem nada dizer. 


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